Desemprego na meia-idade: crise ou oportunidade?
Desemprego na meia-idade: crise ou oportunidade?

Desemprego na meia-idade: crise ou oportunidade?

O despreparo para enfrentar crises da meia-idade tem aumentado. Especialmente entre as figuras masculinas

Uma das constatações que tenho feito, em mais de meio século de atividade profissional, é que a maioria das pessoas que não se apropriaram da sua existência, e nem ao menos se tornaram autoras da sua própria história de vida, apresentando uma grande dificuldade para encarar os desafios de um viver pleno.

De forma muito especial esta dificuldade costuma ocorrer em três momentos do percurso da vida de uma significativa parcela da população. A saber:

- No momento de escolher o que vai estudar, e a profissão que pretende seguir;

- Em alguma crise da meia-idade, envolvendo situações como desemprego, separação conjugal, educação e preparo dos filhos, problemas com saúde ou depressão;

- Na etapa da aposentadoria.

A primeira questão apresentada tem como uma das principais causas a maneira como os pais atuam em relação aos filhos. É surpreendente ver, ainda nos dias atuais, como cresce o número de casais que não preparam os filhos para a “vida”, entendendo “vida” na plenitude do que isto significa em termos de existência, busca de sentido, ou a própria razão de viver.

Sua orientação, em geral, se limita apenas ao processo que visa decidir o que estudar, e uma “boa” profissão a ser seguida.

Continuam existindo pais que se julgam em melhores condições de fazer as opções pelos filhos, com o antiquado discurso de que sua “experiência” vale mais do que o aprendizado que um jovem pode obter ao administrar suas dúvidas e inseguranças no processo de busca e suas alternativas.

A maioria dos pais não prepara os filhos para encarar os fracassos, mas orienta – ou manipula – apenas para as formas de conseguir sucesso, direcionando os mesmos para carreiras e o emprego, focando essencialmente naqueles que se apresentam como possibilitadores de uma ascensão permanente.

Raros são ainda os que consideram o empreendedorismo como alternativa à suposta segurança da vida corporativa ou do emprego público.

É evidente que este despreparo da primeira etapa vai se fazer sentir na meia-idade, especialmente se as escolhas – tanto pessoais como profissionais – foram feitas com base nos conceitos de busca da “segurança”, e o desejo de que alguém – instituição, governo, empresa, família etc. – vai “cuidar de mim e da minha carreira”.

Basta ver o quanto crescem e são demandadas, no mercado, as “receitas” de autoajuda, que não estimulam autonomia, mas, muito ao contrário, geram dependência... da mesma forma como fazem muitos medicamentos de tarja preta.

Um dos valores de uma “crise” na meia-idade é que, com o aumento da longevidade, ainda há um bom tempo para a busca de estímulos, orientação, provocações, espiritualidade etc., e para assumir o controle da sua vida. Mas isto é para aqueles que enfrentam a crise, diferentemente dos que buscam evitá-la. Mas, acima de tudo, para aqueles que buscam formas de se reinventar e encontrar novos sentidos de viver. E que preservem a autoestima.

Por último, e não menos importante, a etapa da aposentadoria.

A maioria das pessoas não se prepara – preventivamente – para esta fase da vida.

Imaginam, para esta nova fase, uma ilusória etapa de “puro desfrute”, tendo um passado integralmente dedicado ao trabalho e à carreira.

E esta crise é ainda mais aguda nos homens do que nas mulheres, que ao longo da sua vida exerceram sempre outros papéis, além do de profissional, tais como esposa, mãe, vida comunitária...

E no universo masculino a maior dificuldade tem se apresentado entre os profissionais de média e alta gerência. Os chamados “executivos” que se acostumaram com todas as “mordomias” do mundo corporativo.

Além de perderem sua “identidade organizacional”, que lhes abria portas e lhes dava alguma importância social, agora se tornaram apenas “ex”, o que nada significa.

Embora uma representativa parcela tenha se preparado financeiramente para manter o padrão de vida, e também tenha cuidado da saúde, não fez o mesmo no que se refere a um “projeto de vida” que permita se reinventar de forma a poder encarar, com qualidade, esta nova fase.

Estes desafios são hoje muito maiores na medida em que estamos observando um aumento nos índices de longevidade, o que tem aumentado o surgimento de depressão, separações conjugais e suicídios.

As provocações deste artigo não trazem receitas, mas visam alertar, causar incômodo, fazer pensar e, acima de tudo agir, de forma especial, a todos aqueles que se situam na meia-idade; e a aqueles que ainda têm a possibilidade de estar considerando tanto o seu próprio projeto de vida, bem como de buscarem alternativas para o preparo dos filhos para a vida... cada vez mais complexa e desafiadora.

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