Concorrência informal

<b>O Brasil transformou-se nas últimas décadas no paraíso da informalidade, da sonegação tributária e do desrespeito á propriedade intelectual. </b>

Ana Cherosi cansou da vida de executiva na cidade grande. São muitas pressões, metas impossíveis, colegas puxadores de tapete, cobranças e chefes grosseiros. Ela tem pesadelos constantes. Neles, quase sempre perde o emprego e o bom salário da multinacional. Lá se foram cinco anos de trabalho árduo e nenhum tostão economizado. Ana trabalhou esse tempo todo para pagar as prestações do carro, dos móveis, dos eletrodomésticos, roupas de grife, champanhes e festas. Ana submergiu na onda do consumismo. Tentou sempre acompanhar os novos lançamentos e trabalhou como uma escrava para poder comprar os sonhos e fantasias fabricados nas usinas de marketing das grandes grifes. Acabou atolada em dívidas ao trilhar o terreno movediço dos cheques especiais e dos cartões de crédito.Tornou-se uma pessoa estressada e depressiva. Foi parar no divã.

Dias atrás, Ana resolveu pedir demissão. Gastou a maior parte do dinheiro recebido para pagar as contas e decidiu voltar para a cidadezinha onde nasceu. Lá pretende levar uma vida mais austera e montar seu próprio negócio no setor de perfumes e cosméticos. A cidade onde Ana irá morar tem pouco mais de dez mil habitantes. Ela já pesquisou o mercado por alto e concluiu que lá não existe nenhuma loja especializada para concorrer com ela no setor de cosméticos e perfumaria. Constatou que umas poucas marcas desses produtos são vendidas por preços muito elevados numa antiga drogaria da cidade. Ana tem uns vinte porcento do capital necessário para abrir a empresa. Ela pretende completar através de um financiamento bancário, com o aval de uma tia aposentada.


Pobre Aninha. Sem saber caminha para um precipício. Nossa amiga estudou mal a concorrência. Ela não estudou o lado informal do novo negócio. Ela não sabe que existem mais de trinta vendedoras trabalhando para cinco fábricas e entregando as encomendas de perfumes e cosméticos de porta em porta. Ela não sabe que outras quinze sacoleiras da cidade trazem todos os meses, clandestinamente, malas cheias de perfumes e cosméticos do exterior. Ana, que pretende trabalhar com tudo legalizado, ainda não sabe que será comercialmente fulminada pela informalidade.

O Brasil transformou-se nas últimas décadas no paraíso da informalidade, da sonegação tributária e do desrespeito á propriedade intelectual. A culpa é dos governantes e legisladores que não souberam criar normas e legislação adaptadas aos novos tempos e, nem punir adequadamente os infratores. Muitos novos negócios fracassam ao bater de frente com uma concorrência completamente informal que, justamente por ser informal, não é detectada pelos estudos iniciais e pesquisas de mercado. Por exemplo, estão enfrentando esse tipo de concorrência fraudulenta as lojas de CDs legais, as locadoras de CDs legais, as lojas de perfumes, brinquedos , tênis e vestuário de grife. Outros negócios estão afundando lentamente porque, muitas vezes sem saber, enfrentam concorrentes desonestos. Concorrentes abastecidos por mercadorias de origem duvidosa, contrabandeadas e, muitas vezes roubadas. Outros enfrentam concorrentes que possuem preços imbatíveis por serem muito habilidosos na arte de sonegar imposto. Ficou difícil empreender nesse cenário de concorrência imprevisível, desonesta e traiçoeira.

Diante desse cenário, a jovem empreendedora Ana pode começar a atualizar seu currículo. Muito breve voltará a procurar emprego na cidade grande, agora ainda mais endividada do que antes. Infelizmente sua perfumaria acabará entrando para as estatísticas da mortalidade infantil de empresas. Ana será mais uma vítima desse desgoverno que acaba destruindo sonhos e sepultando a fina flor do empreendedorismo brasileiro.

Eder Bolson, empresário e autor de Tchau, Patrão! www.tchaupatrao.com.br


ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.