Deitado em berço esplêndido

Os números falam: 13 milhões de negócios informais, 50% abertos para não morrer de fome, dois terços sem qualquer tipo de ajuda, juros de dois dígitos, e ainda dizem que Deus é brasileiro ou que nós não desistimos nunca. Entre a cruz e a espada, estamos ficando sem forças para competir num mundo repleto de oportunidades. A última pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor), destinada a avaliar o desempenho em áreas do empreendedorismo de 34 países, mais uma vez aponta a queda do Brasil em diversos indicadores. Não é novidade. O nosso país é campeão mundial de contrastes, já foi denominado Belíndia para escancarar as diferenças sociais entre nossas bélgicas de riqueza e nossas índias de miséria. Os números do GEM são estonteantes, para quem quer fazer conta e ler nas entrelinhas não tão entreabertas. Temos hoje cerca de 11% da população com negócio próprio, sejam formais ou informais. Isso ultrapassa os 20 milhões de negócios. Cerca de 7 milhões são formais ou pelo menos ainda não deram baixa nas juntas comerciais. De qualquer forma, 13 milhões de negócios informais indicam claramente como anda nossa economia. Para tornar o quadro uma visão de Dante, 50% dos negócios ainda são abertos por necessidade... isso mesmo, porque não há emprego abre-se uma portinha ou arma-se uma barraquinha e... Uns dizem que Deus é brasileiro, outros afirmam que não desistimos nunca. Entre a cruz e a espada, dois terços dos negócios não recebem qualquer tipo de ajuda ou assistência. É o salve-se quem puder. E eu me pergunto: pra onde vai tanto dinheiro que é entregue aos Sebraes e Senais país adentro? Como se não bastasse tanta descaso (pra não dizer descalabro), a maioria dos negócios posiciona-se em setores altamente competitivos como alimentação, vestuário e beleza. Significa muito risco, muito desperdício, muito esforço jogado fora. Mas a explicação vem em seguida: a maioria dos negócios contou com apenas 2 mil contos para nascer, ou melhor, para serem expelidos do útero da economia escravizada pelos juros extorsivos da camarilha bancária. Os pseudo-empresários vão para setores mais fáceis e óbvios, porque não temos educação decente e suficiente para que possam aventurar-se pelo mundo virtuoso das tecnologias. Agora ajunte tudo: 13 milhões de negócios, 50% abertos para não morrer de fome, sem eira nem beira, sem lenço nem documento, sem apoio, sem ajuda mas alguma reza, com 2 mil contos e juros de dois dígitos... Esse é o verdadeiro milagre brasileiro. E cadê o governo? Ou cadê os governantes? Estão com um olho fazendo cálculos para o próximo dia 1◦ de outubro, e com o outro descobrindo novas formas de pilhar os cofres públicos. A Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas dorme no Congresso enquanto deputados acertam os votos para ficarem livres das cassações. O famigerado Copom brinca com os juros, simulando afrouxamento, enquanto o governo federal compra, literalmente, toneladas de dólares para valorizar artificialmente o real e alimentar os glutões. Enfim, o governo de fato governa os seus interesses. As empresas brasileiras são um subproduto dessa farra incontida, por isso transpiram tanta fragilidade, tanta incerteza, tanta angústia. Há um pequeno batalhão bem-sucedido, mas é pequeno demais diante do exército de negócios que vão sendo empurrados para a morte, definhando um pouco a cada dia, conforme determinam os juros e a sanha do dinheiro sem pátria, que amanhece aqui e anoitece em Hong Kong. Século 21, já decorridos seis anos, mais os 500 do descobrimento, e tudo parece que continua como sempre foi: deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar... Eu me pergunto, até quando meu Brasil? Até quando brasileiros e brasileiras? (e olha que eu não tenho saudades do Sarney!). Até quando poderemos suportar tanta espoliação das nossas riquezas, tanto abuso sobre nossos valores, tanto descaso sobre nossas vidas?
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