Demografia: o desafio dos países populosos envelhecidos na economia mundial
Demografia: o desafio dos países populosos envelhecidos na economia mundial

Demografia: o desafio dos países populosos envelhecidos na economia mundial

Por outro lado, isto cria uma fonte de bens de consumo baseada num abundante contingente de mão de obra e custos de mão de obra relativamente baixos para o mercado doméstico

O Japão está diante dos mais sérios desafios às suas práticas sociais e empregatícias desde a Segunda Guerra Mundial, senão desde a década de vinte. As razões não são nem políticas nem econômicas, mas demográficas.

A nação está lentamente engatinhando para fora de sua pior recessão em mais de setenta anos, sendo que o pior ainda está por vir para o já sombrio quadro do emprego. No entanto, os líderes empresariais, banqueiros, governo e líderes trabalhistas com os quais Peter F. Drucker chegou a ser reunir numa de suas visitas ao Japão estavam tão preocupados com a ameaça de falta de mão de obra no futuro quanto o traumático desemprego da época.

O Japão enfrenta o esgotamento quase total da mão de obra na qual a expansão econômica dos vinte e cinco anoso depois de mil novecentos e cinquenta se fundamentou: operários industriais. O problema poe afetar radicalmente a posição do Japão no comércio internacional, bem como suas políticas de exportação e importação. Ele colocará em xeque as crenças e práticas sociais fundamentais da nação e exigirá que se repense sua política econômica básica.

O número de jovens que atingirá a idade legal de trabalho a cada ano no Japão durante os próximos anos será quarenta a quarenta e cinco por cento menor do que foi durante a década de sessenta. Então, metade dos jovens do país ia trabalhar depois de concluir o ginásio ( ensino fundamental ). Hoje, praticamente todos vão para o colegial ( ensino médio ) e um terço dos formados - de ambos os gêneros ( metade dos homens ) - no ensino secundário vão para a faculdade, em comparação com um oitavo de vinte e cinco aos antes.

Os japoneses raramente fazem as coisas pela metade, sendo que seus movimentos pendulares são muito maiores do que nos Estados Unidos. O baby boom japonês pós-guerra foi não só mais acentuado do que nos Estados Unidos da América ( EUA ) como também terminou bem mais rápido, no início da década de cinquenta. Então, foi seguido de um baby bust bem mai pronunciado - uma queda de taxa de natalidade de mais de quarenta por cento, ante o número americanos de vinte e cinco por cento. Além disto, as consequências econômicas e sociais destas tendências demográficas são muito diferentes no Japão, e muitíssimo maiores.

Uma das razões é o costume japonês, que chega quase a ser uma tradição sagrada, de vincular salários e benefícios à senioridade. Ao longo de trinta anos de emprego, os japoneses, quer trabalhando como operador de máquina, contador ou executivo, triplicam sua renda salarial em dinheiro. Benefícios como ajuda de custo para moradia sobe ainda mais rápido. O empregado com trinta anos de casa custa, portanto, para o empregador japonês aproximadamente quatro vezes mais do que um jovem recém-contratado. Em outras palavras, os jovens subsidiam os mais velhos.

Eles também subsidiam fortemente a economia japonesa. Sem algum aumento nos salários, os custos de mão de obra de a organização japonesa, seja uma empresa, uma universidade ou um órgão governamental, aumentam automática e acentuadamente conforme os empregados vão envelhecendo. Portanto, quanto mais jovens uma companhia conseguir contratar, menores serão seus custos de mão de obra - e tanto maior será sua capacidade financeira aos olhos dos bancos japoneses. Durante as décadas de cinquenta e sessenta, o contingente de jovens era farto - em parte como efeito do baby boom e em parte porque os jovens deixaram o campo e afluíram em massa para as cidades. No final da Segunda Guerra Mundial, mais da metade da população do Japão estava no campo; este número encontra-se agora em dez ou doze por cento e, é claro, foram principalmente os jovens que partiram.

