Alguns são mais iguais que outros

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.” George Orwell

Aos que tiveram o prazer de ler a obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell, essa frase resume toda a história que o livro aborda de maneira sutil, simples e detalhista. Em resumo, a história ocorre em uma granja em que os animais realizam uma revolução. Os porcos, que são ditos como animais superiores após a expulsão dos homens, tornam-se os lideres e organizam a bicharada, através de normas escritas. Com o passar do tempo as normas vão sendo adaptadas de maneira a permitir que os porcos usufruam de conforto e superioridade, enquanto os outros bichos apenas assistem a cena descrita tão originalmente no fim do livro: "Por fim, não dava para diferenciar quem era porco e quem era gente." Com um misto de ficção e realidade, o livro é baseado na Revolução Russa de 1917.


Mas o que está em questão é a frase no início citada, que originalmente nas leis era definida apenas como "todos os animais são iguais". A alteração "mas alguns são mais iguais que outros" foi depois introduzida para permitir que alguns animais tivessem direitos que a outros eram negados. Traduzindo aos dias atuais, o autor nos remete a reflexão de nossa condição de desigualdade de direitos.


Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo I, "Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade". Mesmo que por hora as próprias leis beneficiem mais a uns que a outros, será que temos realmente igualdade de direito? Essa reflexão não será voltada para a questão jurídica, até mesmo porque quem vos escreve não possui total domínio sobre essa área. Como administrador, devo orientar para alguns fatos que ocorrem nas organizações em que a igualdade de direito entre as pessoas não é levada em consideração, e que muitas vezes passam despercebidos aos nossos olhos.


Toda organização possui sua política interna. São normas estabelecidas, nem sempre formalmente disponíveis para acesso, mas que orientam o bom funcionamento das ações ao objetivo proposto. São regras de boa convivência e de limites impostos sobre os funcionários e que devem ser seguidas por todos.


Por todos. Pois bem.


Um funcionário chega na empresa, abre as portas de entrada do estabelecimento e se dirige rapidamente à máquina de ponto para efetivar sua chegada e iniciar seu trabalho. Ocupa-se com a chegada de clientes e deixa de abrir a porta do escritório e depósito. O chefe chega e chama-lhe atenção, pois quem abre o estabelecimento é responsável pela abertura de todas as portas que são necessárias para o início do funcionamento da empresa. Porém, no outro dia, quem chega primeiro é o chefe. Esse, como o funcionário no dia anterior, abre apenas a porta de entrada e se ocupa em atender clientes que chegam. As outras portas só são abertas quando outros funcionários chegam. Está correto?


Se existem normas elas devem ser seguidas por todos. A não ser que exista alguém com a exclusiva responsabilidade de abertura do estabelecimento, quem for fazer isso deve o fazer de maneira correta, não importando a qual grau da hierarquia faça parte. Até mesmo porque os superiores precisam ser modelo a ser seguido pelos demais.


Uma loja filial possui um carro para ser utilizado por todos os funcionários portadores de CNH. O gerente, por vezes, leva o carro para casa e o utiliza para fins pessoais a noite. O vendedor chega ao gerente e informa que gostaria de utilizar o carro para ir com os colegas de trabalho numa pescaria no fim de semana. O chefe não permite e afirma que o carro só pode ser usado para fins da loja. Ah é?


A funcionária aparece grávida e fica toda folgada, afinal ela não pode ser demitida segundo a CLT. O funcionário chega atrasado, pois a esposa tem uma gravidez de risco e precisa de seu apoio. É demitido.


O funcionário é chamado no setor de Recursos Humanos para ser chamada atenção. Ele foi visto freqüentando uma boate gay, em companhia de pessoas desse gênero. Em contrapartida, o outro funcionário da repartição pernoita os fins de semana em bares e boates "normais" e nem por isso é advertido. Ao contrário, o comentário nos corredores é que "o cara é um pegador".


O novo estagiário falta sem justificativa e é descontado de seu salário. O outro funcionário mais antigo na empresa falta e seu salário vem normalmente no fim do mês. Nessa mesma modalidade, são as saídas da empresa em horário de expediente para cumprir compromissos pessoais, geralmente característica de quem há mais tempo trabalha na empresa. Mais tempo de casa, sabe como é. Já é mais "igual".


Os novos funcionários são muito bem recebidos pelos seus gestores. Mas é claro que o que tem diploma da faculdade federal é mais valorizado que o outro que pagou uma faculdade particular no interior do estado. Ah é?


Entre outros exemplos, são as vezes grandes atitudes ou por ora pequenas que resultam numa única verdade: nem sempre todos tem o mesmo direito. Há diferenças de tratamento, de reconhecimento, de remuneração, de oportunidade e de outras tantas coisas mesmo que sendo inconstitucional e imoral. Diferenças de hierarquia, gênero, raça, sexualidade, tempo na empresa, formação ou qualquer outro não devem ser motivo para que haja diferença de direito. São todos membros de uma equipe e essa equipe deve ser tratada de maneira homogênea para que todos se sintam respeitados e valorizados pela empresa.


Claro que seria muita ousadia dizer aos chefes e líderes que revejam seus conceitos. Seria? Mas são pequenas atitudes, de funcionário para funcionário que já demonstram as diferenças de olhar que existe de um para o outro. Igualdade, o direito realmente difícil de ser conquistado e entendido.


Cabe a nós administradores saber lidar com a diferença que há em cada um e respeitá-las. Estabelecer claramente as políticas internas de nossas empresas e fazer com que todos as pratiquem e obedeçam. Todos os animais são iguais, nenhum é mais igual que outro.

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