Ambiguidades Administrativas

Alguns anos dentro do sistema eclesiástico, convivendo e realizando alguns trabalhos, consegui visualizar o que poucos pararam para pensar: o sistema administrativo eclesiológico. Sou teólogo por formação e, deveras eclético quanto à gama literária com qual me relaciono. Gosto de misturar a historia propriamente dita com a ficção, ao estilo Dan Brown, ficção cientifica, política e religião. Neste ínterim, comecei a estudar a co-relação entre o sistema administrativo eclesiástico e o sistema administrativo secular. Os protótipos são bem parecidos, porém, os resultados são totalmente diferentes. Dentro de um sistema religioso, seja ele qual for, há uma hierarquia bem definida. As mais simples são as mais proliferadas. Na maioria os comandantes, pastores, padres, rabinos, tem um poder impressionante de conduzir centenas de pessoas, sendo que uma boa porcentagem delas realizam trabalhos voluntários com extrema destreza. Os seguidores os reconhecem e os respeitam, fazendo dos trabalhos voluntários um ministério. O quê os faz seguir religiosamente os ritos? Quais os fatores motivacionais que os fazem trabalhar numa instituição com todo carinho e devoção, sem reclamar e ainda possuindo um sentimento de gratidão? Somente quem acompanha o cenário com visão investigadora pode observar o que os fazem motivados: A FÉ. Esta palavra parece vaga e sem nenhum sentido no âmbito administrativo, porém, é o diferencial. Seja no catolicismo, judaísmo, islamismo ou protestantismo, há uma aculturação nestes indivíduos onde a organização (igreja) passa a ser de seu domínio, ou seja, ele passa a ser acionista da instituição. O negócio passa a ser dele. Ele vive a sua crença, divulga-a e a defende com sua própria vida. Mas qual a recompensa para toda esta dedicação? A resposta é subjetiva, imensurável e apocalíptica, ao mesmo tempo em que é objetiva, mensurável e atual. Pode ser difícil entender o dualismo envolvido neste processo, mas é exatamente o que acontece. Monges, missionários, padres e rabinos dedicam suas vidas cada qual para sua instituição. São lideres/vendedores muito bem sucedidos, a prova é que em todo mundo há uma crescente religiosa. Isto é fato! Ao passo que as empresas estão cada vez mais afogadas. Qual a relação de uma administração eclesiástica de uma administração secular? Porque uma consegue absoluto sucesso e outra nem sempre? O que falta aos lideres administradores das organizações seculares que sobram nas organizações religiosas? As organizações seculares estão diariamente reciclando seus métodos administrativos. Há padrões estratégicos para toda e qualquer situação. Organogramas modificados a toda hora. Há uma carência de se conhecer uma infinidade de apetrechos enlatados, enfim, um labirinto indescritível de áreas (financeira, econômica, pessoal e produtiva), enfim, mesmo assim poucos conseguem trilhar o caminho do sucesso. Entretanto, as organizações religiosas mantêm seus padrões hierárquicos quase intocáveis por séculos, simples! Há necessidade de se conhecer bem sua organização, sua departamentalização e principalmente as necessidades do seu público, mas sempre com simplicidade. O público de ambas organizações muda constantemente. Isto requer atualização e constante aprendizado. As pessoas que adentram uma igreja ou uma loja de departamento são as mesmas. Mas as necessidades espirituais e seculares nem sempre são iguais! É bom salientar que com a crescente dificuldade secular as pessoas tendem a uma busca maior da espiritualidade. Entretanto, não é nos consumidores que estamos interessados, mas sim naqueles proporcionam a satisfação destes consumidores. Há alguns fatores que diferenciam estas administrações. Não é pelo fato de que uma é capitalista e outra geralmente filantrópica. Mas na capacidade de entender como suprir a necessidade de seu colaborador. Depois de conviver por trinta anos dentro de comunidades religiosas, visitar diversas instituições, entrevistar inúmeros lideres religiosos, percebi uma singularidade entre todos os lideres religiosos: buscam orientar sua comunidade através de uma doutrina especifica e quase sempre imutável, nunca os maltratando ou os fazendo se sentir inferiores. Por outro lado, mesmo não tendo tanto tempo de experiência nas organizações seculares (pelo menos metade do tempo do outro segmento), dediquei meu tempo nas grandes empresas por onde passei, observando o modelo de administração e controle das mesmas. Nos últimos anos, como acadêmico de administração e marketing, estou focando os estudos nos modelos administrativos apresentados pelos gurus internacionalmente conhecidos. Então, posso relacionar as duas sem algum temor de ser imparcial. As organizações eclesiásticas através de seus lideres, buscam sempre levar seus colaboradores (voluntários ou não) a uma dimensão espiritual que transcende a material. A busca da harmonia interna (consigo mesmo) e externa (com outros “irmãos” de fé da mesma ordem). É instrumento básico dentro das doutrinas escritas, ensinadas e seguidas onde os mandamentos que instruem a viver e anunciar sua fé dando testemunho de vida para que a organização onde participa seja respeitada através dele, e esta dependência é embutida de tal forma no seu subconsciente que o faz seguir um ciclo de conhecimento (tácito, explicito, sociável e internacionalizado), passando a ser um estilo de vida. Será que isso acontece numa organização secular? A resposta para tal pergunta geralmente é um tremendo NÃO. Ao invés de se incentivar ao crescimento, propriamente dito do colaborador, há uma cobrança inconsciente, tornando-o coagido a prestar um serviço somente por um salário, que nunca é satisfatório. O ciclo de conhecimento (tácito, explicito, sociável e internacionalizado) da instituição não é evidenciado no colaborador. As organizações seculares agem de maneira a suprimir o crescimento, ao invés de incentivá-lo a ser o melhor propagador de sua organização, não os fazem parte integrante da empresa, ou pelo menos se sentindo parte dela onde emprega a maior parte de seu tempo, ao contrário, faz com que se sintam escravizados, tornando-se resistentes a todas as modificações que a empresa implementar. Você já percebeu que é muito difícil alguém trocar de religião, mas muda de emprego a toda hora? Justamente esta consciência de se sentir parte integrante de uma família, de fazê-lo se sentir útil pelo que realiza é que faz o individuo totalmente compromissado e fiel. As organizações eclesiásticas fazem muito bem, trabalhando não somente o físico, mas o mental e o espiritual. Quando estes elementos forem percebidos pelas organizações seculares, não serão necessários tantos esforços e gastos em programas de integração. A administração é comum a qualquer um dos segmentos. Entretanto, o modo de conduzi-la é o que diferencia o sucesso de cada uma delas. Pense sempre em administrar sendo ponte para alguém, sendo parceiro e não inimigo do mesmo grupo que compartilha.
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