Construindo o salto qualitativo da cidadania com a Economia Solidária (versao completa)

Apesar da evolução tecnológica que aproxima distâncias e entrelaça relações em todo o mundo moderno, a fome permanece como um flagelo real, que desafia e envergonha a humanidade, embora a causa não possa ser atribuída à insuficiência de alimentos para atender à demanda global. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação(FAO), a quantidade de alimentos produzida é suficiente para alimentar uma vez e meia a população mundial. No Brasil, a questão toma contornos de exemplo, pois o País dispõe de alimentos suficientes para fornecer, diariamente, per capita, 2.960 mil quilocalorias (Kcal/dia), o que ultrapassa largamente o mínimo recomendado pela FAO de 1.900 Kcal/dia. O problema é que, a exemplo do resto do mundo, parcela significativa da população não dispõe de renda suficiente para adquirir a quantidade de alimentos necessária à boa nutrição. Além disso, o País desperdiça 30% da produção de frutas e hortaliças, representando quase 11 milhões de toneladas, o que equivale a US$ 4 bilhões em exportações. A perda citada é bastante acima da perda existente em Países desenvolvidos, que alcança o percentual máximo de 8%. Este quadro de desperdício pode ser reduzido. Segundo o especialista em ciência da alimentação, Antonio Gomes, que levantou esses dados sobre desperdício através de um estudo promovido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária Embrapa, o Brasil dispõe de tecnologia para atuar preventivamente evitando essas perdas, mas carece de campanhas de conscientização para pô-las em prática. Nona economia social mundial, o Brasil é a quarta maior concentração de renda do mundo, de acordo com o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Conseqüência disso é a existência significativa de parcela de subnutridos, cujo consumo per capita de 1.650 Kcal/dia, situa o Brasil na desconfortável categoria 3, de uma escala de subnutrição da FAO, que varia de 1 a 5. Reduzir de forma acentuada os indicadores de subnutrição no País é desafio de grande magnitude, certamente capaz de proporcionar resultados sociopolíticos de repercussões profundas em nosso modo de vida e em nossa imagem e credibilidade no exterior. A título de ilustração, aos que pouca memória têm, recorde-se o fato de que o eficaz combate ao fenômeno da inflação, flagelo de décadas e benefício de poucos, garantiu a reeleição ao último Presidente, e uma grande mudança em nossa avaliação externa. Neste sentido, todas as parcerias legais possíveis para atendimento a este propósito devem ser consideradas. Para ajudar a superar esses indicadores adversos, uma parceria com perspectivas positivas de trazer bons resultados é a existente entre o governo e as instituições que compõem a Economia Solidária. Dentro da ótica da Economia Solidária, o trabalho deixaria de ter como objetivo central a acumulação de riqueza. Tornar-se-ia um meio de atendimento às necessidades humanas básicas. Quanto ao lucro, seria repartido de forma equilibrada entre os trabalhadores e reinvestido nos empreendimentos instalados, promovendo a tão sonhada geração de valor agregado na economia local. França Filho (2002) conceituou a Economia Solidária como experiências que se apóiam sobre o desenvolvimento de atividades econômicas para a realização de objetivos sociais. Embora difíceis de serem aplicados, esses nobres ideais devem ser perseguidos com determinação. Todavia, a condição de miséria e exclusão existente em nossas diversas comunidades vem exigindo providências emergenciais que garantam o acesso a uma alimentação básica a essas populações. Os dados econômicos que distanciam nosso potencial gerador de riqueza da distribuição na sociedade brasileira, são gritantes. Com 170 milhões de habitantes, temos 50 milhões vivendo em condição de indigência, com renda inferior a R$ 80 por mês, ainda de acordo com o Ethos. Mobilizar essa enorme parcela da população mergulhada na miséria e movê-la em direção à cidadania é tarefa hercúlea, que requer o combate emergencial às graves carências nutricionais, que tanto dificultam a formação físico-mental e educacional de jovens, o engajamento de adultos e a ação transformadora da mobilização popular. Vencer as enormes limitações impostas aos seres humanos, num quadro de extrema penúria como o desenhado, requer decisão política, capacidade técnica, planejamento estratégico, operação progressiva e evolução contínua. O contexto, de grande complexidade, demanda elevada mobilização de recursos, o que se configura num grande contraste com a realidade atual, que requer crescente investimento na área social. Para superar as condições restritivas descritas, seria valioso o fortalecimento de laços do governo com a Economia Solidária, que está representada por organizações que atuam em diversas modalidades de ação solidária, a exemplo: Agricultura Ecológica, Autogestão de Empresas pelos Trabalhadores, Bancos do Povo, Bancos Éticos, Capital Solidário, Cooperativismo e Associativismo Popular, Comércio Solidário, Consumo Crítico, Consumo Solidário, difusão de Softwares Livres, Movimentos de Boicote, Organizações de Marca e Credenciamento, Economia de Comunhão, Grupos de Compras Solidárias, Redes de Trocas, Sistemas Locais de Emprego e Comércio, Sistemas Locais de Troca, Sistemas Comunitários de Intercâmbio, Sistemas de Microcrédito e de Crédito Recíproco, Sistemas Locais de Moedas Sociais, entre muitas outras práticas de economia solidária. De acordo com Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária, já há no País cerca de 800 entidades (associações, cooperativas e ONGs) responsáveis por mais de 10 mil empreendimentos solidários em todo o país. A construção, a evolução e a consolidação de parcerias entre as instituições solidárias, governo e sociedade civil vão exigir comunhão de propósitos, dedicação, persistência, paciência e tempo, fundamentais para geração de entrosamento, confiança e alcance de bons resultados entre os possíveis parceiros. Há uma longa jornada a percorrer e é fundamental desenvolver esforços com parceiros idôneos. Políticas públicas associadas a parcerias solidárias são um promissor caminho para se obter a transformação social necessária ao salto qualitativo da cidadania. Luiz Inácio Caribé Cincurá de Andrade, é Administrador de Empresas CRA/BA nº 4876. Artigo concluido em 26/02/2005. e-mail: luizinacio@yahoo.com

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    Luiz Andrade

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    Mestre em Administração (UFBA)
    CRA/Ba nº 4876.
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