Despediram o João Bomsenso

Para que a criatividade tenha espaço para aflorar e tornar possível o impossível, sempre devemos solicitar ajuda do João Bomsenso, principalmente quando precisamos colocar em ação as idéias inovadoras que nos ocorrem.

Em 1976 Cirigliano publicou um artigo em Juicio de la Escuela em Buenos Aires. Apesar do tempo ainda hoje podemos tirar lições interessantes.

Conta que certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde se encontravam alguns porcos. Estes foram assados pelo incêndio. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram os porcos assados e acharam deliciosos. Logo, toda vez que queriam comer carne assada incendiavam a floresta...


O sistema foi desenvolvido e aperfeiçoado. Mas nem sempre as coisas iam bem: às vezes os animais ficavam queimados ou parcialmente crus; outras, de tal maneira queimados que era impossível utilizá-los.

Em razão das deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de se reformar profundamente o Sistema. Tanto assim que, todos os anos, realizavam-se congressos, seminários, conferências e jornadas para achar a solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo, porque no ano seguinte repetiam-se os congressos, os seminários, as conferências e as jornadas.

A causa do fracasso do Sistema, segundo os especialistas, podiam ser atribuídas ou à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam - no meio da floresta - ou à inconstante natureza do fogo, difícil de controlar, ou às árvores excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade de chuva, ou...

Como se vê, as causas eram difíceis de determinar porque, na verdade, o sistema para assar os porcos era muito complexo. As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo de acordo com a velocidade do vento sul, soltar os porcos 15 minutos antes que o fogo-promédio da floresta alcançasse a floresta toda; outros diziam que era necessário instalar grandes ventiladores que serviriam para orientar a direção do fogo e assim por diante. Poucos especialistas estavam de acordo entre si e cada um tinha investigações e dados para provar suas afirmações.

Um dia, um investigador da categoria baixa, chamado João Bonsenso falou que o problema era muito fácil de se resolver. Tudo consistia, segundo ele, primeiramente, em matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal e colocando-o, posteriormente, numa jaula metálica ou armação sobre brasas, até que o efeito do calor e não das chamas, o assasse ao ponto.

Ciente, o Diretor Geral de Assamento mandou chamá-lo e perguntou que coisa esquisita ele andava falando por ali. Depois de ouvi-lo, disse-lhe: o que o senhor fala está bem, somente na teoria. Não vai dar certo na prática. Pior ainda, é impraticável. O que o senhor faria com os anemotécnicos, com os acendedores, com os especialistas, com a comissão redatora de programas de assados? João Bomsenso, perplexo apenas respondeu, não sei. Diante disso o Diretor Geral continuou; temos que melhorar o que temos e não muda-lo. Ao senhor falta sensatez, senso-comum, pare de ficar dando sugestão sobre um assunto que não te diz respeito, pois o senhor poderá trazer problemas para o senhor no seu cargo. Eu falo pelo seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo.

João Bonsenso, coitado, não falou um A. Sem despedir-se, meio assustado e meio atordoado com a sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu e nunca mais ninguém o viu. Não se sabe para onde foi. Por isso é que, até hoje é costume dizer que, na tarefa de reforma e melhoria do Sistema, falta o bom senso.

Se fizermos a seguinte pergunta: Qual é a qualidade que poucos possuem, mas que todos julgam possuir? A resposta mais óbvia será: bom senso. Faça uma pesquisa. Essa é uma das poucas questões da vida em que há unanimidade nas respostas.

Mas, afinal, o que é um gestor de bom senso? É aquele gestor ponderado. É aquele que, ao necessitar tomar uma decisão em relação à determinada questão, sabe ponderar, isto é, tem habilidade para segmentá-la e atribuir pesos adequados a cada parte da questão em análise.

Na avaliação de um problema, o gestor de bom senso enxerga à sua frente uma pizza fatiada. Cada fatia representa um ângulo do problema a ser analisado. E, assim, o gestor de bom senso valoriza cada um dos ângulos e toma a decisão mais conveniente.

O gestor de bom senso também tem consciência de que, uma vez tomada determinada decisão, terá que trabalhar os descontentes, pois, caso isso não seja feito, eles poderão influir negativamente no resultado da ação a ser executada. Utilizar o bom senso é uma das principais maneiras de tornar possível o impossível.

Mas, as vezes é necessário despedir e não utilizar o bom senso.

Pode parecer paradoxal fazer tal afirmação. Acontece que não vivemos mais em um mundo em que as ocorrências seguem uma lógica linear. Conviver com paradoxos, agir muitas vezes de forma não-lógica devem ser características básicas do gestor atual. O gestor que sempre segue a corrente simplesmente faz o que todos fazem. E, quando uma empresa faz o que todas fazem, ela não inova. E quem não inova não consegue tornar possível o impossível. Perceba que não escrevi não ter bom senso e sim não utilizar o bom senso o que é diferente.

A pessoa de bom senso precisa ter consciência de que assim como em muitos momentos basta utilizar o bom senso, também existirão momentos em que não utiliza-lo é a melhor saída. É aquele momento em que se deve se desprender das normas, ignorar as regras, enfim, é o momento em que se deve contrariar o bom senso, deixando-o de lado. Tornar possível o impossível é conseqüência da inovação. E a inovação é fruto da criatividade que, por sua vez, manifesta-se mais facilmente quando utilizamos uma certa irreverência isto é, quando nos libertamos de normas e regras. Por isso é importante deixar o bom senso de lado se quisermos criar um ambiente de certa irreverência, se quiser tornar possível o impossível.

Atenção, embora em muitos momentos possamos reprimir o bom senso para que a criatividade tenha espaço para aflorar e tornar possível o impossível, sempre devemos solicitá-lo quando precisamos colocar em ação as idéias inovadoras que nos ocorrem.

E você já despediu o João Bomsenso?


ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.