Cuidado: MBAs trabalhando!

<i>Para o pesquisador Henry Mintzberg, os programas americanos de MBA formam profissionais perigosos para as empresas. Enquanto isso, em Pindorama, a farsa se repete como piada.</i>

Para o pesquisador Henry Mintzberg, os programas americanos de MBA formam profissionais perigosos para as empresas. Enquanto isso, em Pindorama, a farsa se repete como piada.


Nos Estados Unidos, virou uma febre. No Brasil, o fenômeno se repetiu com as berrantes cores locais. São os programas de MBA (Master in Business Administration), sonho dos alpinistas corporativos e, reza o credo, fator de garantia de bom emprego no bazar global. Porém, longe da unanimidade burra dos que veneram o cobiçado título, surgem olhares críticos. E, entre estes, alguns impossíveis de ignorar, como o de Henry Mintzberg, nome respeitadíssimo na academia e autor de trabalhos seminais sobre gestão de empresas. Nos últimos anos, este professor e pesquisador focou sua iconoclastia contra os programas de MBA. Em encontros internacionais, não se furta a bradar seu discurso. Os ouvintes, quase sempre professores de programas de MBA, aplaudem constrangidos.



Em entrevista recente para o site do The Economist, o pesquisador voltou à carga. Mintzberg tem observado o impacto dos profissionais com título de MBA nas empresas e advoga que as escolas de administração têm promovido uma abordagem em muitos aspectos desastrosa. Seu alvo principal é o método do caso de estudo, no qual muitos programas baseiam o ensino. Ponto fundamental: os programas não capacitam para gerir. Pior: fazem crer que capacitam: ensinam a retórica e fazem os estudantes acreditar que podem controlar situações e solucionar problemas complexos de um dia para o outro. Então, muitos profissionais com MBA irão flanar de empresa em empresa sem nunca entender realmente como as coisas funcionam. Mintzberg identificou estrelas do MBA de Harvard nos anos 90 e foi checar sua situação profissional uma década depois. Descobriu que muitos tiveram carreiras desastrosas ou estiveram envolvidos com problemas graves em empresas.


Mintzberg observa que a forma como se ensina administração hoje é totalmente americana e não considera diferenças entre contextos. O que há de errado com isso? Primeiro, a obsessão com liderança: o mito do líder heróico que vem num cavalo branco para salvar o dia. Segundo, a difusão sem medida de técnicas, aplicadas sem reflexão. O que fazer? Mintzberg tem uma proposta que lembra as idéias de Paulo Freire: ensinar com base na experiência e no contexto de cada estudante, desenvolvendo conhecimento com base em suas próprias experiências.


Mas, e Pindorama? Aderiu a onda? Claro, como sempre! Aqui, o conceito de MBA, criticado na versão original, foi mal entendido e digerido, misturado com resquícios de um ensino esclerosado de terceiro grau, temperado com doses generosas de faz-de-conta e reciclado para uma massa de consumidores sem paladar ou bom senso, mas dotada de um senso de urgência cego.

Por aqui, qualquer curso de extensão ostenta a sigla MBA. Uma busca rápida na Internet revela dezenas deles, nos mais escondidos rincões pátrios, e com promessas mirabolantes. O conceito original já fora flexibilizado nos Estados Unidos para atender a estratégia de expansão das escolas de negócios. Mas a criatividade (ou falta de escrúpulos) local levou a situações bizarras. Só falta montar MBAs em cima de padaria! Para aplacar funcionários desmotivados e economizar nos salários, muitas empresas estão contratando cursos fechados e chamando de MBA. E o delírio não para por aí: com um MBA, um curso de inglês e pouca coisa mais já se faz uma Universidade Corporativa!

Quem ganha com isso? Professores, instituições de ensino e empresas de treinamento, certamente. E as empresas e seus funcionários? Aí pairam dúvidas. Haverá valor agregado em extensas horas de treinamento mal cuidado e mal adaptado? Talvez seja mais realista interpretar o fenômeno como um contrato psicológico coletivo delirante: os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e as empresas fingem que valorizam o capital humano e que ficam mais competitivas. É o velho me engana que eu gosto na era do conhecimento.

Existem, claro, exceções e ilhas de excelência. Mas essas podem ser contadas com os dedos de uma mão, se tanto. No estágio selvagem que anda a formação de administradores no Brasil, seria conveniente ouvir as críticas e voltar a pisar no chão. Quiçá um modelo sensato surja.



* Este artigo foi originalmente publicado na Revista CartaCapital e faz parte do livro Executivos Neuróticos, Empresas Nervosas.
** A publicação foi autorizada pela Editora Campus-Elsevier.




ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.