Como surgem as más decisões? Os “duendes da mente” - Parte I

Todas nossas ações do dia-a-dia tem razões por trás que acreditamos sejam as mais corretas e coerentes. Mas ... será que são? Confira abaixo os duendes da nossa mente e como eles originam prejuízos nas iniciativas corporativas

As decisões tomadas racionalmente podem parecer lógicas e coerentes, mas existem duendes que nos enganam, caímos inconscientemente nas suas armadilhas e terminamos agindo de forma racionalmente irracional. Visualizaremos melhor esta ideia com um primeiro exemplo.

Uma mulher reclamava continuamente, para seus parentes e amigos, da sua vida infeliz com o namorado alcoólatra e fracassado. Após 10 anos fora, seu ex-namorado de adolescência voltou para a cidade. Ele tinha se tornado um profissional bem-sucedido e ao reencontrar sua antiga paixão a pede em casamento. A mulher, feliz pela possibilidade de sair do seu pequeno inferno, aceita. Um dia antes do casamento o namorado alcoólatra implora para voltar com ele, promete que vai mudar. A mulher cedeu e deixou o noivo esperando da igreja. Depois desse episódio ela nunca mais reclamou do namorado. A pesar de continuar sofrendo das agressões do alcoólatra e das dificuldades pela falta de dinheiro, parecia que viva mais feliz.

Esta história serve para ilustrar a nossa necessidade de ser coerentes e como para satisfazê-la, estamos dispostos a mudar nossa leitura da realidade. A realidade da mulher acima não mudou, mas eis que surge um duende no seu pensamento que a fez mudar a forma como interpretava os fatos, para poder ser coerente com a decisão que havia tomado. O mesmo pode nos acontecer ao comprar um produto. Antes de compra-o temos muitas dúvidas, mas após da compra as dúvidas desaparecem, não porque tenhamos mais informações, mas para ser coerentes com a nossa decisão.

Outro duende muito comum é o da normalidade. Ele acontece quando ignoramos os fatos para justificar que tudo continua igual. Quando o Titanic bateu no iceberg a primeira reação foi acelerar o navio, querendo acreditar que não haviam problemas. Um dia antes do lançamento do ônibus espacial Challenger, os alertas dos engenheiros sobre possíveis riscos foram minimizados, acreditando que nada aconteceria. De nada serviram os elaborados processos de gestão de riscos, pois em ambos casos a influência dos duendes no pensamento levaram a decisões catastróficas.

O duende da confirmação é um companheiro habitual do duende da normalidade. Ele nos faz descartar todos os fatos que contradizem nossa opinião ou nosso desejo. Um exemplo acontece quando um time de futebol, contrário ao nosso, é favorecido por um erro de arbitragem, se reclama de forma incisiva desse erro. Mas quando é o nosso time o favorecido pelo erro, simplesmente ignoramos o fato e usamos qualquer argumento para encobri-lo. Votlando ao caso da mulher, ela passou a ignorar os fatos que antes eram motivo de reclamação constante.

As histórias do mundo corporativo relatam muitas iniciativas que se arrastaram ao longo dos anos, corrigindo os problemas que nunca paravam de surgir, pela necessidade de ser coerentes com decisões anteriores. Em alguns casos, somente se interromperam quando se fez impossível continuar prolongando o prejuízo. Em todos esses casos, duendes de confirmação, de normalidade e muitos outros, construíram argumentos, aparentemente racionais, para insistir no erro. Estes duendes estão entre os fatores que propiciam as “101 causas frequentes de falha ©“ nos projetos, descritas no livro “Murphy on Projects”.

O processo de escolher os dados, interpretá-los e tirar conclusões é muito delicado, tudo acontece muito rapidamente em nossa mente. Podemos não perceber que estamos filtrando dados e que essa seleção é influenciada pelas crenças, pressupostos, preconceitos herdados e até por experiências da infância. Sem perceber, podemos obter conclusões erradas, acreditando que estamos nos baseando em fatos, mas na verdade, estas conclusões dizem mais sobre nós do que sobre os fatos em questão. Os duendes da nossa mente, ou vieses cognitvos, entre outros processos mentais, são exemplos das patologias para as quais o lideres precisam estar preparados, desenvolvendo competências gerenciais que lhes permitam influenciar estas percepções e direcionar as ações pelo melhor caminho.

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