Com a tradicional estrutura de custos de mão de obra do japão, isto significou uma melhora continuada da posição competitiva das empresas japonesas e da economia japonesa. Na verdade, algo como metade dos tão alardeados aumentos de produtividade da indústria japonesa não foi realmente aumento de produtividade. Foi a força de trabalho rejuvenescendo por vinte anos.

Mas, daqui para a frente, a força de trabalho se tornará necessariamente mais velha. Portanto, os custos de mão de obra aumentarão acentuadamente e a produtividade da mão de obra diminuirá ou, no mínimo, terá seu aumento acentuadamente desacelerado.

A segunda razão por que a mudança demográfica é um problema maior para o japão do que para qualquer país ocidental é a tradição que vincula rigidamente o nível do emprego e a oportunidade de emprego à educação. Somente jovens com apenas o nível ginasial ( ensino fundamental ) devem supostamente ir para empregos braçais e, em especial, para empregos fabris. Jovens com colegial ( ensino médio ) completo tornam-se auxiliares, balconistas e empregados de escritório. Jovens com nível universitário tornam-se gerentes / administradores e profissionais liberais. Sempre houve alguma, embora não muita, mobilidade ascendente nesta, de resto, tão rígida classificação da espécie humana por diploma escolar.

O rebaixamento, ou seja, aceitar um emprego que está aquém do próprio nível de escolaridade, é, contudo, quase impensável. Há pessoas de nível secundário ( ensino médio ) em número suficiente para empregos de escritório e de vendas. Há um excesso de pessoas de nível universitário para concorrer a empregos gerenciais e profissionais. Mas os três tipos de emprego - trabalho braçal, trabalho de apoio e trabalho gerencial - são contingentes de mão de obra separados que não se comunicam entre si, independentemente da oferta e procura. E jovens com apenas o nível ginasial ( ensino fundamental ), ou seja, para ocupar empregos braçais , praticamente desapareceram.

Por fim, o sistema japonês dificulta o uso do excesso de mão de obra em uma indústria ou negócio em oportunidades de trabalho em outras áreas. Em termos absolutos, no Japão, não existe escassez de mão de obra, mesmo para pessoas com formação para trabalhos artesanais. Na realidade, pelos padrões norte-americanos, o Japão seria considerado um país com substanciais excedentes de mão de obra porque há ainda um considerável setor pré-industrial na indústria japonesa, um setor de pequenas oficinas e ateliês que produzem os produtos tradicionais do velho Japão - artigos de cerâmica, camas e roupas de cama tradicionais, por exemplo. E ali, em regra, a mão de obra é usada de maneira bastante ineficiente, embora, hoje ela não seja nada barata. Há também grandes excedentes de mão de obra de operários fabris de velhas indústrias, como a têxtil ou a indústria do vestuário.

Mas estes contingentes de mão de obra excedente não ajudam muito. Eles não podem ser aproveitado por causa do sistema de remuneração por senioridade, no qual o salário corresponde ao tempo de serviço. Um operário industrial de trinta anos de idade que esteja sendo contratado pela primeira vez por um empregador teria de receber um salário inicial - ou seja, o salário de um jovem de dezesseis ou dezessete anos - , embora tenha trinta anos. De fato, ele não pode receber o salário condizente com a sua idade nem o salário condizente com sua senioridade - e isto o torna quase não empregável. No mínimo, este sistema cria tremendos obstáculos à troca de emprego e à mobilidade de emprego. Isto explica também por que o desemprego é uma ameaça tão terrível para os japoneses - um homem que tenha sido demitido só consegue encontrar trabalho como empregado temporário a uma remuneração muto inferior e com pouca chance de um dia voltar a ser um empregado efetivo.

