Aruanas: uma história inspiradora sobre ética, propósito e sustentabilidade
Aruanas: uma história inspiradora sobre ética, propósito e sustentabilidade

Aruanas: uma história inspiradora sobre ética, propósito e sustentabilidade

Minissérie dramatiza o embate de uma pequena ONG idealista para desvendar crimes ambientais, massacre de índios e corrupção na Amazônia

A minissérie em cartaz na Globoplay, que teve seu episódio de estréia exibido na TV Globo em 04 de julho, é uma coprodução Globo - Maria Farinha Filmes e contou ainda com a parceria técnica do Greenpeace e apoio de algumas importantes ONGs como Oxfam Brasil, Anistia Internacional, WWF Brasil e Rainforest Foundation Norway e outras (Saiba mais em: Aruanas alerta sobre Amazonia). Lançada em mais de 150 países, em 11 idiomas, o thriller ambiental “Aruanas” tem um propósito claro: alertar para a crise ambiental mundial e valorizar e proteger o trabalho de ativistas. Mas eu acredito que ela vai além: ao falar de valores éticos como transparência, integridade, justiça, civismo, espírito de equipe e propósito, responsabilidade social e sustentabilidade empresarial, ele mexe na ferida das organizações brasileiras.

Com história inteligente, produção de qualidade mundial, exímia direção e interpretação de alta performance, sobretudo das protagonistas que dão título a série, “Aruanas” tem tudo para receber algumas indicações (e vencer) prêmios internacionais em home entertainment, como o Emmy Awards, por exemplo.

Estela Renner e Marcos Nisti, os criadores da série, com a colaboração de Pedro Barros, usam de maneira competente todos os elementos de storytelling para contar, em 10 episódios, a história da pequena equipe de ativistas da ONG Ariana, que decidem desvendar um caso de mortes por contaminação de ambiental e corrupção na fictícia cidade de Cari, AM, envolvendo desde uma empresa mineradora, fazendeiros, membros da polícia municipal, garimpeiros, prostitutas infantis, lobistas até políticos poderosos no governo federal, em Brasília, em um cenário de massacre de indígenas, mortes por contaminação de mercúrio e desmatamento ilegal na Amazônia.

Que lições a série nos ensina

A temática atual e urgente da minissérie, ganha importância no momento em que as questões ambientais do planeta, como desmatamento (uma das principais causas do aquecimento global), regulamentação de terras indígenas e assassinatos na Amazônia são notícias internacionais e que passam uma imagem negativa do Brasil. No mês de junho passado por exemplo, o Mundo soube que a área desmatada da Amazônia foi 88% maior do que no ano passado, sem ter os detalhar das condições em que isso foi feito (INPE).

A ONG fictícia Aruana – que em tupi quer dizer “sentinela da natureza” – gira em torno de quatro mulheres destemidas, determinadas e convictas em seus ideais: Natalie, a jornalista e fundadora da ONG, interpretada por Debora Falabella, a ativista Luiza (Leandra Leal), a advogada Veronica (Taís Araújo) e a novata estagiária Clara (Thainá Duarte). A equipe conta ainda com o coordenador Falcão, o analista André e o cara de TI, chamado de Ponto.com

As heroínas da história são personagens que servem para valorizar o trabalho dos defensores do meio ambiente, conhecidos como ativistas, que obstinadamente arriscam suas vidas, inclusive abrindo mão de seu bem-estar pessoal, em nome de justiça, igualdade e de um mundo mais sustentável para a sociedade e gerações futuras. Na trama, rica de situações e complexa, elas encontram diversas barreiras e obstáculos em sua luta, mas igualmente são ajudadas por aliados e apoiadores. Há drama, suspense e ação em uma técnica narrativa clássica bem engendrada entre o bem e o mal.

Embora seja ficcional, logo percebemos familiaridade com o que a série expõe. Infelizmente, estas questões fazem parte do noticiário da região amazônica e da realidade brasileira. O lado bom de vermos a série é que produtos de entretenimento deste porte podem servir de mais alerta, conscientização e impulsão para as transformações sociais e ambientais que o Brasil precisa. Sua difusão é gigantesca, alcançando milhões de espectadores e tem elevado impacto social.

No lado do ativismo social, levanta uma questão delicada, preocupante e, de alguma forma, nobre e honrada. Como explica a matéria de “A Geração do Amanhã” a história trata de ideais, sem deixar de tocar nas fragilidades que nos tornam humanos. O ativista, como bem demonstra a personagem de Leandra Leal (excelente) não é mostrado como um herói, mas como um profissional que vai para o trabalho como qualquer outro, que acredita em uma causa, porém não tem certeza se voltará para casa. Segundo a Global Witness, o Brasil é o primeiro lugar que mais mata ativistas no mundo (só em 2017, foram 57 mortos, 80% defensores da natureza). “Quando ativistas ambientais viram estatística, o que grita é a invisibilidade, a falta de valorização e reconhecimento dessas pessoas que têm como propósito de vida o cuidado com o meio ambiente, a luta contra o desmatamento ilegal, a extração ilegal de minérios, a contaminação de rios e a invasão de terras indígenas”.

Cinco temas que merecem ser analisados e discutidos

No conteúdo da narrativa, na composição e interação dos personagens, a série ensina várias lições para a gestão na vida das organizações e na sociedade, que sintetizamos em cinco temas principais:

1. Ética

Em um dos episódios, Natalie, que também tem um programa de TV, entrevista o empresário Miguel Kiriakos (Luiz Carlos Vasconcelos), dono da KM Mineradora, suspeito de explorar um garimpo ilegal dentro das terras de reserva indígena. Perguntado se não há outras formas de se obter riqueza na floresta sem matar índios, desmatar áreas protegidas e contaminar rios, extinguir a biodiversidade, optando por exemplo pela exploração da nova bioeconomia ou sobre a questão do mercado financeiro rever seus paradigmas do que é valioso, pois afinal "riqueza é um conceito inventado", diante da resposta negativa do empresário, ela improvisa ao vivo (para desespero dos produtores do programa) e tira todas as joias que estava usando, dizendo: "eu estou parando de usar ouro a partir de hoje, por que a minha riqueza é de outra ordem". Ela acaba criando uma onda que logo vai viralizar no país inteiro. Certamente inspirada na idéia do movimento PETA, de proteção aos animais, contra o uso de peles na indústria da moda (Eu não uso peles"), a cena é forte e mostra a importância da coerência e integridade. A ética não é só falar, mas se comportar de acordo com o valor moral no qual se acredita.

A série também aborda a ética sob o ponto de vista dos dramas pessoais que acontecem quando sentimentos e dilemas morais se misturam e nos confundem. O triângulo amoroso mostrado na história merece especial reflexão e discussão, ainda mais quando envolve pessoas que trabalham junto (que só não discutiremos aqui para não dar spoiler ao leitor). A questão da transparência, integridade e honestidade - princípios e valores universais – e sua influência nas relações pessoais e profissionais, por si só, já valeria uma aula de ética da virtude e pode ser muito bem explorada no contexto deste tema.

2. Responsabilidade Social Empresarial

Embora a KM seja fictícia, ela bem poderia ser qualquer mineradora que opera atualmente em qualquer país. A indústria de mineração, assim como as de energia e química, entre outras, é uma das que mais investe em responsabilidade social empresarial (RSE) e programas de sustentabilidade ambiental. Sua matéria prima é extraída diretamente do meio ambiente. Entretanto, a história recente tem mostrado que esta indústria vem provocando tragédias de gigantescas proporções, inclusive no Brasil como aconteceu em Mariana e Brumadinho. Na série, ironicamente o dono da empresa Miguel Kiriakos, suspeito de poluir o rio da região é cofundador de uma instituição filantrópica e se orgulha dos relatórios anuais de sustentabilidade da KM Mineradora. Participa de reuniões para captação de recursos beneficentes enquanto trama tomar posse de terras indígenas por meio de corrupção.

A dicotomia entre gerar empregos e preservar o meio ambiente também é discutida na série. Discussão atualíssima e sempre feita em meios acadêmicos - o crescimento econômico de um país que precisa gerar empregos e crescer economicamente deve preservar quantidades enormes de terras improdutivas, ou deve pensar primeiro no meio ambiente e não permitir o progresso? Serão coisas opostas? Incompatíveis? ... Na série, a advogada Verônica tem boas discussões com um importante Ministro do Governo Federal sobre o debate. Levanta a questão de soluções inovadoras conciliatórias, lucrativas e geradoras de emprego, como a bioeconomia, incluindo a biodiversidade. O Ministro fala da opção do governo por construir uma hidrelétrica. Ficamos com a noção de que a solução passa pelo governo e sociedade discutir juntos qual deve ser o modelo estratégico de progresso econômico desenvolvimento e social para o país.

Para ser coerente com sua narrativa, o conceito de RSE e sustentabilidade extrapolou a história e permeou toda a realização da própria produção de "Aruanas". Refletindo o compromisso socioambiental da Globo e da Maria Farinha Filmes, primeira produtora audiovisual brasileira certificada pelo Sistema B, a série reutilizou 90% do figurino, reciclando roupas de segunda mão, gerando menor produção de resíduos. A série ainda utilizou a plataforma de blockchain ZCO2 para neutralizar suas emissões de gases de efeito estufa (os cálculos das emissões foram auditados pela empresa SGS, líder global em certificação). Além do elenco e da direção, 47% da equipe de produção foi composta por mulheres, num movimento que valorizou o empoderamento feminino. No elenco, que contou com 131 participações e 2000 figurantes, 33,8% das pessoas moravam na região da floresta Amazônica. Ainda, de julho a outubro, 50% das vendas serão doadas para uma iniciativa (a ser revelada) de proteção da floresta amazônica.

3. Cidadania e valores éticos versus interesse pessoais e corrupção

A consciência e participação cidadã dos brasileiros cresceram muito nas duas últimas décadas. Mas ainda é pouco perto de países mais desenvolvidos. A série expõe feridas abertas que o Brasil está vivendo nos dias atuais como a corrupção, violência e polarização em diversos níveis e setores da sociedade. Desde o jeitinho brasileiro, o desrespeito as leis e instituições, a desigualdade social, a falta de integridade de alguns servidores públicos, a opressão de minorias (indígenas e meninas prostituídas), a marginalidade de milhares de cidadãos até a promiscuidade entre empresários e políticos, e a corrupção nos diversos níveis são mostrados de maneira explícita, impiedosa e contundente.

O jornalismo investigativo tem papel importante em qualquer sociedade para desvendar situações, conflitos e irregularidades que prejudicam o bem estar social. A personagem Natalie representa bem a relevância do espírito cívico em diversos momentos. Em um deles, ela questiona o seu chefe sobre se o seu programa deve se pautar pela realidade que verdadeiramente assola a sociedade ou atender o interesse dos índices de audiência e do poder econômico.

4. Propósito e Trabalho em equipe

Uma das cenas mais bonitas da série acontece quando as três protagonistas estão sentadas na grama em um parque, onde o filho pequeno de Luiza está brincando, e elas precisam tomar uma decisão crítica sobre seus próximos passos. Naquele momento elas falam, de forma sútil, emocionante e convergente, e em menos de um minuto, sobre propósito.

Propósito é algo que está no âmago da série. Já falamos muito sobre a importância do propósito na vida das organizações no artigo: "Empresas com propósito".

