Charlie, Charlie - viu o marketing?

Uma simples brincadeira se tornou viral na web para promover com sucesso um filme de terror e mostra como uma jogada esperta pode se tornar uma grande campanha

Não é de hoje que o mundo do cinema vive de ondas e modismos. Tivemos a grande época dos musicais, dos dramas e das comédias e o gênero do terror, uns dos que mais sofre altos e baixos na qualidade de suas produções, faz várias tentativas de produzir novos sucessos todos os anos na esteira dos clássicos O Exorcista, Poltergeist, O Bebê de Rosemary, O Albergue, Jogos Mortais e por aí vai.

Com tantas produções se repetindo quase a exaustão, tanto que chegamos a confundir alguns filmes se não conhecermos bem as diferenças entre eles, como foi a onda de filmes de exorcismo que apareceram um depois do outro. Sendo assim, como fazer para atrair a atenção das pessoas para um conceito que não é inédito, um filme de terror estilo ‘found footage’, ou filmes perdidos traduzindo para o português? Simples: Pegue o conceito do filme, transforme em uma brincadeira ou dê a ela um fundo de verdade e jogue na internet. Se colar, BUM, ele se torna viral e em pouco tempo a expectativa sobre a produção será enorme!

Assim foi feito com o filme A Forca que estréia em 30 de julho de 2015. A premissa é básica, um grupo de jovens tenta reencenar as circunstâncias que causaram a morte de um ator em uma peça de escola 20 anos atrás despertando a ira assassina de um espírito, daí a brincadeira do ‘Charlie, Charlie’ que rendeu dezenas de vídeos na internet, vários tentando desvendar o mistério por trás do espírito, alguns levando o assunto na total brincadeira, outros querendo tratar o assunto com seriedade correndo atrás da lenda que originou o jogo de espíritos, porém todos contribuíram para o objetivo principal: a promoção do filme que leva todo jeito de ser mais um no estilo ‘Atividade Paranormal’.

Porém situações assim para promover uma produção de filmes de terror não é uma novidade, temos o exemplo de A Bruxa de Blair, um pretenso documentário que pretendia mostrar o que aconteceu a um grupo de três jovens que se perderam em uma floresta em busca da lenda de uma bruxa que viveu ali, o material gravado deles foi encontrado um ano depois e a verdade descoberta. A campanha fez com que as pessoas na época pensassem que o material era real e o que aconteceu com os três jovens foi verídico, até uma reportagem na revista VEJA deu um tom de realidade a jogada de marketing e funcionou às mil maravilhas: com um orçamento na faixa de 30 mil dólares e gerando uma receita de quase 250 milhões de dólares, sucesso absoluto para um projeto cuja campanha de marketing foi basicamente um jogo de boatos e notícias supostamente reais. E ainda tem quem sustente que a lenda existe e a Bruxa é real.

Mas se voltarmos um pouco no tempo, descobrimos que outra produção famosa e referência eterna em filmes de terror e suspense também usou de um marketing genial e misterioso para se promover com enorme sucesso: Psicose de Alfred Hitchcock. O genial diretor estava finalizando seu filme, considerado por quase todos como sua obra prima, quando esbarrou na temeridade da censura e na desconfiança dos executivos do estúdio quanto ao sucesso da produção, mesmo sendo uma produção de Alfred Hitchcock, pois ele se cercou de garantias do estúdio para preservar o sigilo da produção afim de não estragar a surpresa, não entregar o segredo por trás do Motel Bates e da trágica história de Norman Bates e sua mãe, dentre as quais a famosa e imortal cena do assassinato no chuveiro. Se Alfred exigia tanto sigilo e cuidado, como fazer a promoção do filme? Com um golpe publicitário genial. Hitchcock criou um manual para exibição de Psicose, os gerentes dos cinemas foram instruídos a não permitirem que ninguém, ninguém mesmo, entrasse na sala de exibição após o inicio da sessão, alegando que a experiência de assistir o filme só poderia ser apreciada do começo ao fim, seguranças foram contratados para controlar bilheterias e multidões na entrada aos cinemas entre outras, chegando ao ponto de alto-falantes avisarem que o gerente foi instruído, sob ameaça de morte, a não admitir ninguém após o inicio do filme, até mesmo críticos famosos foram barrados porque a regra não tinha exceções. Tudo para elevar a aura de mistério e a curiosidade sobre o filme às alturas e funcionou. Psicose foi um imenso sucesso produzido com um orçamento apertadíssimo e controlado, ao custo de 800 mil dólares e arrecadou cerca de 60 milhões de dólares, uma soma incrível para os anos 60, época do seu lançamento.

O que tudo isso nos mostra é que um marketing simples, direto e que mexe com a curiosidade das pessoas muitas vezes é a melhor maneira de vender um produto que pode não ser uma novidade, pode não ser algo revolucionário, mas acaba ganhando uma nova perspectiva que atrai o sucesso e, às vezes, muito sucesso.

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