Contos de fadas

Livros e revistas de negócios estão cheias de “contos infantis para adultos”. Como se explica a permanência do mundo infantil entre executivos?


Livros e revistas de negócios estão cheias de contos infantis para adultos. Como se explica a permanência do mundo infantil entre executivos?

Em um artigo publicado pelo caderno Mais!, da Folha de São Paulo, no final de 2001, Jonathan Myerson se queixava, perplexo, da invasão da pottermania no mundo adulto. Caminhando por um trem, havia ele contado cinco adultos lendo livros infantis. Parecia que os cérebros de adultos tinham sido afetados por alguma praga e eles tinham voltado à infância, procurando seus brinquedos e livros de colorir, escreveu perplexo o escritor.


Como bem observou minha sócia para assuntos acadêmicos, Ana Paula Paes de Paula, da Unicamp, Myerson talvez não tivesse ficado tão surpreso se verificasse as leituras dos executivos: as biografias de heróis corporativos e os casos de sucesso insistentemente divulgados nas revistas de negócios e nos best-sellers de gestão. De fato, as semelhanças entre os contos infantis e a literatura popular de gestão não são poucas.

Sugerimos ao leitor que tire da estante duas obras clássicas sobre os contos infantis: Morfologia do conto maravilhoso, de Vladimir Aioakovlevich Propp (Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1984) e A psicanálise dos contos de fadas, de Bruno Bettelheim ( Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980). Leia-as com carinho. Observe as estruturas e categorias identificadas por estes estudiosos.

Agora, vá até a sala do diretor da empresa, pegue emprestada aquela maravilhosa coleção de biografias guardada com tanto carinho: Akio Morita, Lee Yacocca e, claro, o inevitável Jack Welch. Insuficiente para uma pesquisa conclusiva? Então tome as últimas edições das revistas de negócios e casos não vão faltar: o salvamento da Nissan pelo brasileiro Carlos Ghosn, o renascimento da IBM nas mãos de Lou Gerstner, o sucesso da Enron com o visionário Kenneth Lay (sic). Pronto, você já tem material para um revelador fim de semana.

Então, note as notáveis semelhanças entre a estrutura e a morfologia dos contos infantis, reveladas por Propp e Bettelheim, e as histórias de sucesso empresarial. Veja como sempre começam com um problema dificílimo a resolver, ou um grande desafio; repare como o herói, humano, porém dotado de poderes especiais, enfrentará grandes perigos; observe, finalmente, como o mal será derrotado e o final será invariavelmente feliz, com mensagens claras e edificantes.

Os contos infantis têm papel importante no desenvolvimento das crianças: diante de um turbilhão de sentimentos e sensações, elas precisam de personagens bem definidos e parâmetros claros de comportamento. A capacidade para enfrentar paradoxos e ambigüidades virá mais tarde, com o amadurecimento e o desenvolvimento da identidade. Mas como se explica a presença de estruturas do universo infantil no mundo corporativo, pretensamente adulto? Terão as instabilidades da economia e negócios criado condições equivalentes àquelas da infância? Seremos órfãos, despreparados para o duro embate no bazar global? Boa chance. Ou, ainda mais preocupante, faríamos parte de uma geração que se recusa a crescer, afetados pela praga insinuada por Myerson? Também provável.

Convidamos agora o leitor a observar o ambiente corporativo ao redor. Comece pelo ambiente físico. Notou como bolinhas, bichinhos e brinquedinhos vêm invadindo o lugar? Ajuda a reduzir o estresse, dizem. Agora tente lembrar a última vez que participou de uma conversa adulta na empresa: 1998, 1997? As reuniões de estratégia parecem uma sessão de banco imobiliário? O comportamento dos gerentes parece inspirado por personagens de Jornada nas Estrelas? Acerte o foco crítico. O que se vê? Egos inflados, narcisismo descontrolado, fantasias de poder, identidades em desenvolvimento e manifestações diversas de imaturidade. Chamem o psicanalista!, ou Harry Potter.

Finalmente, consolidamos nossa hipótese: as empresas são reinos infantis, arenas para meninos crescidos, ou adolescentes em formação. Em um recente número da revista Harvard Business Review, o conhecido guia do escoteiro mirim para MBAs, uma das propagandas mostra o novo modelo Audi A4. Na foto, realizada com tons claros e poucos elementos, o carro está de frente, com a porta do motorista aberta. Ao lado, dando-lhe acesso, um escorregador. O brinquedo infantil fornece a passagem para o brinquedo adulto. Sem mais comentários!


* Este artigo foi originalmente publicado na Revista CartaCapital e faz parte do livro Abaixo o Pop-Management.
** A publicação foi autorizada pela Editora Campus-Elsevier.

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    Thomaz Jr.

    Thomaz Jr.

    Thomaz Wood Jr. é professor da FGV-EAESP e sócio da Matrix/Consultoria e Desenvolvimento Empresarial. Sua prática de consultoria inclui a coordenação de projetos de transformação organizacional e estratégia empresarial.

    Publicou mais de 50 artigos acadêmicos - incluindo trabalhos veiculados em periódicos internacionais como Organization, Academy of Management Executive e Journal of Organizational Change Management - e 12 livros na área de gestão - incluindo "Executivos Neuróticos, Empresas Nervosas", "Abaixo o Pop-Management" e "Mudança Organizacional".

    Seus interesses de pesquisa incluem o estudo da "teatralização" da vida organizacional, a evolução do "campo management" e a análise da adaptação de tecnologias gerenciais estrangeiras em países em desenvolvimento.

    Thomaz Wood Jr. é colunista da revista CartaCapital desde 1996. Publica também artigos na revista Exame.
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