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Cursos Superiores de Tecnologia: debate ou embate?

Venho acompanhando as discussões no Grupo Administrando, o maior grupo de discussão na área de Administração do Brasil, sobre os cursos superiores de tecnologia e isso me motivou a escrever esse artigo para contribuir com o debate, mas percebo que essa discussão também está provocando um embate entre os administradores

Venho acompanhando as discussões no Grupo Administrando, o maior grupo de discussão na área de Administração do Brasil, sobre os cursos superiores de tecnologia e isso me motivou a escrever esse artigo para contribuir com o debate, mas percebo que essa discussão também está provocando um embate entre os administradores. A discussão é mais importante do que o embate para a consolidação da educação superior no Brasil.

Atuo como membro das comissões técnica e verificadora da Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC) do MEC nas áreas de comércio e gestão há quase 3 anos. O trabalho da comissão é credenciar centros de educação tecnológica e autorizar cursos superiores de tecnologia nessas áreas.


Os cursos Superiores de Tecnologia foram regulamentados por diretrizes curriculares, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação pela Resolução CNE/CP nº 3, de 18/12/2002, publicada no DOU em 23/12/2002. Essa resolução define em seu artigo 1, que:
“A educação profissional de nível tecnológico, integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, objetiva garantir aos cidadãos o direito à aquisição de competências profissionais que os tornem aptos para a inserção em setores profissionais nos quais haja utilização de tecnologias”.


O artigo 1º destaca o desenvolvimento de competências profissionais para contribuir na inserção de profissionais no mercado em postos de trabalho que envolvam a utilização de tecnologias. A Administração é uma área de conhecimento que também gera tecnologias aplicadas à gestão e, desta forma, a área de gestão e, também, a de comércio, são áreas profissionais que foram incluídas no rol das elencadas no parecer CNE 436/2001.

