Der mythe del manager

<i>A invenção histórica do gerente corresponde à verdade de uma sociedade e de uma cultura: um conceito mágico e universal, que seduziu corações e mentes. Até quando?</i>

A invenção histórica do gerente corresponde à verdade de uma sociedade e de uma cultura: um conceito mágico e universal, que seduziu corações e mentes. Até quando?


Nós citadinos corporativos, estranhos seres de arbítrio livre pelo direito e limitado pelas circunstâncias, vivemos sob difusa mitologia. Este imaginário é pródigo em modelos de rápida absorção: são estrelas de cinema, esportistas e, cada vez mais, executivos e empresários. Tais heróicas figuras são sobre-humanas: fortes, competentes, inteligentes e, principalmente, sagazes. Quando comuns mortais são alçados a condição de celebridades, desencarnam e passam a viver num mundo paralelo, manifestando sua presença em capas das revistas e na Ilha de Caras. Vultos espectrais de aura trepidante e brilho duvidoso, são alimentados pelas carências coletivas e sustentados por um exército de relações públicas.



Entre esses seres mitológicos, um tem universalmente se destacado: o gerente; ou, como dizemos em todo o Planeta: o manager

. Onipresente, ele ilumina as rudes hordas a partir dos mais altos degraus das pirâmides empresarias. Como mítica figura que é, este Ulisses neo-moderno habita os sonhos dos trainees e as páginas das revistas de negócios. Ser gerente é evoluir, transmutar-se, aproximar-se do Olimpo. Num dia de graça, acorda-se reles mortal: administrador ou engenheiro. Ao final do dia, o poder e a glória impresso em papel timbrado: sói gerente!



Numa sociedade de mobilidade reduzida, dividida em estamentos tão distantes quanto a Terra de Plutão, onde a meritocracia é ainda artefato de retórica, ser alçado ao panteão gerencial significa alcançar novo patamar da existência. Mesmo nas empresas da chamada nova economia, cheirando a cueiros, enxutas e empreendedoras, novos contratados fazem questão do título. Independente da função, pompa e circunstância devem adornar o cartão de visitas, de preferência em inglês o idioma oficial do Olimpo corporativo. Por mais esdrúxulo que pareça, muitas empresas tupiniquins já adotam siglas como CEO, CIO ou CFO. Justificativa: padronizar cargos com as matrizes ou facilitar a comunicação com investidores. Off record: um título em inglês, desses que aparece na Fortune ou BusinessWeek, sempre é mais vistoso. Afinal, o mito do gerente também vive de plumas e paetês. E, por incrível que pareça, não falta quem troque salário por título: mais vale um Senior VP no cartão que alguns milhares de reais no bolso.

Alguns autores de pop management advogam que a figura do gerente existe desde a pré-história. Em um trabalho recentemente apresentado num congresso de gestão em Madri, Andreu Sole e Michel Fiol contrariam esta tese e argumentam que o mito do gerente é historicamente localizado. Segundo eles, a figura do gerente aparece num momento da história e, consequentemente, está condenado ao desaparecimento. O gerente surge com o capitalismo, um sistema econômico, político e ideológico caracterizado pela lógica do lucro, pela busca da racionalização de recursos e pelo surgimento dos assalariados e das organizações complexas. Dele é fruto e instrumento.

Para os dois pesquisadores da HEC francesa, os primeiros registros referentes ao papel do gerente aparecem no século XVIII. Nesta época, o gerente é um homem sem competência, qualidade ou charme, exceto saber viver em clima de constante incerteza. Este desinteressante personagem segue ordinário pela história até o século seguinte, quando começa sua ascensão ao panteão dos incomuns. Foi preciso que o capitalismo se desenvolvesse para que seu imaginário gerasse mitos próprios. Jean Baptiste Say, em seu tratado de economia política, datado de meados do século XIX, afirma que o gerente-empreendedor é um super-homem, judicioso, perseverante, firme e criativo, capaz de lidar com tudo e todos ao seu redor.

Mas qual o significado do mito do gerente hoje? Primeiro, o gerente é um realizador movido pelo desejo: alguém que sonha com conquistas. Sua vocação é conquistar, dominar e controlar. Segundo, o gerente é um herói ambíguo, senhor e escravo. Deve controlar ou induzir outros homens a fazer o que for preciso para atender os objetivos organizacionais. Ao mesmo tempo, é um escravo de sua própria imagem e um servo da empresa. Terceiro, o gerente é um manipulador de sentidos: deve usar imagens, metáforas e retórica para induzir e seduzir. Ele representa medos e esperanças da coletividade, catalisa esses sentimentos e os encena para sua atenta audiência. Quarto, o gerente é negador de contradições: onde houver ambiguidade e complexidade, ele trará certezas e receitas de sete passos, mesmo que fantasiosas. Demais para simples mortais? Certamente. Mas o herói não se deixa conter pelos limites humanos.

Para nós comuns mortais, que ainda recusamos nos deixar submeter por heróis e crenças de ocasião, compreender que aquilo que se apresenta como evidente é um mito historicamente construído talvez signifique uma oportunidade de nos livramos de cultos obscuros, e talvez ofereça uma chance de sermos um pouco mais livres.



* Este artigo foi originalmente publicado na Revista CartaCapital e faz parte do livro Executivos Neuróticos, Empresas Nervosas.
** A publicação foi autorizada pela Editora Campus-Elsevier.

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