Desfrute, antecipadamente, da herança de seus filhos

O aprendizado e a troca não se restringem apenas aos novos lugares e diferentes culturas visitadas, mas também às trocas que ocorrem com passageiros das mais distintas nacionalidades

Entre algumas das experiências marcantes da minha vida – até os dias atuais, e já me aproximando dos 80 - foi a de realizar dois cruzeiros de Volta ao Mundo. Com a duração de quatro meses cada um.

O aprendizado e a troca não se restringem apenas aos novos lugares e diferentes culturas visitadas, mas também às trocas que ocorrem com passageiros das mais distintas nacionalidades.

Afinal, é tempo suficiente para estabelecer trocas e diálogos interessantes.

Curiosamente, em uma destas conversas, ao perguntar a um casal o porquê da viagem, a resposta intrigante que obtive, foi:
“Estamos aqui gastando a herança dos nossos filhos...”

É evidente que esta afirmação provocou amplos e interessantes bate-papos, ao longo do restante da viagem.

Essa experiência tem retornado mais fortemente, à minha memória, na medida em que tenho me dedicado, cada vez mais, à pesquisar, escrever e realizar palestras sobre o desafiador tema da longevidade.

Portanto, quero aproveitar esta oportunidade para convidar o leitor a que façamos algumas reflexões sobre um dos desafios que está caracterizando o século XXI.

Refiro-me ao aumento da expectativa de vida, paralelamente ao decréscimo da natalidade, que se reflete no tão relevante tema do aumento da Longevidade. Reforçado pela extensa, e também atual, debate sobre a questão previdenciária, tanto no âmbito das políticas públicas, serviços privados e previdência social.

Por muitas décadas, tanto na cultura ocidental, bem como também em muitas outras, era considerado “natural” que os filhos assumissem a responsabilidade de cuidar dos pais no seu processo de envelhecimento.

Por outro lado, uma parte significativa de pais se preocupava em construir um patrimônio, ou reservas financeiras, que tinha como principal objetivo facilitar a vida dos filhos na fase adulta.

Ou seja, poupá-los de algum sacrifício, esforço ou necessidade de buscar conquistas próprias, que exigissem determinação, empenho e eventual confronto com o fracasso ou sucesso. Ambos de caráter duvidoso ou temerário, para quem se considerava despreparado para os embates da vida.

É possível perceber que nos últimos anos, com as incertezas econômicas, aumento nos índices de desemprego e as radicais mudanças globais, tecnológicas, sociais e no mundo corporativo, estas características protetoras de muitos pais se acentuaram.

Mas é evidente que, de forma alguma, este conjunto de causas justifique que os pais assumam responsabilidades que ultrapassem o compromisso de preparar seus filhos para a vida e o mundo. Não para si, e menos ainda para sua expectativas patriarcais.
Retornando à frase que deu título à essa crônica, vale refletir sobre a importância que cada geração assuma suas respectivas responsabilidades por ser autor e personagem da sua história de vida.

A preocupação de muitos pais, de construírem um patrimônio ou reserva financeira para seus descendentes, não tem se mostrado a melhor forma de encaminhar a vida dos filhos.

Vale sempre registrar que as transformações que se acentuaram já no início do século XXI, impactam de forma muito especial as estruturas familiares.

Relações conjugais, respeito à individualidade, aumento da contribuição feminina tanto nas questões financeiras como também na sua maior autonomia e a educação dos filhos, necessitam ser olhadas com maior interesse e preocupação.

Fica aqui uma provocação para que as famílias incluam este tema nas suas, cada vez mais raras, oportunidades de diálogo.

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