Cultura do desperdício

Cultura do desperdício Fabiano Martins de Oliveira Aluno do Curso de Administração de Empresas Unaerp Universidade de Ribeirão Preto Campus Guarujá Fabiano7803@yahoo.com.br Resumo: O Brasil sempre foi um país onde houve abundância de recursos, sinônimo de farta exploração, isto além de não sofrermos as conseqüências de uma guerra. Mas coerência nunca foi o ponto forte deste país, onde milhares de pessoas passam fome todos os dias, não têm onde morar, tomar banho. E o que dizer dos intermináveis dias de trabalho que acabam sem a execução dos mesmos, onerando as empresas e seus clientes. Esta cultura do desperdício esta enraizada em nossas almas, nos torna menos competitivos em termos de oportunidades, eficiência e redução de custos. Embora existam bons exemplos de nossos amigos japoneses que viveram os flagelos de uma guerra e cresceram a taxas impensáveis para os nossos padrões de desenvolvimento. Enfim alguém começa a se mobilizar neste país para reduzir esta diferença gritante entre o que se produz e o que se joga no lixo. 1. Introdução A expressão cultura do desperdício sintetiza perfeitamente o que constitui uma das características mais importantes da modernidade ocidental. Pode-se afirmar, sem exagero, que o produto característico de nossa cultura é o desperdício. Seu componente mais visível é constituído pela acumulação de produtos em bom estado, mas que perderam sua capacidade de serem utilizados e que são substituídos por sucessivas ondas de novos produtos, melhores e mais baratos. A obsolescência generalizada, conseqüência de uma crescente exigência dos consumidores no Brasil. O desperdício no Brasil, de acordo com alguns registros da imprensa, teve início em 1789, com D. Pedro II, quando ele acendeu seis lâmpadas na Central Ferroviária do RJ. Já, o desperdício com alimentos, sempre existiu, a ponto de o Brasil ser chamado de o celeiro do mundo. Por outro lado, o fato de nunca termos tido grandes problemas de escassez, e sermos privilegiados por abundância de recursos naturais. Hoje, esse designativo perdeu sua força com a crise e os recursos naturais se tornando mais escassos. A literatura aponta que o desperdício é um dos itens prioritários em estudos que envolvam políticas públicas e, neste caso, com o propósito de realizar ações que visem a um determinado planejamento. O Brasil parece ser um dos países latinos mais férteis para o cultivo do desperdício, pois recursos naturais, financeiros, oportunidades e até alimentos são literalmente atirados na lata do lixo, sem possibilidade de retorno. Como sintoma de desorganização e desestruturação, o desperdício está incorporado à cultura brasileira, ao sistema de produção, à engenharia do país, provocando perdas irrecuperáveis na economia, ajudando o desequilíbrio do abastecimento, diminuindo a disponibilidade de recursos para a população. Neste sentido, esporadicamente, são encetadas campanhas tímidas para combater o desperdício em certos segmentos do setor produtivo do nosso país, algumas delas tem como tônica o reaproveitamento de certos materiais industrializados descartáveis, mas esses movimentos são via de regra temporários, assumem caráter nitidamente paliativo e estão bem longe de solucionar o problema. A necessidade de ter, de aparentar status, transforma o consumidor em inimigo de si próprio. Ele se torna vítima da ganância, que leva ao consumismo, e da falta de informação, que gera desperdício e prejuízo. A cultura do desperdício se incorporou de tal forma à vida brasileira que nada de concreto é feito para reverter os números absurdos do que se perde o que fez do País o campeão mundial de desperdício. 1.1 Objetivos. Considerando o Brasil como um dos países em que o índice de desperdício, é um dos mais preocupantes do mundo, elaborou-se este trabalho com os seguintes objetivos: Demonstrar quais os setores da economia brasileira que mais preocupam Encontrar o foco do problema determinando quais as possíveis soluções 2. Os números do desperdício no Brasil Segundo a CEAGESP (Central de abastecimento para o estado de São Paulo), no setor de alimentos, por exemplo, o desperdício começa na lavoura e termina na cozinha da dona-de-casa.. Das 83 milhões de toneladas de grãos produzidas anualmente, algo entre 10% e 30% se perdem no caminho entre a lavoura e o consumidor final. O prejuízo que o desperdício de alimentos