Como nos tornamos aquilo que somos?

<i>Um breve mergulho em Nietzsche</i>

Temos a arte para não morrer pela verdade.
(Friederich Wilhelm Nietzsche)



O cenário: o quarto estava iluminado apenas pela luz tênue do abajur; no fundo,

Tristão e Isolda e outras obras de Wagner preenchiam a atmosfera como um antídoto positivo ao racionalismo moderno; ao meu lado, Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal, Ecce Homo, Acerca da Verdade e da Mentira e, até mesmo,

Quando Nietzche Chorou, permaneciam em fila, à espera de minha atenção. Foi assim que mergulhei em Nietzsche

: voltando no tempo, visitando a Prússia, a Alemanha e a Suíça, nas três últimas décadas do século XIX.

Nietzsche puxou o tapete sob mim. Fui fisgado pela sua tentativa de preparar a humanidade para um instante de suprema tomada de consciência. Vamos tomar a sua crítica à moral como ponto de partida.

Escolhi para mim a palavra imoralista como distintivo (...); orgulho-me de possuir essa palavra, que me distingue de toda a humanidade, declara em Ecce Homo, sua autobiografia. Nietzsche nos interpela com a idéia de que toda a nossa ordenação social foi construída sobre mentiras: Deus, alma, virtude, além, verdade, vida eterna.... Devemos compreender que a humanidade não segue um caminho reto. Fomos e somos - governados, até então, por falsas noções de valor, um instinto de negação, de degeneração, de décadence. Temos a ilusão de que estamos em boas mãos (as mãos de Deus, dos santos, dos sacerdotes, dos políticos), mas a nossa realidade é exatamente o oposto: estamos nas piores mãos, fomos governados pelos malogrados, os astutos-vingativos, os chamados santos, esses caluniadores do mundo e violadores do homem. A concepção de moral que nos rege a vida está (é) infectada. Devemos extirpar a parte degenerada, para que ela não contamine o todo. Porém, o sacerdote (ou o político) quer justamente o contrário: quer a degeneração de toda a humanidade, por isso conserva-se o que degenera - a ignorância - e este é o preço da dominação.

Nossas mentes estão entorpecidas pela ignorância desconhecemos nossa própria história; pouco ou nada sabemos sobre a experiência humana. As forças reativas triunfam. Sequer compreendemos o que significa agir (DELEUZE, s/d). À essa vitória das forças reativas e da vontade de negar, Nietzsche dá o nome de niilismo- o triunfo dos escravos. Os escravos (os fracos) triunfam não porque formariam em conjunto uma força maior que a dos fortes, mas porque, destes últimos, subtraem sua força triunfam pelo poder de seu contágio.

Nietzsche vira o mundo de cabeça para baixo. Não é a nobreza que domina; é a baixeza. E alerta: temos sempre de defender os fortes contra os fracos.

Ora, Deus está morto, declara Nietzsche. Trata-se da morte do Deus cristão e das concepções de bem e mal, e também da idéia de uma vida transcendental após a morte. O óbito de Deus é necessário, segundo Nietzsche, para que a ciência se liberte da moralidade, do cristianismo e da metafísica platônica que freqüentam suas entranhas. Porém, ressalta Deleuze, ainda não é o suficiente, porque o niilismo apenas muda de forma: a mesma vida reativa, a mesma escravatura, que triunfava à sombra dos valores divinos, agora triunfa pelos valores humanos. Precisamos ir além. Surge o último homem: tudo é vão, é preferível extinguirmo-nos passivamente! É preferível um nada de vontade do que uma vontade de nada!. E, para além do último homem, existe, ainda, o homem que quer morrer. É nesse ponto onde tudo está pronto para uma transmutação, que significa a inversão das relações afirmação-negação. Trata-se do niilismo vencido, mas vencido por ele próprio.

E Zaratustra nos traz boas novas: uma nova espécie de ser humano está por chegar: o super-homem (ou o "além-do-homem"), criador de seus próprios valores, avesso a qualquer transcendência, na posse integral de suas forças e fiel à sua vontade de potência, afirmada com plenitude como criadora de novos valores. Esse super-homem viverá conciliado com o seu corpo, com o incessante perecimento de tudo que existe e com o inevitável transcorrer do tempo (BOEIRA, 2002).

(Agora Strauss toca no fundo, entoando Also Sprach Zaratustra, o que me recorda um tema importantíssimo em Nietzsche: a música!)

Somente a partir do espírito da música é que compreendemos a alegria pelo aniquilamento do indivíduo. "Sem música, a vida seria um erro". É a arte e não a moral que se apresenta como a atividade propriamente metafísica do homem. Nietzsche nos brinda com a esperança da chegada de uma nova aurora do ser humano. Para o lugar da ciência como alvo supremo, se empurra a sabedoria, a qual, não iludida pelos sedutores desvios das ciências, volta-se com olhar fixo para a imagem conjunta do mundo, e com um sentimento simpático de amor (grifo meu), procura aprender nela o eterno sofrimento como sofrimento próprio.

Por fim, é no amor pela totalidade da experiência humana, o amor fati, que reside a fórmula de Nietzsche para a grandeza do homem: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo todo o idealismo é mendacidade ante o necessário mas amá-lo.




Bibliografia

BOEIRA, Nelson. Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
DELEUZE, Gilles. Nietzche. Lisboa: Edições 70, s/d.
NIETZSCHE, F. Obras Incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
_____________. O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
_____________. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret, 2005.
_____________. Para Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Martin Claret, 2004.
_____________. Acerca da Verdade e da Mentira e O Anticristo. São Paulo: Rideel, 2005.
_____________. Ecce Homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


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