Capitalismo à brasileira
Capitalismo à brasileira

Capitalismo à brasileira

Livre mercado, só quando convém

Se você é um pequeno, médio ou grande empreendedor que trabalha duro, às vezes 30 horas por dia, paga seus impostos, honra suas contas, gera emprego e não acredita que mobilizar o estado em seu favor é a melhor maneira de “dar certo”, por favor, não se sinta ofendido com este artigo. Não me refiro a você. Mas existe algo que me incomoda profundamente e há algum tempo venho querendo escrever sobre: posar de empreendedor, defender o livre mercado, mas correr para a barra da saia do poder público quando entra em apuros ou, pior, quando simplesmente quer encontrar um caminho mais fácil para ter resultados mais rápido.

Não falo aqui simplesmente dos políticos que legislam em causa própria, dos que usam seus cargos para fechar contratos de suas próprias empresas com o poder público ou mesmo dos que transformam descaradamente o gabinete em balcão de negócios. Quero chamar atenção para alguns casos que chegam muito perto desses absurdos que listei acima – ou mesmo se imbricam com eles de uma maneira que não é mais possível ver diferença – mas têm características mais particulares que os institucionalizam ou fazem com que passem despercebidos.

Falemos sobre futebol

O Brasil tem, certamente, o maior público consumidor do produto “bola”. Tem tradição. Ganhou cinco Copas. Tem Pelé. Poucas figuras vendem no Brasil como as de jogadores (é só olhar como as imagens do próprio Rei, a de Neymar, Kaká, Ronaldo e outros são onipresentes na publicidade). Raí, que foi ídolo no São Paulo, mas parou de jogar há anos, é um dos garotos-propaganda mais populares do país ainda hoje. Quase todo brasileiro, assim que nasce, já ganha do pai um time de futebol para torcer. Geralmente, antes mesmo de lhe atribuírem uma religião, já dão uma camisa do Flamengo, Corinthians ou qualquer outro.

Com tudo isso, fica difícil entender como 99,99% dos clubes brasileiros estão endividados e, dos que pagam as contas em dia ou com menos atraso, a grande maioria o faz graças a verbas estatais. De um remendo no estádio (a grande maioria, no Brasil, é pública) aos salários dos jogadores (patrocínio, loteria esportiva, facilidades em financiamentos etc.), tudo tem dinheiro público. Nas divisões inferiores do Campeonato Brasileiro ou nos campeonatos estaduais de federações sem tradição, a coisa é muito pior. Os times são sustentados, basicamente, por incentivos fiscais e patrocínios de prefeituras e governos estaduais.

Ser jogador em um pequeno clube, a propósito, é algo bem longe do glamour que costuma atrair muitos jovens que têm o sonho de vestir camisas de tradição na Europa. A revista Placar fez, há alguns meses, uma bela reportagem em que mostra as péssimas condições de trabalho de atletas de pequenos times. Algumas situações não diferem em nada dos casos de trabalho escravo descobertos na indústria comum.

Falemos sobre obras

Aqui, mais que no futebol, a relação com o estado é ainda mais profunda. Se entre cartolas e governos a relação é algo que se aproxima do parasitismo, no mundo das obras as “parcerias” quase sempre são simbióticas. Ou seja, um depende do outro para viver. Os empreiteiros pagam a eleição, elegem deputados, que garantem prioridade aos “patrocinadores” nos contratos públicos, que dão dinheiro aos empreiteiros, que pagam a eleição e assim reiniciam o ciclo.

Mas não é só dentro do sistema corrupto que a dependência estatal impera. Praticamente todas as empreiteiras do país – corruptas ou honestas – dependem de contratos públicos. E justamente por isso algumas quebram. Ou porque não entram nos esquemas, ou porque não recebem em dia, ou porque projetos são abandonados etc.

Quando as coisas vão mal, o que fazer? Inovar para criar oportunidades? Batalhar por novos mercados? Não. Pedir uma reunião com o prefeito.

Falemos sobre livros

Nesse ponto, antes de começar a falar do problema em si, preciso destacar que reconheço que vender livros no Brasil não é fácil. Dito isso, faço mais uma observação: se quer vida mansa, procura outra coisa para fazer. É melhor do que dar o vexame de ser um porta-voz do livre mercado durante o dia e à noite articular uma interferência nele para garantir seus interesses e prejudicar os consumidores. É o que tem acontecido no mercado editorial brasileiro, que – articulado com parlamentares – vem tentando implementar no Brasil uma política de valor fixo para descontos, para enfrentar a concorrência da Amazon, que é extremamente agressiva. A justificativa é “proteger pequenas livrarias”.

Sinceramente, não tenho experiência no mercado editorial e seria leviano da minha parte fazer qualquer tipo de apontamento sobre como enfrentar a Amazon. Mas penso que, se há concorrência desleal, existem leis e organismos no país para tratar do assunto. Se a questão é meramente de falta de competitividade para enfrentar um concorrente mais forte, não sei se o protecionismo vai resolver alguma coisa. Na prática, o protecionismo do último século no Brasil só serviu para manter nosso mercado atrofiado, extremamente dependente da venda de commodities e sem desenvolver praticamente nenhuma inovação de grande impacto.

Você, empreendedor ou não, dê mais atenção a esse assunto. Quando os fracos resolvem empreender, No fim das contas, a conta vai ser paga do seu bolso.

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