Compra, estraga, joga fora. Mas, fora onde?

Os dados são assustadores, mas é fato que cada brasileiro é responsável por, pelo menos, 1,2 kg de lixo por dia. Em números absolutos estamos falando de aproximadamente 250 milhões de quilos de lixo, por dia, só no Brasil. Vale à pena repetir: 250 milhões de quilos de lixo!

Há 7 anos a ativista norte-americana Annie Leonard chamou a atenção do mundo dos negócios através de seu genial documentário em formato de animação intitulado “ A história das coisas”. Na produção a autora apresenta os resultados de suas pesquisas sobre nosso consumo excessivo e o descarte de produtos que a cada dia se tornam obsoletos mais rapidamente enquanto outros produtos, mediante um dano, sequer viabilizam seu próprio ‘conserto’, em função do custo de manutenção ser equivalente, ou próximo, ao preço de um novo produto.

Feita a recompra, joga-se fora o antigo. Estraga, joga fora, compra outro. Estraga, joga fora, compra outro... Simples, assim ou nem tanto, observem que pneus, geladeiras, televisores, aparelhos de som, ferros de passar, liquidificadores, ventiladores, aparelhos celulares, máquinas de lavar, sofás, camas, computadores, monitores e periféricos estão indo para leitos de rios, terrenos baldios, lixões, córregos, bueiros e se amontoando por aí.

Mas, jogar fora onde? Fora de casa e tudo bem?

Os dados são assustadores, mas é fato que cada brasileiro é responsável por, pelo menos, 1,2 kg de lixo por dia. Em números absolutos estamos falando de aproximadamente 250 milhões de quilos de lixo, por dia, só no Brasil. Vale à pena repetir: 250 milhões de quilos de lixo!

Somos responsáveis por tudo isso quando, por falta de planejamento, por exemplo, de acordo com a ONU, um terço dos alimentos perecíveis vai direto para o lixo. Ou seja, de cada três laranjas, uma é jogada fora; de cada três litros de leite, um é desperdiçado.

Partindo para o lixo convencional, não orgânico e doméstico, constatamos que, enquanto aproximadamente 45% do lixo produzido é reciclável apenas 2% do nosso lixo urbano é reciclado, segundo as fichas técnicas da Associação Empresarial para Reciclagem (CEMPRE). De tudo que se recicla: 4% é metal; 3% é vidro; 3% é plástico. Papel e papelão somam 25%. O restante do lixo vai para lixões (75%), aterros controlados (13%) e aterros sanitários (10%).

Os ‘lixões’ são espaços não planejados, destinados a apenas receber os resíduos, sem que haja preparação adequada para separação e/ou tratamento dos mesmos. Já os ‘aterros controlados’ se caracterizam pelo solo impermeabilizado preparado com uma base de argila e lonas plásticas, a fim de evitar a sua contaminação pelo chorume (Mistura de água e resíduos de lixo que derivam dos processos biológicos e químicos de produtos orgânicos). Alguns contam com tubulações específicas para captação do metano (gás exalado pela decomposição de matéria orgânica e que pode ser utilizado para a produção de energia). Os ‘aterros controlados’ são os espaços onde o lixo é coberto diariamente por terra a fim de evitar a proliferação de insetos e maus odores, apesar de não apresentar um projeto mais elaborado para a não contaminação do solo e de águas no subsolo. Para este destino são encaminhados cerca de 10% de todo lixo produzido.

O Brasil tem hoje, aproximadamente, 600 mil catadores, quase 3 mil lixões (2 mil deles com crianças trabalhando) e em apenas 800 dentre os 5.570 municípios existentes em nosso país, é possível encontrar algum trabalho envolvendo coleta seletiva.

E ajudar é, sim, possível, conscientizando-nos de que compras por impulso podem ser evitadas ou ‘transformadas’ em compras planejadas onde, possam ser mais racionais, não cedendo às tentações promocionais que saltam das gôndolas de supermercados, da facilidade do e-commerce, dos pátios das montadoras de veículos e das prateleiras de eletromóveis. Comprando produtos que priorizem menos embalagem. Produtos que sejam mais duráveis. Produtos de empresas que se preocupem com sua pegada ambiental e com o futuro do nosso planeta.

Em se tratando do poder público, pode-se pensar em incentivar locais de descarte nos bairros e microrregiões, capacitando catadores, incentivando as instalações de fábricas de reciclagem, promovendo a coleta seletiva na comunidade e dando ainda mais dignidade aos profissionais que geram renda onde muitos enxergam e praticam o desperdício.

Estanislau Maria, do Instituto Akatu, sugere ainda que, para efetivamente fazermos nossa parte, podemos migrar do real para o virtual (baixar CD pela internet em vez de comprar), usar mais o compartilhado (alugar roupas de festas, por exemplo), combater a obsolescência programada e por design (reclamar quando um produto estraga logo após o vencimento da garantia e não adquirir um novo telefone ou carro só por que o modelo mudou) e combinar a compra compartilhada de feira (rodízio entre vizinhos).

E, convenhamos, dá para fazer isso sem entrar em ‘neuroses’, sem ser um eco chato ou mesmo se permitir ser vítima do marketing, muitas vezes de caráter duvidoso e jocoso, que algumas empresas insistem em promover.

Difícil mesmo é lutar contra a indústria do consumismo que produz, emprega e gera renda ao mesmo tempo em que devasta, aliena, banaliza valores, cria rótulos, promovendo modismos e lixo. Muito lixo!

Vamos lá, nem ao socialismo, nem ao capitalismo porque, como em tudo na vida, o que mais devemos buscar é o equilíbrio. Mais ou menos assim: Vamos às compras sim, mas vamos de sacola retornável!

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento