Dia de fossa

Você se considera feliz? De verdade? Você poderia dizer que é feliz além do Facebook e do Instagram? Se sim, pra provar isso a si mesmo, quero que você, onde estiver, levante e dê um grito bem alto. Não, eu estou brincando. Faça só se você quiser. Ou, se você for feliz de verdade

O choro copioso, aquele que você soluça para dentro e grita segurando uma toalha no rosto, é ótimo para descobertas extraordinárias.

Você se considera feliz? De verdade? Você poderia dizer que é feliz além do Fabebook e do Instagram? Se sim, pra provar isso a si mesmo, quero que você, onde estiver, levante e dê um grito bem alto. Não, eu estou brincando. Faça só se você quiser. Ou, se você for feliz de verdade.

O que você acha que é ser feliz? É estar bem sempre?

E se eu te dissesse que é possível ser feliz estando triste, você acharia possível?

Como você lida com a tristeza? Quando está triste, você diz que está ou esconde a sete chaves? Você se permite dizer, a si mesmo e às outras pessoas, que hoje é o dia de fossa? De verdade, de peito aberto, sem medo de não ser aceito?

(O que eu quero dizer com isso é que) Estamos tão acostumados a mostrar pro mundo as nossas conquistas, nossas vitórias e alegrias e ver das outras pessoas o mesmo comportamento, que às vezes não cogitamos a ideia de que todo mundo chora (alto ou baixinho, pra dentro ou pra fora, mas todo mundo chora), todos temos dores. Dores que não mostramos, dores das quais não falamos, limitações que nos ferem e que não assumimos, mágoas que não declaramos ter (nem pra nós mesmos). Por vezes nos sentirmos um lixo, um nada, tristes, apavorados, com medo do desconhecido, com medo de perder…com inveja, incapazes, improdutivos; sem a capacidade de amar e ser amado; são tantas as dores… e se não bastasse ainda nos sentimos culpados por estarmos mal, como se fossemos os únicos a sofrer daquela maneira; como se o resto do mundo fosse feliz e a nós sobrasse dias intermináveis de fossa e não aceitação.

A verdade é que TODOS nós temos esses dias, uns menos, outros mais; mas todos temos um dia de fossa.

Então, como é possível ser feliz estando triste?

Eu diria que o reconhecimento real de que estamos tristes e que temos o direito de estar assim é o fator chave para ser feliz mesmo estando triste. Declarar que não estamos bem dá abertura para o questionamento consciente dos próprios sentimentos, isso nos leva a um entendimento melhor de nós mesmos e então uma possível resolução da questão (que pode ser imediata ou levar anos, quem sabe, o importante é chegar lá, na evolução da questão). Quando há esse movimento, de assumir o sofrimento, é como se disséssemos: “estou mal e tudo bem”, “estou mal e preciso de colo”, “estou mal e isso me fará amadurecer”, “estou mal e isso fará de mim uma pessoa melhor pois desenvolverei empatia”, “estou mal e admitir isso não faz de mim uma pessoa fraca”, “estou mal e tenho o direito”, “estou mal e não preciso de um motivo”, “estou mal e pronto”!

Para não falar que vivo de teoria, vou te mostrar que assumo minhas dores, tenho (vários) dias ruins e tudo bem. Essa é uma imagem de mim em um dia de fossa, muita fossa.

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Aconteceu assim: há dias eu estava irritada, com medo, triste, e embora eu estivesse me dando o direito de estar daquele jeito, eu, que sempre procuro a causa das minhas questões, não estava conseguindo encontrar uma teoria clara pra tamanha aflição. Até que em uma noite, eu e meu marido decidimos assistir a um drama (adoro os dramas porque eles têm um poder incrível de refletir nossa condição interna, e porque eu me resolvo – e choro – muito assistindo a dramas, que pra mim é como lavar os sentimentos). Como o de costume, durante o filme, comecei a chorar um chorinho tímido, até que tomou um nível copioso, e…Bingo! Achei a causa da minha tristeza!

(O choro copioso, aquele que você soluça pra dentro e grita segurando uma toalha no rosto, também é ótimo para descobertas extraordinárias.)

Vendo meu estado choroso, meu marido pausou o filme e me ofereceu seu peito (um dos meus lugares preferidos no mundo) pra que eu terminasse o que eu havia começado (aqui, estamos falando de choro, ok?). E, então, aguardou a hora que eu estivesse pronta para falar: ele, na maioria das vezes, não fala nada, apenas me escuta, mas isso (falar) é o suficiente para que eu elabore todas as minhas emoções e sentimentos e, assim, tenha insights emocionais esclarecedores.

Depois disso, levantamos, comemos, registrei o momento pós choro que você viu aí em cima, e eu estava ótima, pronta pra próxima, de verdade – eu já compreendi que de tempos em tempos eu preciso ter discussões internas assim. Voltamos a assistir ao filme e agora, eu estava aliviada.

A minha felicidade e gratidão não deixaram de existir dentro do meu peito porque eu estava triste e incomodada, isso não acontece mais: desde que assumi (pra mim mesma) que tenho momentos de intensa euforia e intensa tristeza, eu aprendi a fazer tudo isso coexistir dentro de mim; aprendi que isso faz parte da minha essência, que são essas oscilações que me dão a visão que tenho, que é a combinação desses sentimentos tão adversos que me faz interessante e ter histórias pra contar. Por isso sou feliz sendo triste e consigo ver tristeza em ser feliz.

Pra mim:

  • chorar copiosamente;
  • falar sobre o que me incomoda;
  • escrever;
  • ter um peito pra deitar;
  • ouvir uma música melancólica;
  • assistir filmes dramáticos;
  • ter intensos diálogos internos enquanto lavo louça ou dirijo (uma vez minha filha perguntou quem é que eu estava cumprimentando tamanha minha gesticulação em conversar comigo mesma no trânsito)

Me ajudam significativamente a encontrar respostas; as minhas respostas, as que condizem com a minha realidade e a de mais ninguém.

E você, o que você faz pra lidar com as suas dores? Conte pra mim aqui nos comentários.

É fato que cada um terá o seu ritual pra lidar com os dias de fossa, isso é individual, mas sem dúvida, assumir que a dor existe é o primeiro passo para se libertar dela ou, quem sabe, crescer com ela de tal modo que ela deixe de fazer sentido.

Ps.: Postei aqui fotos do meu momento pós choro, eu te desafio a me mandar uma foto sua de dia de fossa. Como você lida com um dia (muito) ruim? Vamos falar mais sobre isso. Falar sobre nossas dores para que elas sejam aliviadas, resolvidas e aceitas.

Publicado originalmente no Blog Quem Crescemos

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