As quatro lições de empreendedorismo que o Seu Severino me ensinou

Seu Severino, um vendedor de picolé de Alagoas, poderia ensinar empreendedorismo nas universidades. Confira o que aprendi com ele sobre Empreendedorismo.

O empreendedorismo é uma revolução silenciosa, que será para o século XXI mais do que a Revolução Industrial foi para o século XX.

Jeffry Timmons

Hoje peço licença para falar sobre empreendedorismo de uma forma mais ampla e contar as quatro lições que aprendi com o Seu Severino.

Quem é Seu Severino? Você deve estar se perguntando. Contarei já, já.

Em férias na última semana, visite Alagoas e seu belo litoral. A partir da fronteira com Pernambuco, passei por Maragogi, Japaritinga, Ilha da Crôa, Tabuba, Sonho Verde, Paripueira, Maceió, Barra de São Miguel e Praia do Gunga. Um paraíso ao lado do outro. Como de praxe nas viagens que faço, sempre que possível eu procurava conversar com os habitantes locais – principalmente ouvi-los – e assim conhecer novas visões, angústias, esperanças, histórias e, com isso, melhorar a minha própria forma de encarar o mundo.

Chegamos à Praia de Barra Grande, em Maragogi, na manhã de quinta-feira, e estacionamos o carro alugado. O local – isolado e praticamente deserto – esconde uma natureza intocada que graças ao acesso nada tradicional recebe pouquíssimos visitantes. Estranhei que dentre as seis pessoas que vi ali estivesse um vendedor de picolés. E se você imaginou ser o Seu Severino, acertou.

Ao me aproximar dele, logo puxei assunto. Como sabemos, Alagoas é um estado muito pobre e que tem no turismo uma grande força econômica que ajuda a população litorânea.

Seu Severino reclamou do governo. Disse que as coisas não estavam fáceis e que se arrependia de ter votado na atual presidente. Ele nos contou que a conta de energia do último mês veio duplicada para todos os moradores de seu vilarejo e que a justificativa dada pela prestadora de serviços foi: “É isso mesmo, é a crise”. Quando perguntei o valor da conta, me espantei com a resposta: quase setecentos reais.

Ainda assustado, perguntei: “Como assim, Seu Severino? Setecentos reais?” Foi então que, com uma vergonha que logo se transformaria em orgulho, ele respondeu: “eu tenho um negocinho; trabalho para mim mesmo, e os freezers consomem muita energia”.

Aos poucos Seu Severino foi nos contando que vendia picolé há dezessete anos. Havia começado com uma caixa de isopor na cabeça que rendia dores até os dias de hoje, mas que aos poucos foi crescendo, crescendo até ter a sua própria fábrica de picolés.

À medida que o tempo passava, ele se mostrava mais à vontade com o assunto e com entusiasmo detalhava todo o funcionamento de seu empreendimento.

Começou abandonando o patrão, “que fazia um picolé ruim”, e pedindo para a própria esposa criar a receita e fabricar os novos picolés. Como o patrão não acompanhava a época das frutas locais – e os consumidores reclamavam disso – investiu em sabores exclusivos que atendessem a tal necessidade. Ela, "que lê melhor”, também ficou responsável pelo design das embalagens que eram de um material mais bonito e higiênico em relação ao do antigo patrão, “que era de papel”.

Tão logo começou a lucrar, Seu Severino disse que comprou a primeira máquina. “Esse foi o segredo”, já à vontade nos contou. Explicou que conseguiu triplicar a produção e com números detalhados e precisos nos mostrou o importante aumento de faturamento que junto aos custos contidos, e sem perder a qualidade, fez triplicar o lucro do negócio. O resultado era que a filha mais velha, casada, havia sido presenteada com outra máquina de picolés e agora empreendia, por estímulo e sob orientação de Seu Severino, em outras praias da região.

Durante nossa conversa, Seu Severino fez questão de que provássemos o picolé de Cajá. Ficou ofendidíssimo quando eu propus pagar para ajudá-lo. Mudou pela primeira vez a alegre expressão e falou que aquilo era uma cortesia. Não precisava de ajuda.

Quando, já ao final, tentei explicar a ele que eu era professor de Empreendedorismo e que contaria a sua história a alunos de ensino superior, perguntou-me o que era Empreendedorismo. Tentei explicar academicamente e, quando vi que aumentava o seu não entendimento, mudei o rumo e apenas disse: é isso que você faz para ganhar a vida. Ficou feliz, agradeceu duas vezes e pediu licença. Falou que iria vender picolés.

Seu Severino reafirmou três importantes lições sobre Empreendedorismo:

  1. Suas atitudes e valores são tão importantes quanto conhecimentos e habilidades. Competência se faz com os quatro fatores: conhecimentos, habilidades, atitudes e valores.

  2. Os números são fundamentais. O que Peter Drucker, o pai da Administração, popularizou na década de 80, Seu Severino descobriu no próprio dia a dia: não é possível administrar o que não se pode contar.

  3. A necessidade de um grupo de pessoas, confirmada em uma oportunidade, é o que guia a atividade empreendedora. É a partir dela que empreendedores podem propor produtos ou serviços que entreguem valor (nos negócios sociais o que guia a atividade empreendedora são problemas na sociedade).

No livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza, de uma forma magistral, original e científica, Steven Pinker ensina que um dos gatilhos do processo civilizador foi o comércio gentil. O comércio diminuiu guerras entre tribos, disputas militarizadas entre nações, e, portanto, atuou como indutor da redução da violência na humanidade.

Assim como ele, Yuval N. Harari, em sua obra Sapiens, também defende o papel civilizador do comércio e bem observa que “se não fosse pelos homens de negócios procurando ganhar dinheiro, Colombo não teria chegado à América [...] e Neil Armstrong jamais teria dado aquele pequeno passo na superfície da Lua”.

Além deles, Seu Severino nos ensinou uma quarta e última lição -- não por meio de livros, mas por meio de vida: empreender pode ser uma via de aprendizado, crescimento e liberdade para os membros de uma sociedade.

Se você for até essa praia, procure Seu Severino, compre um picolé e mande um abraço.

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