Às voltas com a redação

No mundo empresarial moderno, escrever é uma necessidade diária. Mas o que fazer quando surge essa necessidade?

Antes de começar, é preciso dizer que o título se refere ao ato de redigir, e não à redação como gênero escolar. Combinado? Podemos passar adiante? Ótimo.
Dias atrás, dei de cara com uma crônica de Fernando Sabino, a saber, Precisa-se de um Escritor, publicada em 1983 no livro O Gato sou Eu, em que ele se via às voltas com um problema aparentemente pequeno, mas que veio a atingir grandes proporções e se desdobrou até virar assunto para se escrever. A coisa era a seguinte: a incapacidade de redigir um telegrama de pêsames. Diante das palavras Queira, receber, expressão, sentidos e pêsames, o escritor travava. Não conseguia, em hipótese alguma, combiná-las na forma de um texto minimamente decente e capaz de exprimir seu sincero pesar.


Não vai. Tenho de reconhecer que está acima da minha competência. No entanto, sou um escritor. Há anos e anos não faço outra coisa senão juntar palavras, e o resultado aí está: depois de toda uma vida dedicada à literatura, dezessete livros publicados, milhares de crônicas, contos, artigos, reportagens, comentários, notas, textos e roteiros, tenho de admitir a minha definitiva incapacidade de redigir um simples telegrama de pêsames. (1983: 180-181).

E quando todo mundo já estava prestes a meter o pau no coitado do cronista, ele vira e diz que um Prêmio Nobel, o colombiano Gabriel García Márquez, autor do imortal romance Cem Anos de Solidão (1967), sofria de problema idêntico. Márquez conta que não conseguiria escrever um telegrama de parabéns ou uma carta de pêsames sem passar mal do fígado durante uma semana. E Fernando Sabino relata um episódio engraçadíssimo em que o autor colombiano e outro escritor, o mexicano Luiz Alcoriza, se vêem desafiados pela cozinheira a escrever uma carta para o diretor da Previdência Social. Ambos passam umas três horas diante da máquina de escrever sem conseguir obter nenhum resultado concreto. Quando a cozinheira vai buscar a carta, os dois homens são obrigados a reconhecer que não conseguiram redigir o documento por pura e simples incapacidade. Eis que então a cozinheira diz: É fácil, (...) olhem só. E começou a improvisar a carta com tamanha precisão que Alcoriza mal podia acompanhá-la, batendo à máquina o que a mulher lhe ditava. (Idem: 184).


Agora eu pergunto: quem foi o gerente, secretária ou qualquer outra pessoa do corpo de funcionários de uma empresa que já não passou por apuros como os narrados acima? Já vi muita gente boa parada feito besta diante de um Cartão de Natal imaginando o que poderia colocar ali, naquele pedaço de papel tão pequeno. Isso sem falar nas famosas circulares, cujos assuntos são os locais de retirada das Cestas de Natal e a chácara onde será realizada a festa de confraternização de fim de ano.

É, escrever pode, em determinados momentos, parecer a mais horrível das tarefas, o mais terrível dos suplícios. Porém, ao mesmo tempo que pode assumir as feições de um verdadeiro Frankenstein, o ato de escrever é um desafio constante, em que cada vez que uma linha é redigida, uma parte desse desafio é vencida. Ora, ninguém está livre de um dia travar diante da folha em branco. Nem profissionais da palavra como Fernando Sabino ou Gabriel García Márquez escapam. Todo mundo tem alguma dificuldade para alguma coisa. Portanto, não conseguir escrever um Cartão, uma carta informando sobre a distribuição de Cestas de Natal e sobre a confraternização de fim de ano ou um e-mail com os votos de um 2005 pleno de realizações para todos os clientes e colaboradores não é algo tão ruim quanto parece. E, muito menos, acontece porque o redator é uma besta, um verdadeiro zero à esquerda. Acontece porque nós não nos sentimos estimulados a escrever esses tipos de texto. Por isso que quando temos de fazê-lo, sentimos calafrios de pavor. Então, temos de sempre ter em mente que a escrita, já disse isso, entretanto, quero que fique claro, é um desafio. Quanto mais escrevemos, mais o processo vai se consolidando, menos dificuldade vamos sentindo e, por fim, uma sensação nos invade: a de que as palavras vão saindo com uma naturalidade tão grande que chega a surpreender.
Contudo, não haverá motivos para pavor se a prática da escrita for algo constante. No frigir dos ovos, o processo fica de tal maneira automatizado, que temas como a falta de idéias ou a incapacidade de redigir este ou aquele texto acaba nos inspirando a escrever mais e mais, como Fernando Sabino em sua crônica. Em síntese, quando o ato de escrever é visto com humor e como algo prazeroso, vamos, meio que sem perceber, nos tornando um pouco profissionais, escrevendo tudo o que pedem, de Cartão de Natal a Memorando. Daí ficará faltando só bula de remédio. Se bem que se o solicitante do texto for um executivo de uma indústria de medicamentos...

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