representa para o País e para o meio ambiente, não é causado apenas pela falta de estrutura e de incentivos para a agricultura. Que gera perda de 14 milhões de toneladas de alimentos por ano - ou pela falta de informação do consumidor, que joga fora 20% dos alimentos com alto teor nutritivo, que poderiam ser mais bem aproveitados. Existem outros fatores que contribuem com este estado de coisas e acabam estimulando o desperdício de alimentos, como a falta de planejamento e de estrutura para armazenagem e transporte dos produtos agrícolas e a ganância de produtores, atacadistas e comerciantes. Não é apenas de alimentos o desperdício no Brasil. Água e energia elétrica somam perdas tão grandes que colocam em risco o abastecimento no futuro. Assim, 20% de toda energia elétrica produzida no Brasil são desperdiçados, o que significa uma perda anual de US$ 270 milhões. De 25% a 40% de água também são perdidos em vazamentos, equipamentos velhos e mau uso por parte do consumidor. A construção civil também tem números assustadores: De cada três prédios construídos no País, seria possível construir mais um, apenas com o material que é jogado fora. Apesar de não ser medido com precisão, as estimativas do desperdício assustam. Economistas e acadêmicos falam que alguns setores perdem até 40% do que produzem é o caso dos hortifrutícolas. Significa que, de cada 100 pés de alface plantados e colhidos, 40 vão para o lixo. 2.1 Combate Num restaurante da rede Habibs, no centro de São Paulo, quem não deixa comida no prato, paga o preço fixo de R$ 3, 90, independentemente de quantas vezes se servir. Quem deixa restos de comida paga o dobro. Assim como a loja do Habibs, que está querendo jogar menos comida fora, o racionamento de energia elétrica trouxe à tona um problema que é gigantesco no país o desperdício. As ações para economizar água, alimentos, material de construção e embalagens, ainda que incipientes, passaram a ser debatidas intensamente em vários setores da economia nos últimos anos. O uso mais racional da eletricidade, forçado pela crise energética e pelo custo elevado para quem ultrapassasse as metas, despertou a consciência de que o consumidor pode economizar muito mais, sem viver com desconforto. O mesmo vale para a indústria, o comércio e o setor de serviços. O Programa de Administração de Varejo da USP/Provar deu início a um programa para quantificar e combater as perdas nos supermercados. Elas correspondem a 2,5% do faturamento total do setor ou R$ 1,74 bilhão neste ano. Isto daria para alimentar 600 miI famílias por um ano, considerando um gasto mensal de 247 por casa. Evitar o desperdício, também significa aumentar a rentabilidade. O JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO (2002), mostra que na construção civil, o combate ao desperdício virou palavra de ordem nas grandes empreendedoras nos últimos meses. Nos cálculos de Lenilson Marques Araújo, gerente da empresa de engenharia JCM, as obras perdem, em média, 22,3% do material o índice já chegou a 30%. As construtoras estão muito mais preocupadas com cálculos precisos. "Estamos armando ações para pegar o rastro do racionamento de energia e levar para outros setores. Uma idéia é priorizar empréstimos para empresas que combatem o desperdício", diz Alfredo Gastal, gerente de projetos do Ministério do Meio Ambiente. Há três meses, a Sabesp, empresa que distribui água em São Paulo, esta enviando técnicos a escolas, postos de saúde, condomínios residenciais e empresas para tentar diminuir o desperdício. Numa unidade da Ford, diz Gastal, o consumo de água caiu 35% sem abalar a atividade da empresa. Num condomínio residencial de 4.500 pessoas, a redução foi da ordem de 16%. O desperdício não está apenas na água, na luz, na comida, na construção ou na indústria. Até o setor de serviços entra nessa lista. Segundo a UBQ, o setor perde 30% do seu trabalho pela falta de qualidade. No Japão, essa perda varia de 1% a 3%. Nos EUA, está entre 5% e8%. A lista de tudo o que é desperdiçado no país não tem fim, segundo os especialistas. O desperdício está nas palavras, no tempo, nos impostos pagos e não-usados em benefícios, nos recursos humanos e até nos votos. Pode se eleger um político com poucos votos numa legenda forte, enquanto outros ficam de fora, apesar de bem votados. O fato de o Brasil não ter participado diretamente de uma guerra mundial e ainda ser