Cartão mesada - essa é uma ideia boa?

Esta prática irá gerar mais danos do que benefícios, pois antes de “brincar” com a moeda virtual, a criança e os jovens precisam aprender a lidar com o dinheiro vivo. Entregar a uma criança ou um jovem o cartão de crédito sem educá-lo financeiramente seria algo parecido a presenteá-lo com moto sem ele ou ela aprender a andar de bicicleta. O risco de sofrer um acidente é muito grande

A versão digital do jornal “A Crítica de Campo Grande (www.acritica.net)” informa sobre uma parceria entre Visa, Brasil Pré-Pagos e Mauricio de Sousa Produções para lançar um cartão pré-pago: o Mesada Turma da Mônica para crianças e jovens. A justificativa é de que o “dinheiro virtual” (cartões de crédito e débito) é uma realidade e que, provavelmente, no futuro, será a única moeda e é bom de que eles comecem a serem “treinados” desde já.

O funcionamento deste cartão mesada parece bastante simples. Ele é recarregável e as quantias podem ser definidas a cada recarga ou agendada em uma data preestabelecida. Este cartão tem custos de emissão, de recarga, para fazer saques no caixa eletrônico, consulta de saldo no caixa eletrônico e por SMS. Além disso, ao ser utilizado no exterior, incidirá uma tarifa (percentual sobre cada operação no exterior) e o IOF.

Eu acredito que esta prática irá gerar mais danos do que benefícios, pois antes de “brincar” com a moeda virtual, a criança e os jovens precisam aprender a lidar com o dinheiro vivo. Entregar a uma criança ou um jovem o cartão de crédito sem educá-lo financeiramente seria algo parecido a presenteá-lo com moto sem ele ou ela aprender a andar de bicicleta. O risco de sofrer um acidente é muito grande.

Para chegar até o nível de abstração da moeda virtual, primeiro deve sentir/apalpar o que é ter uma quantidade de moedas ou notas. Poder contar o dinheiro e o que restou após uma compra é o início do processo para saber controlá-lo.

O dinheiro já é um conceito abstrato, pois as moedas ou o papel-moeda representam um valor, o poder para comprar alguma coisa. E, quando se fala de poder, é necessário saber controlar esse poder.

Uma lei da psicologia (de Lev Vygotsky, psicólogo bielo-russo, cuja obra influenciou grandemente a pedagogia contemporânea) fala que a consciência e o controle só aparecem num estágio relativamente tardio de desenvolvimento de uma função, depois de ter sido utilizada e praticada inconsciente e espontaneamente. Para submetermos uma função ao controle da inteligência e da vontade, temos que a dominar primeiro.

Seguindo os passos da metodologia DSOP de Educação Financeira, inicialmente a criança pode, brincando, conhecer os quatro pilares básicos: Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar, para depois colocá-los na prática.

A partir dos 7 anos de idade, é recomendável que a criança receba uma quantidade semanal ou mensal (semanada ou mesada) para administrar. Essa quantidade deve ser em dinheiro vivo (notas ou moedas). Assim, começará a conhecer o valor do dinheiro e aprenderá, gradativamente, a controlá-lo.

Também será importante mostrar-lhe que dinheiro não é só para gastar, também é um meio para realizar sonhos. Portanto, se guardar um pouco de todo esse dinheiro que passa pelas suas mãos, poderá realizar muitos sonhos.

Uma vez que a criança é educada financeiramente, domina e controla o dinheiro vivo, pode ser o momento para ela começar a treinar o uso do dinheiro virtual (cartão mesada) para, depois, aprender a controlar o cartão de crédito.

Todos os dias, chegam no meu escritório jovens que acabam de iniciar sua vida laboral e não sabem como fazer para resolver seus acidentes financeiros (endividamento). Às vezes, muito sérios (inadimplência, CPF negativado).

Controle e paciência são as bases da educação financeira. Queimar etapas e permitir que crianças façam uso de um poder que não sabem controlar pode contribuir a criar futuras gerações de endividados e consumistas.

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