Comunidade empreendedora

Eu não paro de me surpreender com as coincidências da vida. Na semana passada eu fui à reunião de pais na escola de meus filhos e, num determinado ponto da reunião, a professora demonstrou sua preocupação com relação à falta de disciplina da classe, principalmente no que dizia respeito ao silêncio necessário para uma boa aula

Eu não paro de me surpreender com as coincidências da vida. Na semana passada eu fui à reunião de pais na escola de meus filhos e, num determinado ponto da reunião, a professora demonstrou sua preocupação com relação à falta de disciplina da classe, principalmente no que dizia respeito ao silêncio necessário para uma boa aula:

- É muita baderna. Eles não param de conversar. Depois fazem errado a lição porque não prestaram atenção na explicação. Eu já tentei de tudo, gritei, saí da sala, tirei o recreio deles, dei lição a mais como castigo, prometi um piquenique como recompensa, mas nada está adiantando.


Depois de algumas opiniões e discussões, alguém se lembrou de perguntar o que os próprios pais poderiam fazer para ajudar. A professora prontamente respondeu que ela poderia fazer uma anotação na agenda dos alunos mais tagarelas para os pais saberem. Eles poderiam acompanhar e conversar com eles, estender para dentro de casa os castigos e recompensas, questionar e ajudá-los a criar formas de não se dispersarem e outras idéias que logo foram aceitas por todos os pais.

Ora, pensei comigo mesmo, porque os pais precisam se envolver numa questão que faz parte das obrigações para a escola resolver? Eles não são pagos para isso? Será que a professora está mesmo fazendo de tudo para controlar a situação? Não seria o caso de trocá-la? Saí da reunião sentindo que as minhas obrigações e tarefas aumentaram enquanto diminuíam as da escola. Parecia que a relação de responsabilidades entre as partes havia perdido o equilíbrio.

Dois dias depois, fui assistir a uma mesa redonda sobre empreendedorismo e desenvolvimento que reuniu o Prof. Luis Jacques Filion da HEC de Montreal, Canadá; O Prof. Fernando Dolabela, da UFMG e da Fundação Dom Cabral e o Secretário da Habitação do Estado de São Paulo e ex-prefeito de São José dos Campos, Emanuel Fernandes. A seguir relato alguns pontos importantes deste evento, enquanto convido o leitor a traçar um paralelo com a história que acabei de contar.

Emanuel começou falando que o povo brasileiro sempre esteve à espera do Salvador da Pátria, dos heróis que os tirariam daquela vida e os levariam à terra prometida. Foram apoiados nesta expectativa que se projetaram vários membros da classe política. O último destes candidatos a herói foi o atual Presidente da República. Finalmente povo está começando a cair na real, e descobrindo que este herói não existe. Ninguém vai olhar por eles, não existe ninguém além de nós mesmos que seja responsável pelo nosso sucesso. Para Emanuel, o governo precisa abandonar sua função assistencialista, como o protecionismo a certos setores, isenção fiscal, etc para proporcionar condições para a auto-sustentabilidade do empreendedor. Ele citou vários exemplos de medidas neste sentido, implementadas durante sua gestão como Prefeito de S. J. dos Campos, dentre as quais o Banco do Povo, o Centro de Educação Empreendedora, o Projeto Jovens Empreendedores e a Pedagogia dos Sonhos, este último, ponto de aderência com o trabalho de Dolabela que é o desenvolvimento do espírito empreendedor entre os alunos da rede municipal de ensino.

O trabalho de Dolabela tem sua maior vitrine neste projeto e parte da crença que todas as pessoas têm o potencial empreendedor e que, quanto mais cedo identificado e estimulado, maiores são as chances de se formar cidadãos empreendedores que buscam a realização de seus sonhos através do empreendedorismo. Dolabela acredita que um dos maiores problemas do Brasil é a enorme disparidade na concentração de renda, um fosso que separa as classes mais favorecidas das mais carentes. Para ele, o melhor tipo de empreendedorismo é o que promove a cooperatividade sistêmica, que favorece o desenvolvimento local, que gera dignidade e civilidade, é aquele que aumenta o estoque de capital social, trazendo como conseqüência uma redução destas diferenças sócio-econômicas.

Por isso, Dolabela acredita que a participação da comunidade na sala de aula é fundamental na pedagogia empreendedora, os pais se envolvem no processo educacional como parceiros e co-responsáveis junto com a escola. Eles têm a oportunidade de contribuir com o processo de geração de conhecimento dentro das realidades locais. Existe muita coisa para mudar no ensino brasileiro para favorecer o empreendedorismo como mola para o processo de transformação de um país em todos os seus aspectos.

Esta distância entre o ensino e o empreendedorismo não acontece só no Brasil. Neste sentido, Filion trouxe sua contribuição com uma pesquisa que ele realizou recentemente com 200 empresas canadenses. Filion disse que também no Canadá há uma enorme distância entre o que a universidade ensina e o que os empreendedores precisam. Igualmente, os centros de pesquisa não investem no desenvolvimento de tecnologias que o empreendedor necessita. Uma figura bastante valorizada no Canadá para suprir esta formação é o mentor. Segundo seu levantamento, 38% dos empreendedores pesquisados têm ou tiveram um mentor, uma cultura rara e pouco disseminada no Brasil. Antes que alguém diga que não dá para comparar o Canadá com o Brasil, veja outros dados importantes que ele mencionou: Para se vender o primeiro produto leva-se em média 6 meses depois de aberta a empresa. 25% dos empreendimentos levaram 15 meses ou mais! As maiores dificuldades neste sentido é fazer seu produto ou empresa se tornar conhecido para seu futuro cliente. Lá, o índice de sobrevivência das empresas é de 40% após 5 anos, chegando a 90% entre as que escreveram um Business Plan, se estruturaram e se planejaram adequadamente. Com relação às expectativas financeiras, 46% dos entrevistados confessaram que tiveram que rever para cima suas necessidades financeiras. O lucro só vem entre 1 e 2 anos depois de aberta a empresa, para 25% deles, apenas depois de 28 meses. Com relação ao grau de inovação dos novos negócios, 65% disseram que só fizeram adaptações ou melhorias a serviços ou produtos já existentes, rompendo com o paradigma que os empreendedores são focados a inovações de ruptura.

Para Filion, a formação de empreendedores envolve mais do que o treinamento em técnicas e metodologias. Empreendedores devem desenvolver a forma de pensar, a atitude, as estratégias, os relacionamentos, a arquitetura dos negócios. A educação empreendedora deve usar mais estudos de caso, mais contatos com empreendedores reais, mais coaching, mais exploração de oportunidades. Para ele, as escolas de empreendedorismo estão erradas em se limitar a ensinar a escrever um Plano de Negócios, elas devem ensinar a ir além do plano, a desenvolver a percepção para saber quando não deve mais seguir o plano, a usar o plano como uma ferramenta para auxiliar as tomadas de decisão e não tendo sua consecução como um fim em si mesmo.

Bem, agora vocês podem imaginar qual era minha visão sobre aquela reunião de pais depois de ouvi-los? Foi uma grande lição. Não posso esperar que a escola faça tudo sozinha e ficar sentado esperando. Todos somos responsáveis, todos temos que participar, todos temos que ter a visão de comunidade na formação destes futuros empreendedores.

Emanuel resumiu muito bem as visões dos três palestrantes com relação à educação empreendedora: Uma coisa é dar o peixe, outra coisa é ensinar a pescar, mas o importante mesmo é saber se virar quando não tem peixe!


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