Como dito anteriormente, ser ativista é uma profissão de alguém com propósito claro e determinado em sua realização. A causa, a missão e o foco de qualquer organização – isto é, sua “razão de existir” – é o fator mais importante para o seu sucesso. Quando criado e executado de forma compartilhado, o propósito tem uma força poderosíssima. Os princípios e valores que norteiam a cultura de uma organização podem determinar sua perenidade e valor superior.

O trabalho em equipe na ONG Aruana serve como referência para times de alta performance. As pequenas situações que acontecem na equipe evidenciam como funciona um time assim: bem orientado por propósito e valores compartilhados. Cada membro tem seus talentos e individualidades, são afinados entre si e se ajudam mutuamente no desenvolvimento pessoal do outro. Destacam-se a sagacidade e pragmatismo do coordenador Falcão, o coleguismo e equilíbrio emocional de André e a genialidade criativa do nerd Ponto.com. A estagiária Clara, que vai amadurecendo profissionalmente e como pessoa durante toda a sua jornada, além de demonstrar sua evolução técnica, ajudada pelos colegas, tem uma importância na trama por representar a luta das mulheres que sofrem maus tratos e prostituição infantil.

No trio feminino central, a complementariedade de funções revela a chave do sucesso da ONG: a ativista Luiza cria o ato ou descobre a necessidade, a jornalista Natalie divulga e conscientiza, e a advogada Veronica as livra das enrascadas.

5. Ativismo e o imperativo dos ideais superiores

Os autores Renner e Nisti, conhecidos documentaristas de causas sociais e ambientais, em entrevista no Programa "Conversa com Bial", no úçtimo 03 de julho, afirmaram que qualquer pessoa pode ser ativista, defender causas importantes, não precisando ser um herói para isso, podendo fazê-lo de seu lugar. De fato, todo cidadão consciente tem essa responsabilidade: defender o que acredita será melhor para a sociedade e o planeta. Em uma cena, por exemplo, quando André explica para Clara quem é a advogada Verônica, ele explica que ela é a “lobista do bem”.

Inspirada livremente nos conflitos da Amazônia, tais como assassinatos a ativistas (José Cláudio Ribeiro da Silva, assassinado no Pará, é citado em um episódio), a série toca em uma realidade dolorosa (e que em muitas vezes é abafada) de milhares de brasileiros que vivem na Região Norte. Nesse sentido, a série valoriza o idealismo dos ativistas e ambientalistas como uma virtude moral de pessoas corajosas que defendem uma causa universal e que é de todos, mas que muitos de nós tememos abertamente assumir pelos riscos que envolvem e, também, pelas opções e comprometimentos pessoais que estão em jogo. Na série, Luzia dramatiza este estilo de vida: idealista, independente e corajosa, para se dedicar a sua carreira e dar significado a sua existência, ela põe sua vida em risco e precisa enfrentar dolorosas decisões pessoais em relação a seu filho, por exemplo.

Em um dos espisódios, enquanto Luzia sobrevoa a selva, com uma de suas colegas, ela reflete sobre sua luta, olha pela janela e dedica com entusiamo e emoção que seu trabalho é pela vida futura de seu filho.

Resumindo, a série acaba sendo uma lição inspiradora sobre ética, responsabilidade social e sustentabilidade, propósito, trabalho em equipe, ativismo e cidadania. Embora restrita aos assinantes da Globoplay, muito provavelmente este thriller será exibido futuramente na TV aberta ou em versão reduzida. Isso por que a série certamente vai ganhar grande repercussão no mercado nacional e internacional. E prêmios, é claro.

Por seu caráter ficcional, valorizado pela hábil narrativa dos autores que inclui todos ingredientes da clássica técnica de storytelling, como a fórmula da Jornada do Herói, “Aruanas” tem o forte e o urgente poder transformador para engajar mais práticas éticas e socioambientais nas organizações e inspirar e mobilizar todos nós para ter maior consciência e protagonismo em torno de valores morais positivos, da cidadania e da sustentabilidade econômica, social e ambiental.

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