rico em recursos naturais é a principal causa do desperdício, na análise de especialistas e economistas. A falta de leis rígidas também é apontada pelo economista e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Paulo Sandroni como um dos motivos para o brasileiro não se preocuparem em economizar. Para ele, as tarifas de água e luz são relativamente baratas se comparadas às de outros países, estimulando o desperdício. O racionamento de luz deu certo, porque o esbanjador paga mais caro e corre o risco de ficar no escuro. O desperdício só não é maior porque o país não vive mais um período de inflação acelerada. As empresas lucravam investindo no mercado financeiro. Com o fim desse período, foram obrigadas a enxugar custos para se tornarem mais eficientes e competitivas. Os grandes vilões do desperdício são os manuseios e os transportes. Acondicionar produtos em embalagens adequadas, fazer o transporte e manuseio de acordo com algumas normas básicas são fundamentais para evitar perdas, garantir a boa qualidade, e conseqüentemente, maior lucro. Em alguns casos, certos produtos são "forçados" a entrar nas caixas. O procedimento é justificado pelos produtores como sendo uma maneira de impedir que a mercadoria fique solta dentro da embalagem evitando que durante o transporte o produto tenha atrito com a caixa. Este procedimento é responsável por boa parte das perdas, que em alguns casos podem chegar a 40%, da colheita à mesa do consumidor. Embalagens padronizadas a cada produto minimizam esse problema. A Ceagesp vem orientando agricultores e permissionários para o embalamento adequado dos produtos. Atualmente, 96% dos produtos comercializados nos Ceasa já estão acondicionados em embalagens que atendem às exigências da lei. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo desenvolveram o Programa Paulista para Melhoria dos Padrões Comerciais e Embalagens de Hortigranjeiros. A Ceagesp é o braço operacional deste programa e já desenvolveu estudos sobre diversos produtos, como alface, tomate, berinjela, pimentão, banana, caqui, pêssego. Este programa, cuja adesão é voluntária, estabelece critérios de classificação dos produtos e apresenta as embalagens mais adequadas a cada alimento. 2.2 Dicas para evitar o desperdício Na fase de planejamento das culturas Na pré-colheita Na colheita Na pós-colheita Na embalagem do produto No armazenamento e transporte Na casa do consumidor 2.3 Na fase de planejamento das culturas (decisões de plantio): Selecionar as variedades mais adequadas às condições locais de clima e solo; Estudar as potencialidades e oportunidades do mercado; Planejar a produção (época e quantidade) de acordo com as condições mais favoráveis de comercialização; Procurar formas associativas e cooperativas de comercialização, que melhora a inserção dos produtos no mercado e poder de barganha. 2.4 Na pré-colheita: Corrigir a acidez do solo e adubá-lo corretamente, de acordo com as necessidades do solo e da cultura; Seguir as instruções técnicas para uso de defensivos agrícolas; Realizar o desbaste quando necessário, deixando apenas as plantas ou frutos em melhores condições, obtendo um produto final de qualidade. 2.5 Na colheita: Evitar colher os produtos nas horas mais quentes do dia; Os produtos colhidos devem ser deixados à sombra e levados o mais rápido possível ao barracão ou local de seleção, classificação ou acondicionamento. Este local deve ser seco, arejado, limpo e fresco; Frutas e hortaliças devem ser manuseadas com cuidado para evitar choques e Machucaduras; Usar sacos, caixas ou baldes para transportar frutas e hortaliças do campo até o barracão. Esses recipientes devem estar limpos e ter superfície lisa. 2.6 Na pós-colheita: Fazer a seleção dos produtos colhidos, separando-os por grau de maturação ou defeitos que tornem indesejáveis sua aceitação no mercado. Sempre que possível, enviar o material aproveitável à indústria para o processamento; Lavar ou escovar os produtos para remover partículas do solo ou materiais estranhos; Se forem lavados, os produtos devem ser secos para evitar o crescimento de microorganismos, que podem ocasionar o apodrecimento do produto e gerar doenças; Em produtos como cebola, alho, batata, batata doce, inhame e mandioca são recomendáveis a cura. Este processo consiste na remoção do excesso de umidade dos bulbos e raízes, antes desses produtos serem conduzidos ao armazenamento, ainda no campo; Frutas podem receber uma camada de cera para substituir a cera natural retirada do produto durante a lavagem; Classificar corretamente os produtos, segundo as exigências do mercado. Grau de maturação, coloração, tamanho (comprimento e/ou diâmetro) e presença de defeitos são fatores a serem observados na classificação. O lote deve ser o mais homogêneo possível. Produtos misturados desvalorizam a mercadoria e induzem o consumidor ao manuseio excessivo, acelerando e aumentando as perdas. 