Cenas de Nudez

Quando criei meu blog, não imaginei que iria publicar cenas de nudez. Descobri agora que venho fazendo isso sistematicamente. Hoje vejo que quem publica se expõe, fica nu e até desnuda quem não publica. Antigamente o rei estava nu e não sabia. Hoje pessoas e empresas ficam peladas, saibam elas ou não.

Quando criei meu blog, não imaginei que iria publicar cenas de nudez. Descobri agora que venho fazendo isso sistematicamente. Hoje vejo que quem publica se expõe, fica nu e até desnuda quem não publica. Antigamente o rei estava nu e não sabia. Hoje pessoas e empresas ficam peladas, saibam elas ou não.


A matéria da edição 860 da revista EXAME é oportuna. "Blogs - SUA EMPRESA ESTÁ NUA - Os blogs podem ser uma ameaça ou uma grande oportunidade para seus negócios". Revela uma tendência que já vem se solidificando há anos e para a qual muita gente já acordou. Mas a maioria nem tanto. Hoje decidi enviar um e-mail para a revista, dizendo:



"Há alguns anos adotei para meus alunos de Administração e MBA o blog como exercício acadêmico. Cada um criou o seu, relacionado aos temas discutidos em classe, e hoje alguns agradecem pela visão que isso lhes deu. Tive até alunos chamados para entrevistas de emprego depois que seus blogs foram achados e impressionaram os empregadores. Por outro lado, infelizmente já encontrei empresas e instituições de ensino que bloqueiam o acesso a blogs em suas redes. Estão bloqueando o futuro."


A comunicação do futuro é a comunicação do passado - gente falando com gente com jeito de gente. Nada sofisticado, nada de mais, nada de menos. Pessoas costumam confiar em pessoas e os blogs oferecem isto.


- Oh! - exclamarão os mais reservados - Como confiar no que dizem nos blogs?!

Melhor não, ou pelo menos nem em tudo. Mas isso não altera seu poder e impacto. Em 2001 escrevi "O diário de Kaycee Nicole", sobre o blog de mesmo nome. Um diário falso, de uma menina inexistente e doente que morre na última mensagem, postada por uma criativa e mentirosa mãe. Ela comoveu milhares de pessoas descrevendo, na primeira pessoa, o dia-a-dia e a luta de uma adolescente contra o câncer.

De lá para cá milhões de blogs invadiram o espaço virtual, uns bons, outros úteis apenas para uma ou duas pessoas: a que escreve e, se existir, a que lê. Conheci uma mãe que só vê os filhos adolescentes de vez em quando, culpa da distância do trabalho. Eles não sabem, mas ela monitora suas andanças por seus blogs.

Neles fica sabendo aonde foram, com quem e o que fizeram, com direito a fotos tiradas com celular. No blog eles contam, para os amigos, o que jamais contariam para a mãe, leitora de carteirinha.

Todos os dias alguém descobre uma nova utilidade para os blogs. Quando fazia enfermagem na Unicamp, minha filha Lia Persona Hadley, autora de um livro também na forma de diário, desenvolveu um projeto com o título "O uso da linguagem escrita no processo do cuidar". Ela pesquisou os diferentes efeitos que o ato de escrever têm sobre a saúde e o bem-estar das pessoas.

"Pesquisas científicas têm demonstrado dados mais concretos sobre a eficácia do uso da linguagem escrita no processo terapêutico. O uso da escrita no cuidar possibilita ao cliente expressar melhor o que sente e o que pensa explorando o campo psicossocial. A enfermagem poderia estar apta para utilizar esse instrumento na sua prática." - escrevia Lia no prefácio.

Lá estão expressões utilizadas há anos até por quem não as conhece, "Poetry Therapy" (Terapia Poética), "Poetic Medicine" (Remédio Poético) e "Creative Righting", trocadilho com "writing", no sentido de reassumir o equilíbrio de forma criativa por meio da escrita. Práticas seculares, que hoje podem ter seus efeitos potencializados pela ferramenta blog de publicação instantânea.

Em minha crônica "Blogterapia", escrevi: "Se existisse a Internet, Anne Frank teria escrito um blog. A terapia seria a mesma, mas ela teria, em suas informais mãos, o quarto poder da informação. As mesmas palavras que curavam seus medos e receios seriam sussurradas on-line em tempo real. Viajariam à velocidade do pensamento por arames nada farpados. Se não pudesse deter a crueldade, ao menos ajudaria a pensar as feridas isoladas de muitas Annes."

Naquela crônica eu revelava a criação, em 2001, de meu blog "The Tora-Bora Manuscripts", escrito em inglês sob o pseudônimo de Ali Kilabah, para aliviar o estresse durante as madrugadas. O remédio fez bem enquanto durou.

Os blogs continuarão desnudando almas. Todos os dias milhões de pessoas, despudoradas, irão escancarar para quem quiser ler coisas que não diriam a um terapeuta qualquer. Como faço em meus diferentes blogs, criados em diferentes momentos, para diferentes estados de ânimo e vontades de expressão. Como um atleta que precisa se exercitar, escrevo nem que seja apenas para manter o tônus das letras, a circulação das frases e o fôlego da narrativa.

Quando não estou falando de marketing em meu "CAFE", você me encontra extasiado visitando a galeria do Pintor em Minha Janela ou contando o que fazia no Afeganistão após o 11 de setembro, procurando pelos "The Tora-Bora Manuscripts". Ou me acha no "Quero Contar...", tentando enxergar como a vida é vista pelos olhos cegos de meu filho e viajando nas rodas da cadeira de um portador de deficiências.

Sim, nos blogs posso me despir e me vestir à vontade, e me sinto bem. Nu ou vestido, ruborizado ou não. Acho melhor assim. Que o rei saiba que está nu antes que outros precisem avisá-lo.


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