Café com ADM
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Assim, nunca chegaremos lá...

Eng. Agr. Solon Cordeiro de Araujo sca@scaconsultoria.com.br www.scaconsultoria.com.br O crescimento do Brasil se dá por espasmos. Vez por outra, em função de planos governamentais (raramente) ou por conjunções de mercado favoráveis, alguma atividade econômica começa a se desenvolver no país, dura um determinado ciclo, geralmente curto, e depois morre, pelo menos como atividade econômica importante. Tanto que, no estudo da economia do país, se fala muito em ciclos: ciclo do café, da cana de açúcar, etc. Não há nenhuma atividade econômica de vulto que tenha sido fruto, ou pelo menos que tenha sido sustentada, por um planejamento estratégico. Não falamos aqui de planejamentos centralizados, elaborados por algum iluminado, mas sim de um plano desenvolvido pela sociedade, em um trabalho que empolgue o país e que seja cooptado por toda a nação. Recentemente acompanhamos a trajetória do agronegócio, que caiu rapidamente do paraíso ao inferno no espaço de pouco mais de um ano. Há menos de um ano a mídia publicava quase que diariamente notícias sobre o sucesso do agronegócio brasileiro, a expansão de área, o crescimento da produtividade, os novos ricos do campo. O Brasil tornou-se o maior exportador de soja, o maior de carne bovina, o segundo de carne de frango e assim por diante. Mas bastou um tremor para que se visse que o edifício foi construído sobre alicerces de areia. O Ministério da Agricultura, da Pecuária e do Abastecimento vinha alertando para as fragilidades de nossa estrutura de defesa sanitária. Mas a euforia tomava conta, olhava-se apenas o próprio umbigo e, de repente um foco de febre aftosa mostrou toda nossa fragilidade, toda nossa incapacidade de pensar estrategicamente, de conseguir consolidar uma estrutura para permitir um crescimento da exportação de carnes de forma sustentada ao longo do tempo. A duras penas o Brasil foi conquistando mercados externos para a carne bovina aqui produzida. A conquista de mercados externos se faz com dificuldade, aos poucos, ganhando credibilidade tanto no que diz respeito à qualidade do produto como à confiabilidade de entrega. Afinal, os países que importam alimentos de primeira necessidade precisam de plena garantia de que vai haver um abastecimento constante, pois é o abastecimento de comida, uma das necessidades básicas do ser humano, que está em jogo. E no mercado externo não existem anjos. É uma disputa feroz por espaço, valendo todo o tipo de negociação, às vezes não totalmente limpa, para se ganhar lugar em algum país. O Brasil exportava carne bovina para cerca de cem países, despontando como o grande abastecedor mundial deste produto. O foco de febre aftosa demonstrou que nossos alicerces para todo este esforço exportador eram frágeis, fragilíssimos. As explicações foram ainda mais desastradas, com nosso Presidente demonstrando desconhecer os rudimentos do mercado externo. A febre veio do Paraguai, veio de assentamentos, autoridades federais e estaduais discutindo de quem era a culpa, uma série de explicações totalmente desconexas mostraram a falta de articulação, de organização, de um projeto consistente para suportar o esforço produtivo. O Governo é rápido e voraz em arrecadar impostos, mas é por demais parcimonioso em investir o dinheiro em benefício do país. Hoje, cerca de 50 países, inclusive Angola, repito, inclusive Angola, embargaram a importação de carne do Brasil. E o que acontece nestes países? Sua população tornou-se vegetariana, esperando que o Brasil resolva seus problemas internos? Obviamente que não! A estas alturas já conseguiram outros fornecedores, estão recebendo carnes de diversos países e ofertas de outros tantos, ávidos para firmarem sua posição neste rentável mercado. Quantos anos para recuperar os mercados e, principalmente, a imagem? Muitos, muitos anos. E para complicar ainda mais nosso esforço exportador, mais uma pedra no caminho (e que pedra!): a greve dos fiscais sanitários. Sem entrar no mérito se a greve é justa ou não, os mercados de carne bovina remanescentes e mais os de carne suína e de frango, também correm o risco de serem perdidos. Toneladas e toneladas de carne estão paradas nos portos, os frigoríficos começam a diminuir seus abates por falta de inspeção, a cadeia toda vai desacelerando seu ritmo, com custos sociais enormes, desarticulando uma rede que gerava renda para um contingente humano de milhões de pessoas. Perde-se o mercado lá fora, destrói-se uma imagem, geram-se prejuízos incalculáveis para a sociedade. A carne suína, exportada para a Rússia e que vinha em um crescendo, tem data para chegar lá: antes do inverno, pois com o frio rigoroso, muitos portos deixam de funcionar no inverno. Ou se exporta nos próximos dias ou não se exporta mais. Infelizmente, enquanto o horizonte mais longínquo que nossos governantes conseguem enxergar é a próxima eleição, não haverá estratégias para o país. Qual o projeto exportador do país para os próximos dez anos? Fora do agronegócio, qual nosso projeto de educação? Quantos alunos teremos daqui a dez anos? Quantos professores, mestres, doutores, necessitaremos? Quantos pesquisadores em nanotecnologia, em bioinformática, em biotecnologia? Nenhum planejamento, sequer nenhuma noção do que queremos deste país. Desta forma, o que se vê são enormes desperdícios de recursos investidos em atividades sujeitas a desmonte rápido que, deixam um rastro de frustrações empresariais e pessoais, que desarticulam redes inteiras, que destroem corporações e pessoas. Que os episódios da febre aftosa e da greve dos fiscais, com todo seu cortejo de prejuízos, com o alto preço pago pela sociedade, sirva pelo menos de lição para nossos governantes, de todos os níveis, para que passem a pensar de forma mais ampla e abrangente, montando estratégias que façam com que a atividade econômica seja consistente, sólida, durável e segura.
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