Não se deve jamais subestimar a capacidade japonesa de inovação social. Ao longo de toda a sua história, os japoneses se mostraram excepcionalmente talentosos em encontrar soluções para novos problemas sociais, sem perder os valores japoneses tradicionais. E eles estão aprontando de novo. Drucker dizia ter se deparado, por exemplo, com uma solução muito simples e ao mesmo tempo extremamente engenhosa para o complicado problema de como remunerar um homem que se muda para um novo empregador depois de dez ou doze anos de serviço com um antigo empregador. Ele não se demite da sua antiga empresa; ele entra na nova empresa coo empréstimo permanente do antigo empregador. Isto torna possível pagar para ele o salário apropriado à sua idade, sem violar o princípio de que o salário deve ser pago de acordo com o tempo de serviço. Ainda assim, as mudanças demográficas e educacionais ora em curso colocarão em xeque as crenças e os costumes sociais que a maioria dos japoneses considera sagrados.

Os impactos econômicos da mudança demográfica serão, no mínimo, tão grandes quanto os sociais. Os custos de mão de obra subirão rapidamente, ainda que as taxas e os índices subam apenas lentamente ou se mantenham inalterados. A escalada dos custos de mão de obra com os tempos de serviço - salários, bem como benefícios - está por demais arraigada na sociedade japonesa para ser eliminada ou modificada de forma substancial. E, o que é pior, não haverá absolutamente nenhuma mão de obra operária / braçal disponível para novas indústrias ou para a expansão de antigas indústrias. Por cem anos, a economia japonesa baseou-se na troca de produtos feitos pelas mãos de japoneses por alimentos e matérias-primas do mundo exterior. As mudanças demográficas não afetarão a dependência do Japão de alimentos, petróleo, de ferro ou polpa de madeira. Mas elas tornarão cada vez mais difícil para o japão pagar por eles por meio das exportações dos produtos manufaturados com as quais o Japão vem pagando suas importações. E, assim, o Japão está começando a reavaliar suas políticas econômicas no mercado doméstico e, em especial, no mercado mundial.

Uma resposta é a nova ênfase na automação. Nos EUA, as conversas sobre a fábrica automatizada, tão comuns há uns cinquenta e cinco ou sessenta anos, praticamente desapareceram na década de setenta. No Japão, o trabalho na fábrica automatizada prossegue a todo vapor. Governo e indústria, com a aquiescência dos sindicatos, estão desenvolvendo conjuntamente a primeira fábrica de grande porte totalmente automatizada - uma fábrica não erá um único operário na área de produção. A maioria dos processos necessários para esta fábrica já foi projetada e testada, e se encontra na etapa-piloto. Nos anos setenta, esperava-se que a fábrica já havia sido projetada e estivesse em plena produção no início dos anos oitenta. No século vinte e um, este projeto ainda gera arroubos de comemorações e outros tantos de decepções: homem e tecnologia - quem está a serviço de quem?

Diversos grandes fabricantes - de variadas áreas, de produtos químicos a calçados - me disseram que o seu objetivo era ser capaz de produzir, dali a dez anos, o dobro da sua produção atual com a metade do número atual de operários industriais, ou trinta a quarenta por cento mais, com a metade do número atual de operários. Naturalmente, isto significará grande aumento do emprego para pessoas com nível superior, em especial para engenheiros.Mas isto, o sistema educacional japonês fornece em crescente quantidade.

Outra resposta é a mudança deliberada, novamente com governo e empresas trabalhando juntos para mudar o mix de exportações. Cada vez mais, o Japão espera mudar da atividade de exportar produtos de massa, mesmo aqueles com conteúdo de alto tecnologia, para exportar fábricas e indústrias inteiras. A primeira prioridade de exportação que o poderoso Ministério da Indústria e Comércio Exterior ( MITI ) japonês, anunciou na década de setenta seria a exportação de fábricas inteiras. Em mil novecentos e setenta e cinco, as exportações de fábricas totalizaram seis bilhões de dólares. Para mil novecentos e setenta e seis, a meta era dobrar este montante. E, em mil novecentos e oitenta, aluns planejadores japoneses esperavam a meta de exportação de cinquenta bilhões de dólares em fábricas completas. Em mil novecentos e oitenta e um, eles quase a atingiram. Com isto, porém, viria também uma mudança de rumo do comércio japonês porque o mercado de fábricas completas não estava, é claro, principalmente dos países desenvolvidos, mas no países em desenvolvimento: os países ricos em petróleo, especialmente a Arábia Saudita; os países produtores de matérias-primas e alimentos da América Latina; e , talvez, e mais importante, a China Continental, com sua promessa de rápida expansão da produção de petróleo. Até mil novecentos e oitenta e um, foi algo que não se concretizou.

