Como o cigarro que você deixou de fumar pode estar diretamente ligado ao fascínio por uma arquitetura de pequenas dimensões?

O encantamento com uma pequena casa, a queda no consumo de drogas, e o interesse pela vida dentro das cidades – estariam relacionados? Neste artigo, reforço a ideia de que um bom estrategista hoje é, acima de tudo, um observador muito perspicaz de como os tecidos sociais são formados

Sempre me dediquei a cruzar assuntos altamente abstratos, como filosofia e artes, com coisas bem práticas, como vendas, e marketing. Fiz a faculdade de Filosofia por interesse próprio, trabalhei na área comercial por vocação familiar. Fiz carreira na propaganda por obra do destino. Mas sempre me dediquei a analisar com profundidade os contextos em que estava atuando. Fiz mestrado, li muitos livros, dou muitas aulas. Fundei um instituto de pesquisas, porque sou fascinado pela observação direta de como o mundo funciona nos seus fundamentos.

O modelo de vida do século XX prometeu conforto, através da posse de muito objetos e acesso a inúmeros serviços. O templo desses estilos de vida era a casa do subúrbio, onde uma família americana podia ter espaço suficiente para tudo que acumulava.

As novas formas de vida, no entanto, estão sendo desenhadas em um ambiente de rede. E os arquitetos desse novo sistema preveem que o que precisamos deve estar disponível sempre, não importa onde estivermos, a qualquer momento. Isso exigirá muito menos envolvimento com a compra em si, e com a estocagem de bens. Os serviços deverão estar muito mais próximos de nós, em formatos muito mais convenientes. Ou seja, nesses contextos, ainda haveria propósito para uma grande casa?

Fica fácil entender o porquê do culto às casas de pequeno formato. E além da conexão abstrata, muitas pessoas estão de fato voltando para as cidades, e vivendo em espaços menores. Isso é muito evidente em grandes cidades da Europa e América do Norte. Estão se tornando raros os pavilhões abandonados, os bairros degradados. Nas cidades, serviços podem ganhar alta conveniência, os bens podem ser compartilhados, e os conteúdos já foram para a Nuvem.

Nessas regiões, jovens estão consumindo muito menos álcool. O consumo de cigarro despenca entre adolescentes americanos. Cocaína, da mesma forma, perde usuários. Pela Rede, é possível acessar o outro compartilhando conteúdos pessoais, conversando diretamente, editando os lugares onde se encontrar, ou reinventando o que fazer. Na Europa, discotecas estão fechando. Na Holanda, 38% das casas fecharam as portas entre 2001 e 2011. No Reino Unido, 48% dos "clubs" deixaram de existir, nesse mesmo período.

Acrescente a isso, a informação de que nos EUA a busca por carteiras de motorista pelas pessoas com menos de 20 anos de idade era de 65% em 1995. Em 2010, o mesmo número caiu para 45%. Na Europa, em todos os países, já são vendidas mais bicicletas que automóveis. E todas as grandes cidades estão trabalhando para se tornarem mais habitáveis, com menos poluição, menos automóveis, mais áreas verdes, e mais cultura e lazer. Não começa a ficar claro porque essas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo?

Seres humanos continuarão os mesmos, na sua essência. Mas a sociedade está mudando as posições da sua organização. Ter uma estratégia é entender os movimentos, e se posicionar corretamente junto ao fluxo. Observe os sinais, estude os sinais. Mas não esqueça que são apenas sinais. Para fazer bons negócios, descubra o que está no subterrâneo deles.

Fontes:

http://www.economist.com/news/europe/21685519-lights-are-going-out-night-clubs-all-over-europe-less-ecstatic

http://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/nationwide-trends

https://www.racv.com.au/wps/wcm/connect/8d05bf804f2e7e7b9addff79ddd7afa9/racv-young-adult-licensing-trends-and-travel-modes-report.pdf?MOD=AJPERES&CACHEID=8d05bf804f2e7e7b9addff79ddd7afa9

(Artigo publicado originalmente no Pulse).

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