Bill Cosby: como jogar 50 anos de carreira no lixo
Bill Cosby: como jogar 50 anos de carreira no lixo

Bill Cosby: como jogar 50 anos de carreira no lixo

Durante anos, o comediante tentou abafar as acusações de estupro e agora que confessou os crimes, ele precisa lidar com o fim da sua boa reputação

A sabedoria popular prega que o tempo tanto é curativo quanto transformador. Ele seria capaz de nos levar a lugares e ideias que jamais poderíamos prever. No entanto, não é o tempo o agente de mudança, são os fatos. Diante deles, algumas vezes, somos obrigados a nos despir de tudo em que acreditávamos sobre algo ou alguém. Neste caso, é alguém. Bill Cosby.

Desde 1960, a sociedade americana acompanha o comediante. Ele era considerado um ícone do entretenimento, foi um dos principais nomes do stand up antes mesmo que a palavra existisse nos teatros e recebeu diversos prêmios pelas séries de que participou. Na escala de sucesso que vai do zero à Walt Disney, Bill Cosby tinha uma estátua no parque mais famoso do mundo. Seus 50 anos de carreira pareciam inabaláveis. Até que surgiram 42 motivos para ela estremecer.

Esse é o número de mulheres que foram estupradas pelo artista. Cosby admitiu em tribunal que usou um remédio chamado Quaalude (sedativo e hipnótico também popular na década de 1970 como droga recreativa) para dopar e praticar sexo com mulheres inconscientes. Entre elas, Andrea Costand, funcionária da Universidade de Temple, que iniciou o processo contra Cosby.

Não é fácil processar alguém tão popular e com tão boa reputação. Antes da confissão do crime, Andrea foi acusada de ser mentirosa e aproveitadora. Entretanto, os fatos, mais uma vez, falaram mais alto que as crenças. Em 2005, Andrea foi até a casa de Cosby para conversar assuntos sobre a universidade, da qual ele é alma mater. Ele ofereceu a ela "pílulas naturais" para ansiedade (que, na verdade, eram Quaalude) e a estuprou. Na época, a polícia se recusou a prestar queixas contra Cosby e Constand o processou na justiça civil por 150 milhões de dólares. O caso atraiu outras mulheres que sofreram o mesmo tipo de violência.

"Eu lutei, pensando em como revelar o meu segredo, e o mais importante: o que as pessoas iriam falar ou pensar sobre isso? Será que eu seria vista como ‘a mulher que teve a intenção de arruinar a imagem de um dos ativistas mais respeitados do movimento negro dos Estados Unidos'? Ou será que eles me enxergariam como uma mulher honesta e se sentiriam traídos por um dos artistas mais poderosos, influentes e amados do país?”, afirmou Berverly Johnson, uma empresária que também foi abusada por Cosby - ele colocou remédios em seu café.

Bill Cosby conseguiu enterrar segredos durante anos, chegando a negociar com a mídia para que as mulheres que o acusavam não tivessem espaço e cedessem entrevistas, como aconteceu com Beth Ferrier (Cosby fez um acordo com um jornal americano para que a entrevista em que Ferrier o acusava fosse vetada).

Porém, crimes, especialmente estupros, não passam imunes. Embora a cultura da culpabilizar a vítima esteja mostrando suas garras e embora os crimes já tenham prescrito - dificilmente Cosby irá para a cadeia - sua carreira se deteriorou por completo. O especial de comédia que seria protagonizado por ele para o Netflix foi colocado na geladeira e a NBC cancelou seu último projeto, assim como suas apresentações no teatro. A estátua na Disney que marcava seu sucesso já foi retirada e, aos 77 anos, ele foi de protagonista a principal vilão de sua história.

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