Desemprego entre profissionais de nível superior

Uma reflexão sobre algumas situações relacionadas com o mercado para profissionais de nível superior

Tempos difíceis.

A dura e cruel realidade do capitalismo selvagem está se assomando à nossa sala de jantar: “O desemprego”

Inacreditavelmente, temos chegado a este ponto, da mão dos outrora, maiores detratores do sistema capitalista e das teorias que o sustentam.

Uma sucessão incontável de erros e lamentáveis procederes, acompanhados por outras ardilosas, escuras e enganosas estratégias têm criado uma situação confusa, um atoleiro, do qual certamente sairemos, mas quando?

Ninguém desejaria carregar o peso do tempo. Aguardar dezenas de anos para tentar acertar o rumo ou corrigir, reconhecer, assumir ou justificar erros. Esta não seria em hipótese alguma, a perspectiva mais desejada para o futuro. A nossa hora, o nosso momento é agora, é hoje, aliás, está sendo ontem.

Vale lembrar a definição a seguir, tomada do Wikipédia: “Exército industrial de reserva é um conceito desenvolvido por Karl Marx em sua crítica da economia política, e refere-se ao desemprego estrutural das economias capitalistas. O exército de reserva corresponde à força de trabalho que excede as necessidades da produção. Para o bom funcionamento do sistema de produção capitalista e garantir o processo de acumulação, é necessário que parte da população ativa esteja permanentemente desempregada. Esse contingente de desempregados atua, segundo a teoria marxista, como um inibidor das reivindicações dos trabalhadores e contribui para o rebaixamento dos salários”.

Desde o meu modesto ponto de vista, mais do que exceder às necessidades de produção, a disponibilidade de força de trabalho excederia às oportunidades de crescimento e desenvolvimento existentes e fornecidas pela sociedade, entenda-se governo, que estão aquém das necessárias e das que de fato poderiam ser executadas.

Certamente, esse contingente de desempregados regula as reivindicações dos trabalhadores, sim, mas daqueles que estão empregados, dos que restaram, por medo a perderem essa preciosidade chamada emprego, mas por outro lado, a crescente massa de desempregados, não comprometida com represálias e que tem como únicas alternativas lutar ou perecer pode agir de maneira inesperada e com força incontrolável, como uma bomba relógio, podendo constituir um motor impulsor dos processos e das mudanças, nos países onde esta situação esteja presente, pese à repressão instaurada e a idiossincrasia dos povos.

O exército de desempregados não é a única causa da desvalorização do profissional, no que se refere à remuneração. A crise econômica não é um fantasma, não é miragem, é real. Não há dinheiro. O dinheiro sumiu do lugar onde deveria estar. O subemprego nos aguarda.

A instabilidade social originada pela criação desse exército de desempregados, com sua dualidade e ambiguidade de consequências, acredito não seja o objetivo das sociedades atuais. Muito menos o será manter parte da população economicamente ativa desempregada. Este seria o canteiro para a delinquência, as abismais diferenças sociais, o tráfico de entorpecentes, o roubo e a violência nos grandes centros populacionais. A violência urbana e rural, não é boa para nenhuma classe social. As balas, nem sempre acham o alvo mirado.

Mas não podemos negar que a massa dos sem emprego é grande e não para de crescer.

As poucas vagas ofertadas, ou se alguém quiser refutar exemplificando com estatísticas que pouco aportam e dizendo que não são poucas, ao menos são bastante insuficientes para atender às necessidades atuais e disso não há a dúvida alguma, são perseguidas por um número surpreendente de candidatos de toda índole.

As ofertas de emprego para nível superior estiveram precedidas de um período de apologia, onde se pregava que existiam inúmeras vagas, com astronómicos salários, benefícios e status, mas que os profissionais não estavam preparados, devidamente qualificados para ocupa-las. Sempre se exigia um a mais e os mesmos corriam em desbandada para elevar a superação, encher as aulas de pós graduações, MBA, especializações, doutorados, PMP, cursos de línguas estrangeiras, imersões, intercâmbios e todo tipo de estudos, mas descuidaram o conhecimento prático, a experiência de apalpar e fazer.

Os CVs, para muitos não tinham valor ou até chegavam a sentir constrangimento, se não apareciam algumas das palavrinhas mágicas, tais como: gerente, supervisor, líder, coordenador, diretor, CEO, executivos que não eram e são mais do que meros figurantes ou até secretários de luxo, etc. Todos se esforçavam por incluir de alguma maneira estes títulos honorários ou induzir os resumos e cartas de apresentação nessa direção.

A superação e a ascensão profissional foram, são e serão sempre bem-vindas. Constituem uma realização. Não reconhecê-lo não seria honesto, seria uma hipocrisia, mas...