E, por fim, é provável que haja uma mudança no que o japão importa, embora, politicamente, esta será a mais difícil de todas as mudanças que país tem pela frente. Exportar o suficiente para proporcionar a um Japão pobre em matérias-primas, deficiente em alimentos e pobre em energia as bases da vida econômica moderna deve permanecer a prioridade numero um da política de negócios japonesa. Mas, cada vez mais, o Japão terá de exportar para pagar pelos produtos de consumo provenientes de países com excesso de mão de obra, produtos de consumo estes que sua própria economia deficiente de mão de obra não pode mais produzir. A fábrica de calçados que uma companhia japonesa está construindo agora, por exemplo, em um dos países do sudeste da Ásia será paga com sua própria produção - com dez ou vinte por cento de sua produção sendo repassados a valor de custo, por vinte anos, para os japoneses que financiaram e construíram a fábrica. Isto, por um lado, torna possível construir uma fábrica cujas economias de escala estejam além da capacidade de absorção do pequeno país em que será instalada. Por outro lado, isto cria uma fonte de bens de consumo baseada num abundante contingente de mão de obra e custos de mão de obra relativamente baixos para o mercado doméstico japonês e para o consumidor japonês.

Se esta mudança de política pode efetivamente funcionar é algo que ainda não se sabe ao certo. No Japão, ela será ferrenhamente combatida pelos sindicatos de trabalhadores, mas também extremamente numerosas e poderosas pequenas empresas. Isto exigirá uma completa mudança de atitude por parte do governo japonês e, em especial, do MITI que qualquer coisa que o Japão seja tecnicamente capaz de produzir deve ser produzido no Japão e não deve ser trazido de fora. e o MITI reflete convicções nacionais profundamente arraigadas que remontam a mais de quatrocentos anos.

Também fora do Japão há obstáculos tremendos. Embora o Japão ofereceria aos países em desenvolvimento a chance de acelerar sua própria industrialização, isto os tornara altamente dependentes dele; um país pequeno do sudeste asiático se tornaria de fato um satélite japonês. Mas, como japoneses de alta posição observaram Durcker? "Que alternativa temos, considerando nossa tendencia populacional? e que alternativa têm os países em desenvolvimento - especialmente os pequenos, pobres e superpovoados - , considerando sua dinâmica populacional?"

Qualquer que seja o rumo que a política japonesa finalmente tome, a demografia - tanto com relação ao número de pessoas como à sua educação - será cada vez mais um fator-chave, senão até o fator controlador da economia japonesa e da posição do Japão na economia mundial e em sua política voltada para ela. Outras informações podem ser obtidas no livro Os novos desafios dos executivos, de autoria de Peter F. Drucker.

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    Cláudio Gama

    Cláudio Gama

    Analista Técnico em Gestão Governamental na função de Administrador no Governo do Estado de Santa Catarina/Secretaria de Estado da Casa Civil - SCC. Especialista em Gestão Pública pela Faculdade Municipal de Palhoça-SC. Curso de Especialização em Gestão em Saúde pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC (concluído sem obtenção do título). Administrador formado pela Universidade Federal do Paraná- UFPR. CRA-SC nº 24.673. Tecnólogo em Gestão Pública formado pela UFPR. CRA-PR nº 200.185 e CRA-SC nº 600.285. Técnico em Gestão Pública com ênfase em Administração Municipal formado pela UFPR.
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