O parecer CNE 436/2001 caracteriza as áreas de comércio e gestão da seguinte forma:
Comércio: “compreende atividades de planejamento, de operação e de controle da comercialização (compra e venda) de bens e serviços. O planejamento inclui: estudos, projetos, operação e controle. A operação inclui: comunicação com o público, aquisição de bens ou serviços, armazenamento e distribuição física de mercadorias, venda, intermediação e atração de clientes, pós-venda em nível nacional e internacional. O controle consiste no acompanhamento das operações de venda, de armazenamento, de distribuição e de pós-venda”.
Gestão: “compreende atividades de administração e de suporte logístico à produção e à prestação de serviços em qualquer setor econômico e em todas as organizações, públicas ou privadas, de todos os portes e ramos de atuação. As atividades de gestão caracterizam-se pelo planejamento, operação, controle e avaliação dos processos que se referem aos recursos humanos, aos recursos materiais, ao patrimônio, à produção, aos sistemas de informações, aos tributos, às finanças e a contabilidade”.
Os cursos de educação profissional de nível tecnológico são cursos de graduação com características especiais. No Brasil, existiam duas modalidades de educação superior até o surgimento da modalidade Educação Tecnológica: a Licenciatura e o Bacharelado. Muitos cursos de licenciatura também possuem modalidades, umas mais curtas e outras mais longas e nunca percebi essa discussão sobre o tempo de formação entre eles porque existem diferenças muito específicas entre as modalidades. Também não tenho observado discussões entre profissões em que os profissionais são bacharéis e outros são licenciados, como geografia, história, entre outros. Os focos são diferentes.
Nas discussões do Grupo Administrando, alguns membros criticam o tempo de formação entre os cursos. O Bacharel é formado em quatro anos e o Tecnólogo em, no mínimo, dois anos. Entretanto, não consideram que os cursos têm propósitos diferentes. O Bacharelado pretende formar um profissional com amplas competências e isso implica em obter, além de conhecimentos específicos da área do curso, como o de administração, conhecimentos de outras áreas, como a sociologia, filosofia, matemática, estatística, direito e psicologia. O Curso Superior de Tecnologia é direcionado para o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias de gestão para as organizações e todo o curso é formatado para um determinado foco, havendo a necessidade de utilizar apenas conhecimentos de outras áreas para unidades curriculares específicas, mas que tenham relação com o curso. Daí a necessidade de uma formação direcionada e focada para um campo específico da Administração.
A carga horária total de 1.600 horas para os cursos superiores de tecnologia nas áreas de gestão e comércio foi estabelecida no parecer do 436/2001 do CNE. Das 20 áreas elencadas, existem algumas, como a área de saúde, que estabelece 2.400 horas, ou a de informática, que propõe 2.000 horas. Não é a carga horária, apenas, que vai garantir o desenvolvimento de competências, mas sim a maneira como o curso será implementado.
Um curso superior de tecnologia deve contemplar no seu projeto uma série de competências profissionais que serão desenvolvidas ao longo do mesmo. Eles devem utilizar os princípios da competência em ação. Dessa forma, o docente que ministra aulas nesses cursos deve ter, além de formação acadêmica, experiência profissional relevante na área do curso. Nos processos de avaliação dos cursos, para efeito de autorização e reconhecimento, a comissão analisa os currículos e entrevista os professores. Para cada ano de experiência acadêmica, o professor recebe um ponto, totalizando, no máximo, 10 pontos. Para cada ano de experiência profissional, o professor recebe dois pontos, totalizando, no máximo, 20 pontos. Como pode-se perceber, a experiência profissional relevante é importante porque os professores devem conhecer o mercado e utilizar a base teórica para contribuir no desenvolvimento de competências que irão levar o aluno a promover o desenvolvimento ou o aprimoramento de tecnologias em uma área específica da gestão. Por isso, os cursos são focados e devem priorizar práticas pedagógicas direcionadas para a ação.
Outro aspecto relevante é que não podemos simplesmente afirmar que os profissionais formados em cursos superiores de tecnologia são técnicos. O artigo 2º, das diretrizes dos cursos superiores de tecnologia, indica que os cursos dessa modalidade de educação deverão:
a) incentivar o desenvolvimento da capacidade empreendedora e da compreensão do processo tecnológico, em suas causas e efeitos;
b) incentivar a produção e a inovação científico-tecnológica, e suas respectivas aplicações no mundo do trabalho;
c) desenvolver competências profissionais tecnológicas, gerais e específicas, para a gestão de processos e a produção de bens e serviços;
d) propiciar a compreensão e a avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais resultantes da produção, gestão e incorporação de novas tecnologias;
e) promover a capacidade de continuar aprendendo e de acompanhar as mudanças nas condições de trabalho, bem como propiciar o prosseguimento de estudos em cursos de pós-graduação;
f) adotar a flexibilidade, a interdisciplinaridade, a contextualização e a atualização permanente dos cursos e seus currículos;
g) garantir a identidade do perfil profissional de conclusão de curso e da respectiva organização curricular.
Também não podemos afirmar simplesmente que nos cursos superiores de tecnologia não há pesquisa. Toda instituição que possui cursos dessa modalidade deve desenvolver uma política de pesquisa e desenvolvimento aplicada a área do curso. Seu objetivo é gerar/aprimorar tecnologias. Isso não quer dizer o abandono da pesquisa científica, mas a pesquisa nesses cursos não pode ficar na teoria. Ela tem que gerar resultados concretos para o setor produtivo.
Toda instituição que quiser iniciar um curso superior de tecnologia deve solicitar a autorização na Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC) do Ministério da Educação, com exceção das Universidades e Centros Universitários que têm autonomia para abrir esses cursos. A autorização para o funcionamento do curso só é concedida após a análise técnica dos projetos e uma visita verificadora, que é realizada por uma comissão de, no mínimo, três membros, que avalia as condições de oferta do curso. A comissão analisa três aspectos: A organização curricular do curso, a infra-estrutura física e o corpo docente. O processo é bastante rigoroso e tudo é pontuado de acordo com critérios que são divulgados no próprio formulário de avaliação disponível na página da SEMTEC.
Tenho vivenciado, nos últimos anos, várias experiências, em vários locais do Brasil, que foram me contagiando e hoje eu sou um defensor dos cursos superiores de tecnologia na área de gestão e de comércio porque estão vinculados à Administração. Acho equivocado o embate entre Bacharéis em Administração e Tecnólogos em Gestão ou Comércio. São cursos com focos diferentes, mas com um objetivo comum: melhorar a qualidade da gestão das empresas no Brasil. Enquanto o embate continua, psicólogos, pedagogos, advogados, engenheiros, economistas, contadores e médicos assumem postos de trabalho da nossa área. Temos que nos unir em prol da valorização da profissão de Administrador, mas também há espaço no mercado para os profissionais formados em cursos superiores de tecnologia nas áreas de gestão e comércio.
O mercado é muito dinâmico e as profissões devem acompanhar essa evolução. A lei que regula a profissão de Administrador é de 1965 e vai completar 40 anos em 2005. Eu tenho muito respeito pelos profissionais que estão à frente dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Administração, mas acho que a medida de não registrar os profissionais formados em cursos superiores de tecnologia talvez tenha sido precipitada. O debate é fundamental para dirimir dúvidas, definir critérios e até áreas de formação para os cursos superiores de tecnologia na área de gestão e de comércio.
É muito gratificante participar de uma comissão de reconhecimento de um curso superior de tecnologia e ouvir os depoimentos dos alunos sobre o curso. Muitos deles relatam que abandonaram cursos de bacharelado em Administração em função do grande volume de conteúdos teóricos e descobriram que o curso superior de tecnologia proporcionou o desenvolvimento das competências necessárias para a sua atuação no mercado de trabalho. Também ocorre o inverso. Alunos que saíram de cursos superiores de tecnologia e foram para o Bacharelado, pois não conseguiram acompanhar o ritmo da turma ou não tinham maturidade suficiente para participar do curso.
Se quiserem obter mais informações sobre os cursos superiores de tecnologia, visitem a página da SEMTEC (www.mec.gov.br/semtec) e leiam a legislação sobre esses cursos, sobretudo o parecer CNE 436/2001 e a Resolução CNE/CP nº 3, de 18/12/2002, que estabelece as diretrizes curriculares dos cursos superiores de tecnologia.
Está acontecendo uma revolução silenciosa no Brasil em relação à educação de nível superior. Os cursos superiores de tecnologia estão formando profissionais de nível superior e as estatísticas irão demonstrar que o nosso país, nos próximos anos, terá uma grande evolução no índice de profissionais com nível superior. O que me gratifica, ao atuar como membro das comissões da SEMTEC/MEC, é saber que pude contribuir com essa estatística. Essa também é uma das minhas atribuições como Administrador.




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