O tempo passou.

De líderes e gerentes, de pessoas que mandam e supostamente, cuidam de equipes, as empresas estão saturadas, mesmo podendo ser eles bons ou ruins. Por outro lado, os que ainda permanecem na função, não deixariam entrar “sombras” nas organizações, impondo restrições e barreiras aos novos entrantes. A crise também ensinou que algumas destas posições eram factíveis de prescindir, descartáveis, desnecessárias.

Com o passo dos anos e com a inversão do que era valorizado na trajetória dos profissionais, moldando o que era colocado naqueles “papéis digitais” que suportam qualquer gerigonça de vocábulos e siglas e para os quais existiam e existem cursos para te ensinar a manipular o pensamento das comissões dos processos seletivos, as pessoas ficaram sabendo menos de coisas concretas, de atividades realmente produtivas.

A informação chegou a ser um ativo tão forte e importante, que os indivíduos esqueceram-se do saber, no que se refere à conhecimentos puramente técnicos e a materialização dos mesmos. As pessoas ficavam muito preocupadas em poder falar sobre diferentes temas, quanto mais, melhor, o suficiente como para aparentar conhecimentos.

Com certeza, a informação nos tempos atuais e futuros, é e será um ativo extremamente importante. Mas a informação precisa de bases sólidas e de sustentação com a realidade, de materialização.

Hoje, a corrida é pelo QI (quem indica) e nesta direção existem casos de ainda poderosas empresas, que recorrem à chantagem encoberta, graças às esferas de influência e a providenciarem os quase únicos projetos do mercado, de controlar processos seletivos com cartas marcadas, para favorecer e atender compromissos contraídos com especialistas de confiança ou envolvidos nas questiones dos projetos o que não necessariamente quer dizer que sejam capacitados, mas possuem uma característica, que não consigo cataloga-la.

Eles são incondicionais e eternamente gratos pelo apoio que receberam em tempos difíceis, quando mais o necessitavam. Isso não tem preço. Isso não é “commitment” ainda que pudesse ser confundido. O compromisso não é com o serviço, senão com quem te colocou nele.

Talvez, isso seja o mais importante para manter a cadeia de favores, que viaja em todas as direções, porque a final, encontrar alguém que saiba e que assuma para executar corretamente os serviços é coisa de gestão futura. Mais dias ou menos dias, se encontra. Mais demitidos, mais contratados, mais dinheiro gasto dos outros, sempre se acha. É esta a dinâmica que passa pelas cabeças desses seres.

Em tempos de instabilidade e desespero, a probabilidade de cometer erros que agravam a situação, o estado de coisas, é alta. As empresas até pelo grau de pessimismo do mercado e de “Não Futuro” começam demitir de maneira arbitrária e louca. Muitos estão possuídos pela epidemia, pela desesperança. Não encontram uma luz no fim do túnel. Alguns não sabem nem que estamos dentro de um túnel, outros nem imaginam que o túnel existe, outros sequer pensam na possibilidade da luz.

Num mundo tão globalizado, vários fatores externos influenciam e muito, ainda que não consigamos sempre enxergar a incidência de alguns fatos no nosso mundinho.

Seria como erradamente pensar que a alta do dólar só afeta a classe média e a classe alta porque viajam para o exterior, sem entender que o primeiro que se afeta nessa brincadeira, é o pãozinho que todos comemos e compramos na padaria da esquina de casa, para completar o café da manhã. Aquele trigo, daquela cepa cheia de glúten e que gera a farinha do nosso adorado pão, é adquirido em dólares, em mercados fora do país.

O que sim é importante, é que cada dia que passa, falta menos para chegar a uma solução. Ao menos, o dia que passou, já o vencemos de alguma forma.

Até aqueles que inexplicavelmente se favorecem com as crises, têm um prazo de validade dos seus lucros limitado e chegarão a um ponto onde também começarão a lutar para reverter a situação e continuar lucrando em condições melhores e menos hostis. As possibilidades de enriquecimento numa economia estagnada, simplesmente se atrofiam para todos.

O mercado caiu na real. As indústrias, os projetos, os processos estão precisando de conhecimentos e experiência prática, que estão em déficit, visando evitar retrabalhos e infinitas perdas. O tempo não está para se perder dinheiro por incompetências. O tempo que passou não o podemos trazer de volta. O futuro se inicia hoje e por que não, o iniciamos ontem.

Mas não há motivos para se sentir desconcertado, num beco sem saída. Sempre haverá vagas para gestores e para executantes também. O que é inegável, que ser um bom gestor, que sabe executar bem, abre mais portas ou pelo menos janelas, ainda que alguns acreditem que isso não existe ou é profissional em perigo de extinção.

Afortunadamente, não estamos no fim dos tempos.

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