Como o perfeccionismo destruiu meu primeiro empreendimento

Muito longe de uma qualidade disfarçada de defeito, o perfeccionismo é um lugar quente e confortável onde as realizações permanecem perfeitas e irretocáveis no campo das idéias

Durante toda a minha infância e parte da adolescência, as minhas duas atividades preferidas – e nas quais eu gastei muito tempo – foram jogar futebol e desenhar. Eu podia passar um dia inteiro jogando bola - nessa época o meu físico ainda permitia essas loucuras. Com o desenho era parecido, o dia passava voando enquanto eu desenhava e divagava.

Com as duas atividades aprendi coisas importantes. Jogar futebol me ensinou que não se abandona a partida antes do final, e isso vale pra tudo na vida, me mostrou quanto o trabalho em equipe pode te levar além do que você poderia ir sozinho e, a principal lição, saber perder. Perder feio, ser humilhado e continuar jogando sem perder a classe. Desenhar me ensinou a ser observador, exigente e, com o tempo, a ser paciente.

Como na minha casa ser jogador de futebol nunca foi uma possibilidade, a primeira profissão que escolhi como “resposta” para quando me perguntassem o que eu gostaria de ser quando crescer foi desenhista. Primeiramente meus desenhos eram feitos pra enfeitar as cartas que escrevia pra meu pai e minha mãe. Eu escrevia essas cartas sem nenhum motivo especial e geralmente elas eram declarações de afeto e gratidão. Depois de um tempo parei de escrever as cartas, mas os desenhos continuaram. Passei dos corações para casas e paisagens. Mais um pouco de tempo e eu estava desenhando alguns personagens da Disney até que então cheguei nos Pokémons.

Foi aí que tive minha primeira ideia de empreendimento: eu criaria minha própria história em quadrinhos! Nessa época eu estava com 10 ou 11 anos e os planos eram bem inocentes: eu distribuiria a revista no meu colégio e cobraria um valor simbólico, embora, pra falar a verdade, o dinheiro não fizesse a menor diferença na minha motivação de empreender.

A história central surgiu em minha cabeça e eu comecei a desenhar os personagens. Na verdade não era uma ideia lá muito original, era um espécie de Pokémon, mas com as minhas próprias criaturas. Comecei a rabiscar uma atrás da outra: antenas pra cá, asas pra lá, um olho a menos aqui, outro olho a mais em outro lugar e o time de criaturas começou a tomar forma. Comecei a definir as cores, os poderes e a personalidade de cada uma. Tudo bem encaminhado até que chegou a hora da história começar. Puta merda! Eu lembro como fiquei paralisado.

Uma coisa que não contei sobre meu estilo de desenhar é que eu não suportava errar o desenho e, por isso mesmo, só desenhava com lápis. Eu apagava e refazia alguns desenhos obsessivamente. Alguns tinham que ir pro lixo porque eu estragava o papel de tanto apagar. E lá estava eu, frente a frente com uma folha em branco e com a responsabilidade de fazer meu primeiro quadrinho. Desenhar os personagens estáticos era bem tranquilo, mas colocá-los no quadrinho em movimento levava a coisa para outro nível. Eu, que nunca tinha tomado um curso, cheio de planos perfeitos na cabeça e morrendo de medo de enfrentar a realidade, cheguei a uma conclusão inevitável: os desenhos não sairiam tão legais quanto eu tinha imaginado.

Eu entraria mais uma vez, mas com uma responsabilidade ainda maior, em um ciclo de aperfeiçoamento obsessivo e, como eu já sabia disso, antes de começar já estava completamente exausto e desanimado com a impossibilidade de fazer “o quadrinho perfeito que mudaria a história de meu colégio”. Deixei para o dia seguinte. No dia seguinte, deixei para o dia seguinte, mais alguns dias adiando e eu decidi que precisava fazer um curso de desenho. Hoje, aos 26 anos, nunca fiz nenhum curso de desenho e nunca tive minha própria história em quadrinhos.

Olhando pra trás, me arrependo. Sem amarguras, mas me arrependo mesmo. Seria muito bom ter tentado. Seria muito melhor ter fracassado um pouco mais na frente depois de ter tentado. Eu nem dei a chance para as pessoas opinarem sobre a qualidade dos meus desenhos. Eu, para não ter que sofrer a rejeição alheia, sabotei minha própria ideia. E foi assim que o perfeccionismo acabou com meu primeiro empreendimento.

Algumas pessoas tem a ideia errônea de que o perfeccionismo é uma qualidade fantasiada de defeito. Nas entrevistas para emprego é o campeão de popularidade entre os “pontos a melhorar” escolhidos para serem revelados para o avaliador. Mas a realidade é que o perfeccionismo é apenas um defeito, nada mais. Fazer as coisas bem feitas e com qualidade nada tem a ver com esse sabotador.

No final das contas, o perfeccionismo é um lugar quente e confortável onde as realizações permanecem perfeitas e irretocáveis no campo das idéias. Enquanto isso, tem gente testando, medindo e melhorando, colocando suas idéias para rodar sem a vaidade que atravanca o espírito empreendedor e conquistando o mundo.

Perdi de aprender muito por não ter tido coragem de colocar minha ideia para rodar. No meio do caminho poderiam ter surgido diversas oportunidades ou poderia ter sido um total fracasso. Ainda assim, seriam lições valiosas. Mas como fracassei até mesmo em fracassar, ainda deu pra aprender alguma coisa.

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