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Drucker para curiosos

Subitamente os media descobriram o «Pai» da Gestão na hora do elogio fúnebre. Para os mais pacientes oferece-se até uma citação para digerirem por dia ao longo de um ano.<br /> <br /> Correndo o risco de pecar por excesso de compactação de seis décadas de trabalho sistemático do autor sobre a doutrina do management, escolhemos 5 momentos da obra de Peter Drucker, que faleceu em 11 de Novembro em sua casa em Claremont, perto de Los Angeles.<br />


Subitamente os media descobriram o «Pai» da Gestão na hora do elogio fúnebre. Para os mais pacientes oferece-se até uma citação para digerirem por dia ao longo de um ano.

Correndo o risco de pecar por excesso de compactação de seis décadas de trabalho sistemático do autor sobre a doutrina do management, escolhemos 5 momentos da obra de Peter Drucker, que faleceu em 11 de Novembro em sua casa em Claremont, perto de Los Angeles.

Poderão servir de entrada para o leitor explorar depois os múltiplos ângulos deste personagem marcante que aos 90 anos ainda comia lasanha com o apetite de um adolescente e falava empolgado horas a fio sobre o filme da história do século XX.

1 A GRANDE EMPRESA
«Corporation» chamam-lhe os americanos desde os anos 1920 quando Alfred Sloan deu a volta à General Motors. Drucker estudou a empresa durante 18 meses e produziu 247 páginas compactas sobre o que ele considerou «uma nova instituição social e uma comunidade que tem de ser gerida e estudada como tal», sublinhou em The Concept of the Corporation, publicado em 1946. Apesar de ele ter descrito entusiasticamente o principal pilar do capitalismo industrial a grande empresa baseada na «descentralização federal» e «plana» com «o menor número possível de níveis de gestão» -, o CEO da Chevrolet de então acusou-o de «esquerdista» e o presidente da Westinghouse proibiu-o de entrar na empresa considerando-o um «bolchevique». A massa crescente de gestores adorou o livro, para «própria surpresa» do autor. Drucker descobrira o filão do management moderno.


2 UMA PRÁTICA QUE SE APRENDE
A segunda «descoberta» de Drucker foi rebentar com um mito a ideia da gestão como algo intuitivo, dom de alguns pequenos deuses empresariais, como hoje ainda são apresentados muitos CEO. Para as 466 páginas em letra miudinha de The Practice of Management, publicado em 1954, o autor inspirou-se na Sears e na IBM da época, e, por mais paradoxal que pareça, para deixar a mensagem que a gestão é uma prática susceptível de ser sistematizada e aprendida. «O principal objectivo é diminuir o fosso (...) entre os líderes do management e a média», e mais adiante: «É também escrito para o cidadão sem experiência directa na gestão». No capítulo 22 do livro, em jeito de Manifesto (nas suas próprias palavras), faz uma apreciação crítica muito dura do chamado «fordismo». E sentenciou a páginas 352: «A linha de montagem automóvel não é um modelo para o trabalho humano. É um modelo, já obsoleto, de trabalho maquinal, mecânico, não humano». Ao dar ao comum dos mortais esta ferramenta sistematizada, Drucker permitiu a explosão da revolução da gestão, e a afirmação progressiva dos gestores como nova camada social.

3 O EMPREENDEDOR
Foi o primeiro livro de Drucker traduzido, apenas com um ano de atraso, em Portugal em 1986 com o título Inovação e Gestão (pela Presença), apesar de no original constar Innovation and Entrepreneurship. Nessa altura o palavrão empreendedorismo ainda não estava na moda. Com esta obra, ele quis dar uma guinada na literatura de management exigia uma atenção sistemática à inovação e ao seu «actor social», o empreendedor. Drucker tinha bebido o sentido profundo do termo em Schumpeter, que conhecera, ainda de calções, em casa dos pais em Viena de Áustria. O grande economista era quase como um filho para o pai de Drucker, e, sendo assim, como que o irmão mais velho do jovem Peter. Neste livro, o dote de sistematizador veio mais uma vez ao de cima: «Discuto em seguida o que fazer e o que não fazer para desenvolver uma ideia inovadora e transformá-la num negócio ou serviço viável». E a páginas 212 tem esta preciosidade: «O fundador tem de aprender a tornar-se o chefe de uma empresa em vez de uma vedeta rodeada de ajudantes».

4 O 3º SECTOR
Para quem olhe para Drucker como o homem que teorizou a prática dos Alfred Sloan Jr. (GM) e dos Thomas Watson Jr. (IBM) do capitalismo do século XX, ficará surpreendido que desde há uns 15 anos que este autor se tem empenhado pessoalmente em desfazer a ideia nas organizações da sociedade civil de que «o termo gestão era uma palavra feia». Ele arriscou dizer em As Organizações Sem Fins Lucrativos (publicado em 1991 na América), para escândalo de muita gente, que o que hoje chamamos de terceiro sector era «a indústria de crescimento por excelência da América». Depois um grupo de amigos de Drucker criaria a Peter Drucker Foundation for Non-Profit Management. Gerou um novo tipo de público para os livros de management desde reitores e administradores de universidade, passando por sindicalistas e fundadores do que se viria a chamar de organizações não-governamentais, até responsáveis de igrejas de diversos credos.

5 PÓS-CAPITALISTA
Ele já escrevera em 1954 que a grande empresa era a «primeira organização em larga escala baseada no conhecimento» em que aflorava um novo actor social, o trabalhador do conhecimento. Mas foi quase 40 anos depois que tirou daí todas as ilações ao argumentar em 1993 que na «sociedade para que nos estamos a encaminhar muito rapidamente, o saber é o recurso chave». A obra A Sociedade Pós-Capitalista, traduzida pela Difusão Cultural, afirmava sem rodeios: «O capital está a tornar-se redundante, não é mais um factor de controlo», pelo que a sociedade caminhará para algo cujo adjectivo já não é «capitalista». O novo grupo social é hoje 1/3 da população activa e será 40% em 2020, segundo o estudo que Drucker divulgou no The Economist em 2001.


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