CÁ, COM OS MEUS BOTÕES. LÁ, AOS BORBOTÕES.

Sou introvertido. Ao contrário do que você possa pensar, eu nunca sonhei com você, quase nunca vou ao cinema, não gosto de pagode e não vou a Ipanema, só gosto de chuva e não gosto de sol.

Sou introvertido. Ao contrário do que você possa pensar, eu nunca sonhei com você, quase nunca vou ao cinema, não gosto de pagode e não vou a Ipanema, só gosto de chuva e não gosto de sol. E se nunca telefonei, nem para a Lígia, é porque só ligo para alguém se tiver algo para resolver. Conversar ao telefone, nunca. Converso cá com os meus botões, mas não me isolo.

Talvez, por ter um temperamento assim, acabei criando uma rede imensa de relacionamentos virtuais, pessoas com as quais troco figurinhas há anos sem nunca ter sentido o seu hálito. Se cá converso com os meus botões, lá converso aos borbotões. E é dessa minha rede que vem a notícia de que meu quinto livro "Marketing de Gente" aparece em quinto lugar na lista dos mais vendidos em sua categoria na FNAC. Em quarto está o Philip Kotler. Mas a minha rede de relacionamentos não pára aí.


Minha rede nacional informa ainda que a última Você S.A. menciona meu livro em uma de suas páginas, enquanto a rede que mantenho com ramificações internacionais revela que uma crônica tirada de meu livro "Receitas de Grandes Negócios" enfeita o verso do cardápio de um restaurante brasileiro em Miami. E a sua rede, o que faz por você?

Redes de relacionamentos sempre existiram, mas agora a tecnologia amplificou sua ação. Quem souber tirar proveito delas tem muito a ganhar. Foi o que fez uma agência quando precisou de uma pesquisa entre consumidores do Tic-Tac azul, o filho extra-forte das pastilhas que chupo em minhas palestras. Como sei disso? Alguém de minha rede de relacionamentos me contou. Não o que chupo, mas o caso da pesquisa.

Após descartar os meios convencionais de pesquisa, pela dificuldade de arrebanhar rapidamente uma população de gente que chupa a pastilha azul sem engruvinhar o rosto, a agência inovou.

Onde encontrar um grupo que esteja dizendo aos quatro ventos "Eu amo Tic-Tac azul"? Se você respondeu "no Orkut", acertou.

Vi no Orkut mais de quinze comunidades reunindo pessoas que amam Tic-Tac em suas diferentes versões. É claro que todos ali conversam sem sentir o hálito, mas o precedente daquela agência em fazer pesquisas de opinião onde as redes de relacionamentos já estão reunidas por afinidade pode mudar muita coisa. Se ajudar a fabricar um Tic-Tac com gosto de Vick's Vapor Rub que chupei nos EUA, já me dou por satisfeito. Enquanto isso vou chupando o sabor laranja para
substituir.

Mas é claro que nada substitui o relacionamento ao vivo e em
cores, conversar de perto, cotovelos na mesa, olhos nos olhos, ouvindo o Tic-Tac do relógio no pulso do outro e podendo sentir se o hálito mente ou é menta. Mas alguns cuidados precisam ser tomados, principalmente na hora de conversar com quem tem Tic sem Tac.

Falo daquele que segura sua mão no começo da conversa e não larga até a hora de ir embora. Você deve conhecer alguém assim. Por favor, não diga que falei dele aqui. Mas que é chato é, ficar ali amarrado. Se a mão for daquelas úmidas e pegajosas, então...

Tem também o que fala perto e não chupa Tic-Tac. Sabe qual é, aquele que fica com o pára-choque dele colado ao seu. De quinze em quinze segundos você dá um passo para trás e ele dá um passo para frente. Em meia hora você percorreu um quarteirão, de costas e na pole position, com o sujeito colado no seu vácuo. Você deve conhecer alguém assim. Nem mencione que eu falei dele aqui.

E quando o Tic do sujeito é cutucar sua barriga? Tac! Aí é a morte de quem sofre de cócegas ou de hérnia no umbigo. Uma versão mais inquietante é aquela do que brinca com sua gravata ou com os botões de sua camisa. Conheci um cara assim, que só conversava comigo mexendo no botão de minha camisa. Acho que era uma espécie de insegurança do rapaz, que precisava segurar no botão para se sentir conectado.

Conhece? Ou será você o próprio? Se for, faz isso para se sentir seguro, para vencer a distância que o separa das pessoas, para criar um elo de contato... ou o quê exatamente? Sempre quis perguntar. Tenho ainda outra pergunta. O que pessoas como você fazem quando encontram alguém de camiseta? E mais, como teriam lidado com essa compulsão antes da invenção das calças com zíper.
Quer um conselho? Apenas converse com os botões.


ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.