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As atuais turbulências do agronegócio brasileiro

Solon C. de Araujo sca@scaconsultoria.com.br www.scaconsultoria.com.br Nestes últimos anos nos acostumamos a ver a atividade rural, e seus correlatos, como um mar de rosas. As revistas não especializadas mostravam reportagens sobre o vertiginoso crescimento do agronegócio brasileiro e do enriquecimento das pessoas com ele envolvidas, bem como o forte desenvolvimento das cidades que vivem ligadas basicamente à esta atividade. No final de 2004 e no início de 2005, entretanto, as notícias foram as mais decepcionantes: seca em algumas regiões do Brasil, baixa de preços dos principais produtos, inadimplência rondando o setor, pedidos de prorrogação de dívidas, grande baixa na aquisição de insumos. Estima-se uma perda de 10% na produção de milho, em relação a 2003, de 13% na soja e de 7% no feijão. Os preços também sofreram grandes alterações para baixo: o preço do arroz teve queda de 22%, do trigo 7% e da soja 25%. Somente o milho teve crescimento, de 6%. Isto significa alguns bilhões de Reais a menos na atividade econômica do campo e, como reflexo, na economia do país. A relação de troca, o verdadeiro referencial para indicar rentabilidade na agropecuária, também se deteriorou: em 2002 eram necessárias 4.972 sacas de soja para se comprar uma colheitadeira, em 2003, 6177 sacas e em 2004, 7.481. Para a aquisição de um trator de 75 CV, eram necessárias 2.793 sacas de milho em 2002, em 2003, 3.949 e em 2004, 4.408 (fonte: Carlos Sperotto CNA: audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados). Afinal, qual é o eixo do agronegócio brasileiro: uma atividade rentável, lucrativa ou o atual panorama, de baixa lucratividade, até mesmo de prejuízo? Qual face é a real, a bonita, risonha ou a feia, carrancuda, mostrada neste início de ano? Para responder a isto, devemos entender, em primeiro lugar o agronegócio como uma atividade sujeita a ciclos, alternando bons e maus momentos, ao longo dos anos. Esta alternância de anos bons e ruins tem sido histórica ao longo dos séculos. A própria Bíblia já menciona os anos de vacas magras. E estes ciclos, em uma economia globalizada, já não dependem apenas de fatores internos do país que se analisa. Um ano de boa colheita de soja nos Estados Unidos influencia negativamente o preço da soja no Brasil, influindo mais na rentabilidade da cultura do que fatores positivos em nosso país. Uma geada nas plantações de laranja da Flórida contribui decisivamente para ganhos do produtor de laranjas do interior de São Paulo. Assim, o agronegócio deve ser visto como uma atividade de longo prazo, sujeita a anos de ótima rentabilidade, anos de rentabilidade média e anos de prejuízos. Isto é inevitável e somente se for realmente encarado como atividade de longo prazo, poder-se-á fazer uma média e analisar sua atratividade como negócio. Se encararmos desta forma, como empreendimento ao longo dos anos, veremos que é uma atividade rentável, lucrativa, embora sem os exageros muitas vezes noticiados pela imprensa, que toma os casos de maior sucesso e passa a impressão que esta grande expansão é homogênea em todo o setor. Mas se não é possível retirar toda a imprevisibilidade do agronegócio, tornando-o imune aos riscos climáticos e comerciais, estes em grande parte ditados pela globalização, podem ser tomadas medidas que minimizem as variações, aumentando a lucratividade nos anos bons e minimizando os prejuízos nos anos de vacas magras. O uso das tecnologias disponíveis, com a condução de uma lavoura dentro de bons níveis nutricionais e o uso dos insumos que protegem as plantas contra pragas, doenças e plantas invasoras, é um dos fatores que aumentam a segurança do negócio. Também é importante que o agricultor ou pecuarista esteja acompanhando muito bem, por si próprio ou por consultores ou cooperativas, o andamento do mercado externo para cada um dos produtos plantados ou a serem plantados. O mercado externo é muito volátil e é necessário saber o momento certo de vender, em quais culturas investir mais, quais canais de comercialização usar. Enfim, o agronegócio, se entendido como uma atividade capitalista, que visa gerar lucro de forma sustentada ao longo dos anos, é um bom negócio, mas necessita ser gerido, tanto técnica como comercialmente, como aquilo que ela é: uma atividade tipicamente empresarial. 03/04/2005
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