Caso Uber e sua importância na mudança do pensamento brasileiro

Sem dúvidas, há muita coisa à ser mudada no Brasil. A batalha é árdua e longínqua, mas creio que já esteja em curso. O caso Uber é mais um importante passo neste sentido. Não acredita? Confira

Recentemente, ao abrir jornais ou assistir TV, contemplamos mais algum episódio sobre o embate entre taxistas e Uber, podendo, em alguns casos, verificar atos violentos, de sequestro, agressões, vandalismos contra motoristas do Uber, por taxistas motivados pelas comitivas que sofrerão grandes prejuízos, acontecimentos estes que tem revoltado boa parte da população. Vejo este entrechoque com algumas expectativas extremamente positivas.

Pode-se verificar, no mundo como um todo, uma reversão do pensamento social/econômico, acanhado ainda, é verdade, más ávido, a começar pela incapacidade do pensamento mainstream em explicar a crise de 2008. Assim, as explicações da escola Austríaca, excluída do pensamento dominante por uma questão metodológica, têm sido resgatadas por sua grande capacidade explicativa dos ciclos recorrentes.

Tais alterações nos padrões de pensamento já estavam, há alguns anos, afetando o pensamento da sociedade brasileira. Tanto é que, ultimamente, diversos institutos que visam passar esse conhecimento, até então negligenciado pela academia, tem feito verdadeiras revoluções no senso crítico da sociedade, como o IMB (Instituto Mises Brasil), novamente levantando um questionamento bastante pertinente: o excesso do aparato estatal, em especial no Brasil, é benéfico?

A estrutura econômica/social do Brasil é extremamente regulamentada e protecionista. Todas as atividades a se executar detém de regulamentos pesados que encarecem a prestação de serviço, como os custosos alvarás dos taxistas. Este excesso de regulamentação, que gera burocracia, somado ao custo imputado por esses, acaba por fazer com que os setores diversos tenham pouca concorrência – não por acaso, já que muito desses setores estão interligados à política brasileira, pagando a restrição à concorrência com apoio político e financiamento de campanha, quando não, propinas. Esta pesada estrutura transfere o custo para a população, através de altos preços, somada à péssima qualidade no serviço prestado, já que o cliente não tem outras opções, acomodando os prestadores de serviço.

Contudo, é importante notar o potencial que tem o caso Uber à perpetuar um possível processo de mudança. A explosão tecnológica dos últimos anos tem driblado regulamentos estatais em diversos países, inclusive no Brasil. Em um primeiro momento, tem revoltado algumas empresas acostumadas com um mercado de ganho fácil, sem concorrência, e também causado certa estranheza aos brasileiros, cuja cultura é a de achar que excesso de Estado e regulamentações são primordiais para a segurança. Entretanto, o desencadear dessa história poderá gerar uma reviravolta. Com a crescente tecnologica, foi nos colocado a disposição serviços de extrema qualidade a preços muito baixos, isto quando não, gratuitos. Tem acontecido com, por exemplo, o WhatsApp, aumentando a conectividade e tornando desnecessário o excesso de ligações, também como a Netflix, cuja assinatura é de baixo custo e deixa a disposição filmes e séries que antes só eram possíveis de serem assistidos nas TVs por assinatura, além do emblemático Uber, disponibilizando serviço cômodo, de qualidade e baixo preço.

Entretanto, como já dito, o Uber, por sua proposta arrojada, não foi bem visto pelo setor de transporte, causando grande revolta. Qual a importância deste fato? Os questionamentos acerca desta empresa fez com que outras empresas se incomodassem, também, com esta “competição desleal”. A Telefónica/Vivo, recentemente, tem se manifestado em relação ao “risco” da falta de regulamentação sobre o WhatsApp – que vem conquistando seu mercado – à ser usado para veicular informações perigosas, auxiliando, por exemplo, a troca de mensagens entre facções criminosas. Trata-se da velha mania de culpar o mensageiro e não a mensagem. Nesta mesma linha, as empresas de TV a cabo reclamam da irregularidade e da “pirataria” praticada pelo Netflix. Mas aqui há uma importante diferença em relação ao Uber, as pessoas já se habituaram à prestação destes serviços sem regulamentação, já há a percepção do quão benéfico é a ausência de regulamentação no custo de tais serviços e, assim sendo, no aumento de concorrência que eleva a qualidade do serviço. Se o Estado vir a acatar, de fato, a proibição do Uber, dará um grande tiro no próprio pé, pois a pressão sobre estes outros serviços citados aumentará, fazendo com que, possivelmente, o Estado tenha que seguir nesta mesma lógica, regulamentando e encarecendo – em muitos casos tornando inviável – a prestação desse serviço.

Não tenho dúvidas que, se porventura isso venha a acontecer, será alvo de grande revolta popular, já habituada com esses serviços. Haverá então a materialização daquilo que sempre teorizamos por aqui, ou seja, poderá se verificar os malefícios do excesso de regulamentação na prática e de forma clara. Mas, e se o Estado deixar que o Uber opere livremente? Ótimo, pois fortalecerá a tendência à revolução tecnológica, aos serviços desregulamentados e baratos. Ambas as alternativas nos levam ao mesmo resultado por caminhos diferentes.

Obviamente, tal mudança ainda é embrionária, mas está em curso. A revolução tecnológica e aumento dos serviços prestados a baixo custo é apenas mais um passo dado nesta caminhada que já começou há algum tempo, como, no decorrer de nossa história recente, a resistência à aceitação de regimes de força que restringem nossas liberdades de escolha, podendo citar o período do regime militar – mesmo que haja, ainda, apoiadores que os defendam – tal como a percepção de que a estabilidade econômica pode gerar progresso e o excesso de intervenções geram esgotamentos e instabilidades (reforçado pelo peso dos ajustes fiscais no bolso do povo, reafirmando esta noção), entre outras mudanças já ocorridas. Sinto que, se transformássemos este processo de mudança aqui tratada em um ringue de luta, o pensamento de liberdade estaria para dar o golpe de misericórdia nos Estados burocráticos e protecionistas. Não sei quanto tempo levará para o nocaute, mas estou certo de que ele virá. Tenho motivos para estar otimista, e você?

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