As pessoas não são investimento: por isso não espere dividendos

O seu apoio incondicional depende de suas expectativas atendidas? As pessoas não são como as empresas que têm que apresentar os resultados satisfatórios que você espera e as relações afetivas não são como transações financeiras em que só os dados importam

Outro dia, em uma conversa de senhores – essas em que as pessoas se sentam em volta de uma mesa, comem, bebem e se acham no direito de comentar a vida alheia livres de qualquer condenação – ouvi dizerem, indignados, sobre um jovem estudante de medicina que largara tudo para ser rapper.

Onde já se viu?! – comentou um.
Que falta de consideração com os pais! – comentou o outro!
É nessa hora que tem que deixar “neguinho” pagar o próprio sal para ver se dá valor na vida! – disse o primeiro.

Logo, eu os questionei sobre o real sentido de apoio: – Então quer dizer que os pais devem apoio incondicional ao filho DESDE QUE ele atenda às expectativas?

É claro que a resposta foi de poucas palavras e muita gagueira. De forma geral, as pessoas tendem a cobrar muito e entregar pouco: cobram atitudes que são incapazes de oferecer e se questionam o mínimo possível.

E se fosse você a ter sabido da história do rapper quase médico, o que você pensaria a respeito? O mesmo que esses dois senhores “gentis”?

Quando temos uma visão de sucesso baseada apenas no dinheiro e no status fica fácil recriminar a decisão do, agora, músico; fica fácil pensar que ele não vai ser feliz ou que está jogando suas oportunidades no lixo. Sucesso pode ter a ver com posição social pra você, mas será mesmo que é assim pra todo mundo?

Olhar os comportamentos e as decisões alheias sob sua própria visão de mundo é uma atitude automática que quase todos adotam. Esse julgamento é praticado o tempo todo, com vida de quem não se conhece, de quem se conhece pouco ou muito, na vida de quem se convive todos os dias. Se as pessoas soubessem o que essa atitude é capaz de gerar – eu diria que é um dos maiores geradores de conflitos que há – talvez haveria a busca por um comportamento com mais empatia (sim, isso significa ver com os olhos do outro, se colocar no lugar do outro, tentar sentir como o outro sente).

As pessoas não são como as empresas que têm que apresentar os resultados satisfatórios que você espera e as relações afetivas não são como transações financeiras em que só os dados importam. As pessoas nem sempre querem ser salvas do perigo, nem sempre elas querem ser alertadas, na maioria das vezes elas buscam por um olhar meigo e sincero, um pegar na mão carinhoso e um abraço apertado e desejam, do fundo de seus corações, ouvir: “você consegue, eu confio em você e estou aqui para te apoiar” (dito sinceramente, livre das suas expectativas).

O fato de querer que as pessoas que convivem com você se comportem da maneira que você acha correto é um tanto egoísta. Querer livrar as pessoas que você ama de todo e qualquer sofrimento é, de novo, egoísta. O sofrimento é vivenciado quando se tem experiências, e só se tem experiências quando se vive; quando se tem o direito e a liberdade de escolher o que se quer viver, quando se tem direito de errar e de tentar de novo, e de novo, até que se acerte, ou que nunca se acerte. Quem é que está contando?! Entenda: querer livrar da frustração é impedir de viver e o vazio de não vivenciar pode causar mais dor que o próprio sofrimento.

Por isso confie, relaxe e deixe acontecer, deixe a necessidade de controle de lado e se concentre em viver, em se doar. Sabe aquele papo de “relaxa e goza”?! Busque praticar, pode ser bom, pode ser muito bom! Sofrer faz parte e parar de sofrer com a possibilidade de sofrimento também. Pense (e pratique) nisso!

Postado originalmente no blog Quem Crescemos.

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