As lições de Jirau para o relacionamento das empresas com seus stakeholders

Há muito, muito tempo bato na tecla da importância das empresas manterem um bom relacionamento com seus stakeholders. Eles hoje têm uma grande capacidade de impactar um negócio, seja auxiliando as organizações em uma melhor gestão do negócio, seja devastando operações.

Falar que stakeholders podem prejudicar uma empresa a ponto de comprometer sua produção pode parecer um tanto quanto trágico e distante. Distante? Exemplos como Minas Talco e Escola Base estão aí para quem quiser medir a força desse pessoal. E nestes casos, eles sequer estavam certos. Mas e quando briga é justa?

Na semana passada uma bomba relógio explodiu na região norte do país. Uma revolta nos alojamentos da obra de Jirau (ocasionada pela agressão de um motorista a um operário) ocasionou em dezenas de ônibus incendiados, assim como toda a área de lazer, lavanderia, escritórios e caixas eletrônicos. O resultado? Obras paralisadas e uma debandada dos trabalhadores a seus estados de origem.

Mais do que uma simples briga entre funcionários, a rebelião expôs um problema ainda maior numa das principais obras do PAC e coloca em xeque as obras de Santo Antônio e Belo Monte. Com preços considerados irreais para o mercado de fornecimento de energia, o consórcio Energia Sustentável do Brasil, capitaneado pela Camargo Corrêa, venceu a licitação para a construção da usina de Jirau, próxima ao Rio Madeira, em Porto Velho.

Acontece que para oferecer preços muito baixos e ainda assim ser economicamente viável, o consórcio foi "obrigado" a enxugar despesas consideradas fundamentais, como não dispor de um grupo de interlocutores que fosse voz ativa entre consórcio e funcionários, ou seja, não havia relacionamento com stakeholders. Além disso, leis básicas da justiça do trabalho, como pagamento de horas extras, eram ignoradas.

Com 22 mil funcionários, sendo 2/3 de fora de Rondônia, o caso também expôs o despreparo com a bomba já explodida. Sem alojamento, os trabalhadores foram conduzidos a um ginásio do Sesi na região. Obviamente não havia lugar para todos e muitos tiveram de dormir em colchonetes do lado de fora. Isso sem contar as condições precárias de higiene do local. Há, ainda, relatos de que não havia alimentação na quinta-feira.

Obras paralisadas, denúncia do Ministério Público, justiça impondo um TAC e multa pesada no caso de descumprimento, grande parte dos funcionários voltando para seus estados de origem e uma Camargo Corrêa em silêncio. O prejuízo dessa revolta? Não tenho ideia. O ocorrido vai impactar o preço de venda da energia? Também não faço ideia.

O que eu sei é que a Camargo Correa parece não ter a menor noção e/ou não teve a menor preocupação em fazer uma boa gestão de stakeholders. O problema poderia ter sido evitado? Certamente. E provavelmente com um custo que não chegaria a 10% do prejuízo que ela vai ter com essa história.


Sou jornalista (com diploma), corredora de alto rendimento físico e baixo rendimento financeiro e diretora da Agência de Sustentabilidade, consultoria que trabalha a sustentabilidade na gestão de processos e tem foco em três segmentos: empresas, esporte e políticas públicas.

E-mail para contato: sustentabilidade@sustentabilidadecorporativa.com

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