Chegou a Guerra Cognitiva

É uma espécie de ‘mão invisível’ das potências e dos lóbis mais fortes, um conceito criado por CHRISTIAN HARBULOT, um especialista francês fundador da Escola de Guerra Económica em Paris. A entrevista mais desenvolvida realizada em francês será publicada em Gurusonline.tv.

O campo de acção de dominação geoeconómica deslocou-se dos velhos métodos da «intelligence» económica, com a espionagem industrial e a recolha de informações secretas à mistura, para a «guerra cognitiva». Esta guerra de tipo novo junta uma série de ingredientes e personagens. Mistura a gestão do conhecimento com a arte dos «spindoctors» - os manipuladores de noticias e da imagem pública, artistas da nova contra-informação -, com as subtilezas dos responsáveis pela diplomacia económica aberta ou informal e com «a parte imersa do icebergue, o mundo opaco da finança», diz Christian Harbulot, 52 anos, o «pai» do conceito. É uma espécie de «mão invisível» das potências e dos lóbis mais fortes. É «o estádio supremo da inteligência económica, a expressão mais moderna da guerra prosseguida por outros meios, uma forma de guerra imaterial», como refere-nos este francês considerado o principal especialista europeu na matéria, que publicou recentemente A Mão Invisível das Potências. Os Europeus face à guerra económica e que se prepara para lançar em Janeiro uma obra colectiva sugestivamente intitulada Os caminhos da potência.

A variável «geo»

Esta mudança acompanhou outras mutações «estruturais». O teatro de operações é outro agora são a comunicação de influência, as ideias, os símbolos e o «lobbying» que fazem primeiro vítimas e vassalos. «Diferentemente das operações de propaganda ideológica que dominaram os grandes conflitos do século XX, agora a principal arma é o conhecimento. Trata-se de uma abordagem indirecta baseada na influência cognitiva», diz este licenciado em história. A nível das potências, o próprio campo de acção tende a mover-se da guerra no sentido da violência como continuação da política de potência ou de posicionamento para a geoeconomia, por efeito da «irrupção da China e em breve da Índia, uma emergência que está a modificar tanto a geografia das trocas internacionais como as próprias relações de força mundiais».


Harbulot não considera que este tema seja exclusivo dos militares e de alguns políticos, apesar do seu livro ter colocado ao rubro a discussão na elite francesa castrense e dos estudos estratégicos. «A variável geo tem de entrar na função da gestão, tem de sensibilizar a população mais estratégica, os meios patronais, que continuam fechados numa visão muito ideológica e doméstica das relações de força económico-sociais ou ingenuamente agarrados ao perímetro ocidental de frases feitas, sem antecipar as novas formas de relações de força geoeconómicas», sublinha o nosso interlocutor. Harbulot não vai ao ponto de sugerir a criação de um CGO (chief-geoconomic officer, responsável pela geoestratégia) no organigrama das empresas, mas fundou em Paris, com um general, a Escola de Guerra Económica, que funciona desde 1997, dirigida ao público empresarial.

O livro destina-se, também, a agitar «os políticos de curto prazo», para a necessidade de uma estratégia de potência dos seus países, sobretudo quando são grandes ou médios. «A construção da Europa é ainda muito lenta e carregada de incerteza para tornar caduca uma reflexão geoestratégica sobre o papel de potência de uma nação como a França», confessa Harbulot. Aos pequenos países, a geo é fundamental para «preservar a margem de manobra», aconselha.

5 Ideias-chave

. As grandes empresas europeias habituaram-se a um mercado mundial dominado pelo Ocidente. Esse contexto mudou.

. A dimensão geoeconómica retomou uma importância crescente na gestão

. Falta sensibilizar a população «mais estratégica», os empresários, muito agarrados a uma visão ideológica das relações de força económicas

. Os países que marcam pontos são os que conseguem desenvolver uma estratégia de potência geoeconómica para o médio e longo prazo

. O Estado-estratego não é uma tolice, quer se trate de diplomacia económica ou informal. Hoje isso é visível na geoestratégia dos recursos críticos (hoje o petróleo, amanhã a água)


CV rápido

Christian Harbulot
52 anos
Fundador e director da École de Guerre Économique, em Paris
Director da consultora Spin-Partners, em Paris
Editor do sítio Infoguerre.com
Na Web: www.ege.fr

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    Jorge Rodrigues

    Jorge Rodrigues

    Jorge Nascimento Rodrigues, português, nascido em 1952, editor na área de management, tecnologia, macroeconomia, geopolítica e história económica. Fundador e editor na Web de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv. Bloguer em http://geoscopio.tv. Colaborador do semanário português Expresso desde 1983. Coordenador da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (Indeg, Lisboa, e Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro). Coordenador Executivo da Editora Centro Atlântico. Autor. Pode ser contactado pelos emails: jnr@groupadventus.com e jnr@mail.telepac.pt
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    Ilustração: Jorge visto pelo traço de Paulo Buchinho, um dos ilustradores portugueses de renome internacional. Pode ser contactado através do seu portal www.paulobuchinho.com.

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