2.7 Na embalagem: Embalar adequadamente as mercadorias. Independente do material utilizado, o ideal é aquela que protege e mantém a qualidade do produto, além de separá-los em unidades para o manuseio e comercialização. As embalagens devem ser descartáveis ou passíveis de serem desinfetadas, não devem ter superfície abrasiva evitando machucaduras. Sempre que possível, deve-se realizar a paletização das cargas. Essa padronização de tamanho torna mais racional e otimiza tempo e recursos perdidos na movimentação das mercadorias. 2.8 No armazenamento e transporte: Armazenar cada produto segundo suas exigências e tolerâncias de temperatura, umidade relativa e circulação de ar nos armazéns ou câmaras frigoríficas. Em muitos casos, é aconselhável a realização de um pré-resfriamento antes da armazenagem. O uso do frio deve ser contínuo ao longo de toda a cadeia - o que permite a manutenção da qualidade dos produtos. Choques térmicos são sempre danosos; No transporte, não sendo possível o uso de veículos refrigerados, as cargas devem ser protegidas com lonas limpas e de cores claras. É preciso garantir a circulação de ar, para evitar o abafamento e calor excessivo sobre as mercadorias; Quando o carregamento e descarregamento são manuais, as embalagens não devem ser jogadas, e a descarga deve ser rápida evitando o contato com o sol. 3. Água: o ouro do terceiro milênio Poucos sabem, mas atualmente 40% do volume de água tratada que é servido à população acaba, literalmente, sendo desperdiçada. O caso é realmente grave: a água está se tornando escassa em todo o planeta e se as coisas não começarem a mudar, poderemos assistir à concretização daqueles cenários desolados dos filmes futuristas. Desde o final do ano de 1997, o governo está tentando atingir companhias de saneamento, empresas e usuários em geral com uma campanha que visa baixar as perdas de água para 25%: Trata-se do Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água. Pelos cálculos da Secretaria de Política Urbana (SPU), se o programa for bem sucedido, essa redução vai resultar numa economia de 2,6 bilhões de metros cúbicos de água, avaliada em R$ 1,27 bilhão por ano. O setor rural também apresenta uma performance merecedora de atenção: É o maior usuário do Brasil, correspondendo a cerca de 70% do consumo total de água e, lamentavelmente, é também o maior poluidor. A Secretaria de Recursos Hídricos está montando o Projeto de Conservação e Revitalização de Recursos Hídricos, tendo como alvo o setor rural. Ainda em fase experimental, o projeto prevê a expansão para uma visão de manejo integrado de solo e água. A intenção é desenvolver campanhas educativas e oferecer financiamento para atividades que recuperam e melhorem os mananciais, estimulando os produtores a, por exemplo, recuperar matas ciliares ou cuidar para que os dejetos de suas propriedades não contaminem os mananciais. No âmbito urbano, além das medidas concretas como verificação e eliminação de vazamentos e ligações clandestinas, alteração das normas de construção de prédios e residências, entre outras, existe também um grande desafio que é a mudança no comportamento da população que, atravessando gerações, vem enraizando cada vez mais a cultura do desperdício. Segundo alerta da ONU (Organização das Nações Unidas), dentro de 25 anos, aproximadamente, um terço da população mundial enfrentará graves problemas de abastecimento de água, aumentando o perigo de guerras pelos recursos hídricos. Ainda de acordo com o relatório da ONU, a falta de água é agravada pela poluição, pelo uso ineficiente e consumo insustentável dos lençóis subterrâneos. As reservas hídricas também são prejudicadas por sua administração insuficiente e fragmentadas, relutância em tratar a água como patrimônio econômico público e pela inadequada preocupação com a saúde e questões ambientais. Embora dois terços