Construindo nossa identidade profissional

Como nossas experiências, mesmo aquelas que parecem não ter importância na nossa trajetória, acabam por nos trazer aprendizados que enriquecem nossa identidade profissional, e por que não, pessoal

Outro dia estava pensando em um treinamento que estamos desenhando para uma grande empresa, e a grande questão é como fazer as pessoas entenderem a importância de cada passo dado na vida profissional rumo àquilo que se deseja e como todos eles deixam marcas que juntas formam nossa identidade profissional.

Minha empresa está situada em Luanda, Angola, e aqui ainda há muito que se trabalhar na responsabilização das pessoas pelo trabalho que assumem fazer. Então eu me peguei lembrando do meu primeiro emprego, da imaturidade inicial e algumas lições que hoje eu vejo, acabei tirando desta experiência.

Assim tive a ideia de escrever 15 artigos sobre aprendizados na prática, que nos transformam, nos ajudam a transformar a sociedade e constroem nossa identidade profissional e, por que não, pessoal também.

Eu comecei a trabalhar aos 17 anos. Assim que terminei o colégio. O primeiro emprego que consegui foi como vendedora no Shopping Center mais próximo de casa.

Tinha um piso salarial e 4% de cada venda que fizesse. Antes de encarar o desafio de vender, a empresa dava um treinamento em vendas de uma semana. O que era muito bacana.

O trabalho era de meio período e aos sábados trabalhávamos período integral. Na época não era habitual as lojas abrirem aos domingos. Cada vendedor tinha por mês uma meta que deveria ser alcançada, portanto eu teria que vender neste primeiro mês de trabalho pelo menos 11.000,00 reais.

Minha gerente era muito sociável, ambiciosa e tinha um humor inconstante. Porque nós erámos diferentes em muitos aspectos, acredito que eu a deixava um pouco irritada, ela não entendia minha personalidade, e eu em contra partida fiquei muito fechada ao seu modo de gerir.

Por exemplo, ela queria e que nós captássemos clientes na vitrine, uma ação que eu abominava; outra era que de modo algum deixasse um cliente sair da loja sem comprar nada, para isso havia que insistir exaustivamente, o que a mim parecia cansativo para o cliente. Ela, em contrapartida, tinha uma facilidade enorme em fazer estas coisas e parecia ser sempre bem-sucedida.

Fui ficando cada vez mais fechada. Então como era de se esperar eu não conseguir alcançar a meta, fiquei em último lugar dos vendedores da loja.

Havia uma reunião mensal, para apresentação de resultados, a Gerente na minha primeira reunião de trabalho, no meu primeiro emprego, no primeiro fracasso, disse a frente de todos que estava decepcionada comigo, que havia pensado que eu era mais responsável, mais dedicada e que estava muito arrependida de ter me contratado.

Obviamente minha primeira reação foi sentir auto-piedade. Coloquei a culpa no mundo todo. Mas fiz uma promessa a mim mesma, nestes mais 2 meses de experiência que restavam, eu iria ser a primeira vendedora da loja e então pediria demissão. Para sair por cima.

A primeira coisa que fiz foi começar a enxergar meu trabalho, como trabalho. E a observar os meus colegas, os que eram melhores vendedores, também passei a analisar a forma como minha gerente agia.

Obviamente minha gerente era qualquer coisa menos uma líder e não a culpo porque não se falava tanto em liderança.

Não fui a primeira colocada, nenhuma vez nos 16 meses que trabalhei ali, mas nunca mais fui a última, nem a penúltima, na verdade estive sempre em 3º ou 4º lugar.

Na época eu não pude conectar certas coisas, mas hoje eu posso enxergar algumas lições dessa experiência que enriqueceram minha vida e formaram minha identidade profissional.

Primeira lição

Sobre mim: Quando eu penso que estou fazendo o meu melhor, na verdade eu posso e devo fazer melhor ainda.

Liderança: O líder tem que acompanhar cada pessoa da sua equipe, e dar constantes feedbacks, auxiliar, indicar o melhor caminho, não pode esperar o resultado final para dizer alguma coisa, e na maioria das vezes quando espera-se o resultado final o líder pode ser injusto e muito duro.

(Eu poderia ter dito que a primeira lição de liderança é não fazer críticas más em frente a todos da equipe, mas acho que essa é uma lição mais que aprendida. Eu espero.)

Segunda lição

Sobre mim: Quando fazemos algo com propósito, todos percebem e o resultado é visível.

Liderança: Seu pior liderado pode ser o melhor, se você trabalhar com ele e desenvolver suas competências de modo correto.

Terceira lição

Sobre mim: A vida é dura. Se não nos preparamos para dar o nosso melhor, o mercado, as pessoas vão passar sobre nós, por nós, e ficaremos para trás, até acordarmos e assumirmos o controle da nossa vida e trabalhar duro. E trabalhar significa estudar sempre, ouvir atentamente, prestar atenção devidamente e praticar constantemente.

Sobre liderança: Você pode até encontrar alguém que seja auto-gestor, mas na maioria dos casos você precisará ser um líder, acompanhar, ensinar, mostrar e encontrar as melhores competências dos seus liderados e desenvolvê-las. Porque se você não fizer, duas coisas certamente vão acontecer: você terá o mesmo problema inúmeras vezes ou eles irão desenvolver as competências em outro lugar.

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