China na rota do Barril

A petrodiplomacia da China é tema fundamental no debate geo-económico

A par do choque da ultrapassagem do patamar psicológico dos 50 dólares por barril em 1 de Outubro de 2004, a afirmação clara de uma diplomacia do ouro negro por parte da China é o outro facto geo-económico mais relevante dos últimos doze meses. As viagens políticas dos responsáveis de Beijing às traseiras dos próprios Estados Unidos procurando selar parcerias estratégicas com fornecedores de petróleo, gás e minerais (como os casos mais badalados da Venezuela ou agora com o Canadá) e algumas movimentações das companhias petrolíferas chinesas desmultiplicando-se em acordos de investimentos mútuos e tentativas de aquisição (como o caso falhado de compra da Unocal norte-americana nos petróleos ou da Noranda canadiana nos minérios), são sinais de que a geo-política chinesa passou a integrar uma componente muito activa de posicionamento nas rotas e fontes mundiais dos recursos naturais críticos.

O significado dessa viragem estratégica foi, agora, analisada num ensaio de David Zweig, o director do Centro de Relações Internacionais da China na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. O título é muito explícito: A caça global à energia por parte da China, e mereceu destaque na revista norte-americana Foreign Affairs, na edição de Setembro/Outubro. Zweig refere que a China está a atingir um limiar de alerta laranja: desde 2003 que passou a segundo maior consumidor mundial de petróleo, depois dos EUA, representando em Maio deste ano 8,1% do consumo mundial, e a terceiro importador líquido, depois dos EUA e do Japão. O factor de risco interno é o facto das importações líquidas de crude já serem 51% do consumo e as estimativas para daqui a 20 anos apontam que esse grau de dependência poderá chegar aos 77%, ultrapassando o norte-americano e aproximando-se do nível dramático japonês. A dinâmica é, ainda, mais preocupante: nos últimos quatro anos, a China respondeu por 40% do aumento anual da procura mundial.


Geometria variável

Antes de ter de pôr as barbas de molho, Beijing procura acautelar uma diplomacia económica que lhe assegure o acesso às fontes dos recursos em geometria variável. Só até 2004, segundo dados do diário da cidade de Shenzhen (no sul da China), a China terá investido mais de 6 mil milhões em 58 projectos de petróleo e gás no estrangeiro.

O objectivo dos últimos anos tem sido diminuir a dependência global do Médio Oriente (que de 2003 para 2004 baixou de quase seis pontos percentuais) que rondava no final do ano passado os 45%, e a procura de mais abastecimento em zonas como o Cáspio russo ou Angola, no Atlântico Sul (ver quadro), como explica David Zweig. No mesmo sentido, ainda que sem resultados imediatos bombásticos, está a estratégia de abordagem da América Latina no entanto, a quota do crude importado do Brasil passou de 0,1% para 1,3% de 2003 para 2004 e do Canadá, particularmente o relacionamento com a estratégica província de Alberta (petróleo, gás e urânio). O presidente Hu Jintao acaba de visitar este país e de acordar uma parceria estratégica.

A China procura não desenvolver uma política de desafio directo à ordem actual, mas explora o que os seus estrategos já definiram como oportunidades de manobra, ainda que limitadas, derivadas da imagem actual dos EUA, como explicou, com toda a simplicidade, Wang Jisi, reitor da Escola de Estudos Internacionais de Beijing, autor de um ensaio de geo-estratégia publicado no muito oficial jornal (Zhongguo Dangzheng Ganbu Luntan) da Escola Central de Quadros do Partido Comunista Chinês. Esta movimentação poderá ser fonte de conflitos regionais pelo controlo de fontes de recursos ou ao longo de rotas logísticas, se não for «acomodada» pelas outras grande potências, reclama Jisi, ainda que a China não pretenda seguir uma política activa de mudança de regimes (como prosseguiu a URSS nos anos 1970 e 1980 e hoje abertamente a Administração norte-americana) e hesite ainda em avançar com uma estratégia naval global.

A petrodiplomacia chinesa tem usado três armas fundamentais: as parcerias estratégicas de Estado a Estado permutando investimentos e abrindo reciprocamente mercados; a estratégia de go global das petrolíferas chinesas procurando realizar aquisições cirúrgicas; e os próprios apoios públicos de Beijing a empresas chinesas que invistam numa lista de países e de recursos considerados críticos, definidos pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e de Reforma (na Web em http://en.ndrc.gov.ch), a antiga Comissão de Planeamento Estatal.







FACTOS

. China é desde 2003 o segundo maior consumidor de crude do mundo, depois dos EUA, tendo então ultrapassado o Japão; representa 8,1% do consumo mundial
. Passou a 3ª importador líquido de crude, depois dos EUA e Japão; importa 13% das importações mundiais liquidas de petróleo
. Já tem um grau de dependência das importações em 51% do que consome, contra 59% no caso dos EUA e 86% no caso do Japão; a previsão é que atinja os 77% em 2025








Geografia das importações de petróleo

Cinco principais fornecedores da China em 2004
(quota na importação em %)

Arábia Saudita 14
Omão 13,3
Angola 13,2
Irão 10,8
Rússia 8,8

Principais crescimentos de quota
(2003-2004, pontos percentuais ganhos)

Omão (2º fornecedor) 3,1
Rússia (5º fornecedor) 3
Angola (3º fornecedor) 2,1
Brasil (12º fornecedor) 1,2
Noruega (10º fornecedor) 0,6
Vietname (7º fornecedor) 0,5

Fonte: David Zweig



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