da superfície da Terra sejam realmente cobertos por água (formando um volume de 1,5 bilhões de Km3), a verdade é que cerca de 97,5% desse total são constituídos de água salgada. Restam, portanto, 2,5% que ainda incluem os gelos polares. Hoje já sabemos que o estoque utilizável de água potável, de 9 mil Km3 ao ano, está próximo do esgotamento. Atualmente muitos países já enfrentam problemas com a escassez de água. Apenas na região metropolitana de São Paulo, metade da disponibilidade de água está afetada pela existência de lixões sem qualquer tratamento sanitário. No setor rural, lamentavelmente, é onde ocorre a maior taxa de desperdício por conta de métodos de irrigação não racionalizados. A grande quantidade de água utilizada pode ser sensivelmente reduzida com a implantação de processos de irrigação bem planejados. O setor também contribui para o aumento da poluição, despejando nas águas os restos de pesticidas agrícolas. 3.1 Reciclagem de lixo no país é inferior a 5% O desperdício, no Brasil é considerado um dos maiores do mundo. A diferença é que nas nações desenvolvidas a reciclagem dos materiais supera a brasileira. O paulistano gera por dia 1,2 quilo de lixo domiciliar, enquanto o americano, 2 quilos e o japonês, 2,8 quilos. Embora a população desses países consuma mais e gere mais lixo, há mais consciência em relação ao reaproveitamento. O Brasil recicla menos de 5% de seu lixo urbano. Esse percentual é de 40% nos EUA e na Europa, informa a UBQ (União Brasileira para a Qualidade). Apesar de o Brasil não estar na lista dos países mais preocupados com o desperdício, é campeão na reciclagem de papelão e de latas de alumínio. Do total dessas latas produzidas no Brasil, 73% são recicladas. No Japão, 70%. No caso do papelão, a diferença é maior ainda: a reciclagem é de 72% no Brasil e de 65% na Europa. Mas o Brasil recicla pouco outros materiais: 21% de plástico e 38% de vidro e de papel. O país só é líder na reciclagem nesses dois produtos por necessidade e não por consciência. Mais de 300 mil catadores vivem do lixo para garantir renda mensal de até R$500. Os catadores também usam o lixo orgânico para sobreviver. Na Ceagesp, em São Paulo, uma tonelada de alimentos é desperdiçada diariamente. "Nosso desperdício só não é o dobro por causa da ação dos catadores", diz Ossir Gorenstein, engenheiro da Ceagesp. 3.4 Legislação A lei, como está hoje, inibe os empresários e muitos deles preferem jogar no lixo o que falta na mesa de milhões de brasileiros. Isso acontece não só devido às punições previstas em lei, mas também pelos altos custos dessa operação. A proposta do "Estatuto do Bom Samaritano" é permitir que os empresários de "boa-fé" que doam alimentos para pessoas carentes não sejam responsabilizados se o produto, eventualmente, provocar problemas à saúde ou, nos casos extremos, a morte do beneficiado. Isso, segundo a proposta, desde que não haja, por parte de pessoa física ou jurídica, má conduta intencional ou negligência grosseira e descumprimento da legislação e regulamentos aplicáveis à fabricação, processamento, preparo, manuseio, conservação, estoque ou transporte dos alimentos. Para reduzir o desperdício de comida em toda a cadeia produtiva, o Sesc propôs ainda quatro projetos de lei que mexem diretamente com o bolso do empresário que decide abraçar o programa. O problema é que o empresário é obrigado a pagar integralmente o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos alimentos doados. Uma outra proposta de projeto de lei do Sesc visa isentar o empresário-doador do pagamento do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS) e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação. O ICMS varia de acordo com o produto e com os estados e municípios, sendo maior para produtos considerados supérfluos, como cigarros, por exemplo, e menor para mercadorias como o arroz ou feijão. Em São Paulo, o ICMS constitui a maior fonte de arrecadação e o percentual médio chega a 18% do valor do produto. A medida se aplicaria aos estabelecimentos varejistas ou atacadistas que doarem alimentos ou que assumirem o transporte desses produtos até as instituições favorecidas. Exceto para os bancos de alimentos, quando há estocagem, o pagamento do imposto onera a doação. Para o empresário é menos dispendioso destruir que doar o alimento. A DHL é uma das empresas que contribui com o Programa. A DHL