Às vésperas da Copa do Mundo, um conflito entre razão e emoção

Às vésperas da Copa do Mundo eu me sinto dividido, como tantos milhões de brasileiros, entre a minha razão e a minha emoção

A minha razão diz que torcer pelo sucesso dessa Copa no Brasil é ser conivente com tanta corrupção, com tanto desvio de dinheiro e com tanta incompetência na gestão pública.
Enquanto isso a minha emoção grita: “Sim, você odeia essa corrupção, mas você ama o seu país e, confesse, você adora futebol”.
Minha razão diz que um fiasco na Copa pode ser uma esperança de mudança, onde esses verdadeiros bandidos sejam depostos pela vontade popular através do voto.
Diante disso, minha emoção se cala, afinal ela também não aguenta se sentir refém de um sistema de corrupção institucionalizada em todas as esferas do Poder Público.
Nesse ponto, minha razão se fortalece e grita um outro argumento: “Esse país é um verdadeiro celeiro de craques, mas precisa exportá-los para a Europa, pois temos um futebol mal administrado por cartolas incompetentes e corruptos, regidos por uma CBF que é o mais puro retrato dessa incompetência e dessa corrupção”.
Minha emoção, ainda calada, busca uma força lá no fundo da alma para tentar argumentar: “Tudo isso é verdade. Mas, a sensação de ver o Brasil campeão é algo por demais maravilhoso. Além disso, imagine “los Hermanos” levantando a Taça no Maracanã. Não, isso é muito doído”.
Por fim, minha razão, tenta dar o golpe de misericórdia e diz: “Não ter vivido guerras ou grandes conflitos, tornou-os um povo demasiadamente passivo. Aceitamos tudo sem questionar, sem brigar, sem lutar por nossos direitos e, tampouco, sem termos a devida consciência de nossos deveres. Sofrer, ainda que seja apenas a amargura de perder uma Copa em casa, será um amargo remédio que poderá melhorar um pouco dessa nossa letargia”.
Nessa hora, minha emoção apela: “Mas, nós já perdemos uma Copa em casa e ainda assim não aprendemos a lição. Não será isso que vai fazer a diferença”.
Diante dessas considerações, minha razão apenas dá um sorriso debochado, mas com um ar de compreensão. Afinal, por ser razão, ela sabe que isso não é um argumento, mas apenas um triste retrato da insana esperança desse povo que aprendeu a sofrer calado e que prefere acreditar no futuro em detrimento a transformar o presente.

E assim, fico eu. No meio desse conflito interno da minha mente.

Querendo tomar uma decisão. Sem saber se quero, de verdade, que o Brasil seja campeão ou que caia logo na primeira fase.

Talvez, o pior seja saber que, tal como tantos milhões de brasileiros, possivelmente essa escolha não será apenas baseada nas minhas crenças e valores, mas terá uma enorme influência da mídia.

Afinal, se a Rede Globo entrar com tudo (pois ainda não entrou) para que a Copa seja um sucesso, ficará realmente muito difícil, para nós brasileiros, reféns do comando da TV Plim Plim, ouvirmos a voz da razão.

Um bom exemplo desse conflito que boa parte do povo brasileiro vive diante da Copa foi magistralmente representado por uma frase que rodou no Facebook: “O Gigante acordou e está trocando figurinhas”, em alusão ao impacto exercido pelo álbum de figurinhas da Copa do Mundo.

Tudo isso apenas reforça os argumentos da razão.

Mas, por outro lado, recentemente ouvi um comentário de uma jornalista (infelizmente não lembro o nome) na CBN que me deixou com vontade de deixar a emoção falar mais alto.
Em síntese, ela disse:

“Somos um país apaixonado pelo futebol. É uma pena não nos divertirmos em uma Copa do Mundo que acontecerá na nossa casa.”

“Somos um povo hospitaleiro, que receberá os seus convidados. Será que podemos fazer como o casal que convida os amigos para jantar e ficam discutindo a relação na mesa?”
“Além disso, o Brasil é muito maior do que esses bandidos que estão assaltando o nosso país. Essa turminha vai passar, ainda que demore uma, duas ou três eleições, mas o Brasil não vai passar. Termos uma imagem forte diante do mundo não é uma imagem para esse governo, e sim uma imagem da nação.”

Muitos são os argumentos. De todos os lados. Mas, ao final, cada um deverá fazer a sua escolha.

Creio que o mais importante é, independentemente da decisão tomada, não fecharmos as nossas mentes para o momento complexo que vive o Brasil e de nossas responsabilidades pessoais e individuais para construir o país que queremos.

Assim, se decidirmos torcer pelo sucesso do Brasil na Copa, que esse seja um ato de amor que traga como consequência um maior compromisso pessoal com a busca de um país mais justo e não apenas uma demonstração de um falso, empobrecido e descomprometido patriotismo.

E, se decidirmos torcer pelo fracasso da nossa seleção, que esse também seja um ato de amor traduzido em ações concretas de luta por mudanças e que não seja apenas um singelo meio de protestar.

Boas escolhas!
Um forte e carinhoso abraço.

ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.