Buzzard: o inimigo do corporativo
Buzzard: o inimigo do corporativo

Buzzard: o inimigo do corporativo

De diferentes maneiras, Buzzard consiste em uma esperta analogia sobre um sistema capitalista de insuficientes cheques e fundos

O cinema independente está repleto de adoráveis perdedores dos quais o público supostamente deveria rir, para em seguida ir para casa pensando "bom, pelo menos eu sou mais normal do que aquele cara". O que me incomoda nestes personagens, entretanto, é que eles não existem em um mundo com consequências ou emoção genuína. Ou seja, o mundo real. Eles soam como um cartoon exagerado, ou como a culminação de uma piada boba. Marty Jackitansky, o inesquecível "herói" deste Buzzard (EUA, 2014), filme escrito e dirigido por Joel Potrykus (da comédia indie Ape, 2012), não tem nada de desenho animado. Sob a esperta direção de Potrykus, e com uma impactante performance do esquisito e talentoso Joshua Burge, Marty transita do esquisito ao desesperado ao perigoso de maneira gradual e efetiva. Ele não é um personagem descartável, e muito menos esquecível.

Marty repele o corporativo. Na primeira cena do filme, ele solicita ao atendente de um banco o encerramento de sua conta bancária, e em seguida solicita ao mesmo atendente a abertura de uma nova, apenas para ganhar um bônus de 50 dólares dado a quem abrir uma conta no período. Eu mencionei que ele trabalha como temporário para o mesmo banco? Marty é o tipo de pessoa que pergunta o que significa "cortesia" quando solicita o serviço de quarto, e liga para o SAC que consta na embalagem dos alimentos congelados que consome, inventando defeitos no produto para assim ganhar outro de graça.

Além disso, Marty também tem o costume de solicitar todo tipo de material de escritório em nome do banco onde trabalha, apenas para em seguida devolvê-los à loja local e pegar um reembolso em dinheiro. Entretanto, Marty se supera em seus trambiques ilegais e se mete em uma enrascada quando decide endossar para si mesmo alguns cheques de pequeno valor que foram devolvidos ao banco devido à endereços incorretos dos respectivos clientes. Marty vive sozinho, sua alimentação resume-se praticamente a Hot Pockets e refrigerante, ele usa máscaras de monstros e ouve heavy-metal. Marty é o que podemos chamar de "jovem revoltado", ainda que nunca o cinema tenha retratado algum jovem rebelde desta forma.

A razão disso é que Burge e Potrykus estão dispostos a explorar drasticamente os escuros e trágicos limites de um personagem como este. Eles não apresentam apenas a rotina de um preguiçoso nato, mas sim a lenta erosão da sanidade que geralmente acompanha tal estilo de vida, e o filme acompanha a série de equívocos que segue o comportamento errático de um homem que pode ser delirante e definitivamente perigoso. Consequentemente, Buzzard pulsa uma incômoda vibração que revela o temor de que Marty está prestes a fazer algo muito ruim, ou a si mesmo, ou a alguém.

Burge está fenomenal aqui, entregando uma performance memorável. Sua abordagem a Marty não é a do típico folgadão cinematográfico, e passa longe do desapego cool e da ingênua apatia. Na realidade, Marty quer mais de um mundo que nunca lhe deu nada. De diferentes maneiras, Buzzard consiste em uma esperta analogia sobre um sistema capitalista de insuficientes cheques e fundos que permite que uma criatura como Marty flutue por sobre o resto da humanidade, procurando por algo, qualquer coisa, de que possa se alimentar.

Deste modo, fica fácil identificar a relação entre Marty e o atual momento sócio-econômico dos Estados Unidos. O filme é de 2014, época da gestão Obama, mas a ideia central do filme e seu desenrolar nunca foi tão atual. A sensação de abandono do protagonista encontra paralelo com o abandono da nação americana, cuja economia de sonho se transformou em um pesadelo de bolhas imobiliárias e desemprego recorde. O ódio de Marty com relação ao banco onde trabalha também funciona como uma analogia para o clima de guerra que se instaurou entre as instituições financeiras americanas e a população, que culpa os bancos pela falência econômica do país e seus habitantes. Para um filme indie de baixíssimo orçamento e mirrada distribuição, seu escopo de ataque realmente não é pequeno.

Há um segmento no meio de Buzzard, no qual Marty precisa se esconder no porão da casa de seu colega de trabalho, Derek (o próprio Potrykus), que soa um tanto esticado demais, e até um tanto deslocado narrativamente. O próprio Derek é excessivamente infantilizado, retratado como um garoto de 12 anos em roupas de adulto. Ele é obcecado por games e destila insultos adolescentes o tempo todo. Tal segmento é uma seção de Buzzard cômica demais, quando o que realmente funciona no filme é a maneira com que evita as piadas fáceis.

Contudo, Potrykus e Burge resgatam o filme em seu ato final, quando Marty acaba fugindo para Detroit com nada além de uma luva Nintendo perigosamente modificada e seus cheques fraudulentos. Há um senso de desespero aqui também. Para onde ele poderia ir? O que ele tem planejado? Tal sensação é notavelmente efetiva, até no nível emocional da coisa. Há uma cena fantástica em que Marty está falando com sua mãe ao telefone e mentindo sobre sua vida. Quando ele diz para a mãe que "todos realmente gostam de mim", e nós já sabemos que ele está totalmente sozinho no mundo, fica impossível não sentir pena dele.
Potrykus e Burge não pedem ao público em nenhum momento para necessariamente "gostar" de Martin, como tantos outros cineastas fazem em suas produções que trazem jovens revoltados. Mas ao tornar seu protagonista tão real e trágico, é impossível não querer agarrá-lo, sacudi-lo e procurar decifrá-lo. Diferente do que acontece com todos os outros adoráveis perdedores do cinema, o público não consegue simplesmente ir para casa e facilmente esquecer Marty Jackitansky.

Buzzard pode ser encontrado para download em alguns sites replicadores de streaming. Confira seu trailer:

ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.