coloca funcionários e um veículo à disposição do programa. No ano passado coletou 81 toneladas de alimentos. Há outros dois projetos de incentivos fiscais em estudo. Um deles prevê a participação de empresas inscritas no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), criado em 1976. Quem contribuir poderá deduzir do Imposto de Renda (IR). Para isso bastará comprovar as despesas realizadas no período, não podendo, no entanto, ultrapassar 3% do imposto devido. Caso haja excesso, a dedução poderá ser feita nos dois anos seguintes. O valor da refeição doada deverá ser o mesmo adotado no PAT. A utilização do incentivo não cobrirá o valor da doação, mas reduzirá os custos. 3.5 Restaurantes vão poder doar sobra de comida Segundo a constituição federal, O decreto lei n0 2.848, de 1940, impede que restaurantes dêem as sobras de comida para quem precisa. Impede porque, segundo o decreto, a responsabilidade, no caso de uma pessoa passar mal com o alimento doado, é dos restaurantes. Assim os restaurantes preferem não correr riscos. Quem trabalha nesses locais, como os gerentes e os garçons, não se sentem confortável em ver tanta comida indo para o lixo. Para ter uma idéia do tamanho do desperdício, muitos restaurantes são obrigados a comprar freezers especiais para colocar os restos. Essa situação pode mudar. Foi aprovado no Senado o projeto n0 4.747, de 1998, de autoria do senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE), que tira a responsabilidade dos restaurantes. No momento, o projeto está na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Para o deputado Emerson Kapaz (PPS-SP), a doação dos restaurantes é uma atitude bem-vinda. Segundo ele, quatro unidades do Sesc desenvolveram um programa para a doação de sobras. De 1997 a 2000, foram distribuídas 3,6 mil toneladas de alimentos (14 milhões de refeições). As sobras de 251 empresas foram doadas para 242 instituições sociais. 4. Desperdício nas empresas Nas empresas, o problema também existe e na verdade é ainda maior. Se já não há cuidado com o desperdício em casa, que reflete diretamente no próprio bolso, imagine na empresa, onde a conta não é paga pelo funcionário. Por isso mesmo, é tão difícil os programas voltados à redução do desperdício alcançarem a adesão necessária dos funcionários das empresas, que é imperiosa para a obtenção dos resultados esperados. E o desperdício nas organizações pode ser visto por todos os lados. Na produção, matéria-prima que pode ser perfeitamente utilizada na confecção de peças pequenas é jogada na sucata; produtos feitos sem qualidade gerando retrabalhos, com o conseqüente desperdício de material e mão-de-obra; materiais de segurança fornecidos mal cuidados e substituídos a toda hora, embora nem sempre usados corretamente, como deveriam; longas ligações telefônicas, muitas vezes em assuntos particulares, elevando a conta a pagar e tirando a produtividade do funcionário; material de expediente gasto sem nenhum cuidado; luzes acesas desnecessariamente; planos de saúde mal utilizados, aumentando as despesas do próprio funcionário e da empresa; e muitas outras situações, que por vezes sequer nos damos conta, pois não há um controle adequado da evolução das despesas, como deveria. Outro fator que dificulta o trabalho das empresas nesse sentido é a falta do verdadeiro comprometimento das chefias em geral com o assunto, o que é absolutamente imprescindível, pois é praticamente impossível conseguir a colaboração dos funcionários, sem os exemplos e a orientação da liderança. Já pertence ao passado o tempo em que as despesas eram simplesmente repassadas aos preços dos produtos e o cliente apenas pagava a conta. Hoje, os preços são ditados por um mercado cada vez mais competitivo, e a boa administração das despesas passou a ser um grande diferencial, proporcionando as condições necessárias para preservar a margem esperada, mesmo sem poder elevar preços. Não se trata de uma tarefa fácil, mas com certeza compensadora para todos. Na economia pessoal, os cuidados refletem diretamente na redução das contas a pagar. Já nas empresas, a redução do desperdício ajudará na geração de melhores resultados e, com isso, inegavelmente todos ganham, podendo até influenciar na manutenção e por que não na geração de empregos. Por isso, cada um de nós precisa se conscientizar e fazer a sua parte, sendo um multiplicador, um combatente do desperdício. 