Carta para a presidente

Estamos todos realmente insatisfeitos e preocupados com a atual situação que o nosso país atravessa, mas como diríamos isso diretamente à presidente?

Brasil, 2015.

À Presidente Dilma,

Sou um brasileiro, nascido no Rio de Janeiro há mais de quatro décadas, quando era criança o país saiu da ditadura militar para a democracia, fim da censura, fim dos exílios, liberdade de expressão, liberdade para caminhar nas ruas e falar sem medo, as eleições diretas se tornaram uma realidade, o país vibrava com as novas cores que ele ganhava. Com o fim do cinza da repressão vieram as cores da bandeira nacional a brilharem novamente no céu da nação, que agora os brasileiros se sentiam seguros em olhar para cima outra vez.

Mas a presidente sabe dessa diferença de ares melhor do que muitos nós, não é? Levantou-se, junto com outros rebeldes, contra essa repressão militar, foi presa e exilada, separada dos seus entes queridos por defender a liberdade de lutar pelos direitos de democracia e por questionar as duras imposições do controle militar naqueles anos cinzentos. Ganhou a liberdade após um período traumático de torturas e humilhações pouco tempo antes de eu nascer.

Fiquei orgulhoso quando eu tirei o título de eleitor, poderia participar de discussões políticas finalmente, escolher um lado a apoiar para trazer ventos de mudança para o país. Fui para as ruas juntamente com milhares de compatriotas para lutar pelas ‘Diretas Já’, dizer para uma diminuta e egoísta massa que pleiteava o controle do país que agora era a nossa vez, na música e nas artes entoavam as letras que exigiam a renovação. Não foi preciso ir a guerra, não foi preciso perder o sangue dos nossos jovens para defender nossos ideais, toda a discussão transcorreu dentro da paz, enfim dentro da democracia.

A presidente acompanhou com o país as idas e vindas da economia, a inflação e a dívida externa eram os nomes dos pesadelos que assolavam a vida dos brasileiros, fome e falta de crescimento econômico, planos e moedas surgiam para tentar conter, de modo mágico e matemático, a gangorra em que nos encontrávamos e como uma nação pode ficar tão perdida a ponto de nem saber qual seria a sua moeda? Ridicularizados e confusos, os brasileiros queriam mudança. Um rapaz simpático, bem formado e de fala bonita encantou os eleitores duelando contra um simples operário de formação humilde que ambicionava ser o nosso líder e subiu ao poder para botar a mão no nosso suado dinheiro economizado na poupança, mas bradamos ‘NÃO’ e fomos às ruas exigir que ele se retirasse, como um membro da nação, um compatriota poderia ter tomado tal atitude contra os seus semelhantes?

Enfim, a exemplo de um país europeu, elegemos um trabalhador como nós para o mais alto cargo: dirigente da nação, aquele mesmo que ignoramos no passado em favor de um líder com feições de galã e pose de herói como cantam os poemas gregos e que se revelou um ‘cavalo de Tróia’. Um proletário operário nascido nas mesmas faltas de condição que a maioria de nós, berço simples e com grandes ambições, levou os ideais de seu grupo para o controle do país e iniciou uma nova fase. Criticado e ridicularizado pelo mundo, nossas cores foram levadas para as mesas de negociação do estrangeiro, o país precisava de ajuda, a população não tinha mais fé, mas houve um alento quando anunciamos que a sede do monstro da dívida externa estava sendo aplacada, o país começou a dar mostras de que era um terreno fértil para se investir, uma terra aonde tudo que se planta, cresce.

E começamos a nos enxergar como potência, nação emergente, a população estava podendo comer melhor, morar melhor e comprar melhor, classes destituídas estavam partilhando da mesma mesa que as classes antigas e abastadas que sempre tiveram tudo do bom e do melhor a sua disposição, restando para nós somente o básico, e, até isso, estava ficando escasso. Problemas, claro, problemas sempre existem e não podem ser ignorados com medidas paliativas, afinal o crime, a fome e a violência não foram erradicadas, lugares extremos do país ainda estavam precisando de atenção, ainda estão, porque todos falamos a mesma língua, correto? Nascemos, produzimos e vivemos da mesma terra, usufruímos das mesmas belezas naturais, fomos abençoados com um país que não é assolado por catástrofes naturais que matam milhares no exterior.

Porém, havia chegado o momento em que o operário presidente precisava se retirar, passar o bastão do seu trabalho para a obra continuar. Apresentou ao povo alguém que passou por dificuldade, dor, perda e partilhou os mesmos ideais para manter o país no caminho necessário para continuar partilhando da mesma mesa, das mesmas decisões, dos grandes líderes mundiais, ele a indicou, nós a acolhemos, não todos, é claro. A grande maioria que, depois de tanto tempo sem ter do que se orgulhar, que se tornou emergente e alcançava mais e mais privilégios, depositou sua confiança na continuidade dessa missão em suas mãos.

O primeiro turno, ou primeiro ‘round’, mostrou que o trabalho poderia continuar, o país que avançava para os maiores, que elegeu um homem do povo, revolucionava novamente trazendo uma mulher para o controle da nação, prova dos novos tempos aonde o talento transcende sexo ou religião, o que importa é cumprir os objetivos. E, mesmo começando a exibir algumas falhas, apostamos novamente em uma segunda chance, só que menos pessoas do que da primeira vez, grande sinal de alerta! A sombra da inflação retornou para ameaçar nosso poder aquisitivo, antes enchíamos um carrinho no mercado com mais de 100, 200 reais e agora saio do mercado com duas sacolas pagando quase 80 reais, imenso sinal de perigo! A aprovação caiu, o desemprego subiu, antes quem apertava a mão agora quer empurrar ladeira abaixo. Como chegamos a isso? Historicamente sabemos que momentos de crise são uma constante, e que sempre após a tempestade, o Sol surge para dar esperanças de que os estragos serão consertados, nosso teto continuará sobre nossas cabeças e nossos filhos continuam estudando para formar a nova geração.

Assim, presidente, deixo uma questão: Estamos trabalhando em uma solução? Futuramente, poderemos olhar para trás e falar: ‘Que tempos difíceis passamos, ainda bem que se foram’? Não sou um cientista político, não sou um dono de empresas, sou um cidadão que se apóia naquilo que entende. A nação precisa da resposta, o povo merece a resposta, pois não somos responsáveis pela crise internacional, não deveríamos ter que sofrer pelos erros dos estrangeiros e, sim, nós deveríamos ensiná-los a não errarem mais. Pediu-nos paciência, certo? Mas antes demos algo muito maior: Fé!

Atenciosamente,

Giulianno de Lima Liberalli.

Um Eleitor Brasileiro Preocupado.

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