4.1 Os altos custos do retrabalho Não há desperdício mais trágico do que o retrabalho. Uma pesquisa da IBM indica que o custo do retrabalho é 50 vezes maior do que o trabalho que sai certo na primeira vez. O problema é que nem sempre o desperdício é encarado da forma correta. Há uma grande diferença entre cortar desperdícios e custos. Quando um executivo pede para que todos os subordinados cortem custos em 10% está afirmando publicamente que não tem a menor idéia de como nem o que agrega valor em sua organização. Além da gordura, o seu ato estará cortando os preciosos músculos que conquistam e conservam seus clientes. A verdade é que há muito desperdício a ser cortado. Hoje a média equivale a algo entre 20% e 40% das receitas líquidas das organizações. O valor parece alto, mas, se considerarmos todas as atividades, insumos e horas trabalhadas que não agregam qualquer valor ao serviço ou produto final da empresa, fica mais fácil de visualizá-lo. Sem falar em refugos de produção ou estoques intermediários no chão da fábrica, imagine todos aqueles relatórios e memorando que nunca foram lidos, ou grupos de trabalho cujas análises foram engavetadas. Segundo WHITELEY, Richard (1999), para se ter um bom mapa dos desperdícios de uma organização, é preciso começar de trás para frente. Dar a partida medindo a qualidade do relacionamento que sua empresa tem com seus clientes. Conhecer suas aspirações, suas reclamações e irritações secretas. Só então é hora de falar em desperdícios, tendo em vista o que o seu consumidor necessita. De maneira geral, processos que não sejam voltados à realização desses desejos são desnecessários. No caso do departamento de vendas, por exemplo, é normal que o parâmetro de qualidade e eficiência para medir o desempenho do vendedor seja o número de visitas que ele faz ao cliente. Obviamente, com esse critério ele procurará dar conta do maior número de visitas, encurtando-as ao máximo. Talvez deixando em cada cliente apenas o seu cartão. Isso é desperdício. O desempenho deveria ser aferido pela satisfação obtida com essas visitas. Se o produto está disponível quando o cliente necessita de sua presença, se dispõe das informações necessárias, se suas promessas podem ser cumpridas. Medindo se assim a eficiência. 4.2 Algumas dicas podem orientar as empresas a evitar o desperdício: Assegure que os clientes determinem os padrões de qualidade a serem seguidos; Trate todas as atividades como um processo; Incorpore parâmetros de qualidade desde o início; Aperfeiçoe seus processos continuamente; Resolva os problemas e falhas baseando-se em fatos e dados; Envolva todos os seus funcionários nesse desafio; Por fim, compartilhe com toda a organização as descobertas positivas, distribuindo conhecimento e know-how por toda a organização. 5. Conclusões: Os números das pesquisas apenas materializam os fatos já vivenciados no cotidiano de todos brasileiros, a constatação de que poderia-se gastar menos, menos pessoas adoeceriam ou morreriam de fome, pagaríamos menos se houvesse a consciência do não desperdício em nosso país. Os poucos movimentos isolados chamam a atenção para atitudes simples que podem fazer a diferença em um futuro onde os recursos não serão tão abundantes, e os que existirem deverá ser muito bem administrado pelas gerações futuras. Cabe aos cidadãos do presente iniciar esta mudança de cultura. 6. Referências: FAO ONU, citado pelo livro do Mesa São Paulo Ação contra fome e o desperdício. MORAES, Anna M. Pereira de, Iniciação ao Estudo da Administração. 2ª edição São Paulo S.PEd. Makron Books, 2001 ISBN: 85.346.1284-6; 03p e 107p. Bibliografias: p. 25, 145, 104. CEAGESP, Central de Abastecimento para o Estado de São Paulo. www.ceagesp.com.br Acesso em: 14. Abril. 2005, 23h: 40s CADERNO TEMÁTICO A nutrição e o consumo consciente do Instituto Akatu (2003) FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio. Ed. Folha de São Paulo. São Paulo S.P1994. WHITELEY, Richard. Os altos custos do retrabalho. www.abrac.com.br/online/artigo, 25 de setembro de 2001. Acesso em: 15. Abril. 2005, 13h: 40s SANDRONI Paulo. Os Retornos do Apagão www.fgv.br/online/artigo, 22 de outubro de 2000. Acesso em: 14. Abril. 2005, 18h25mins FOLHA DE SÃO PAULO Números do desperdício na construção civil São Paulo SP p1 e 3. 12 de agosto de 2004.
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