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ALERTA: CRIANÇAS BEBENDO

Nas últimas décadas, o Brasil incrementou o combate ao tabaco, abolindo propagandas na TV, imprimindo fotos deprimentes em maços de cigarros, proibindo-os em shoppings, vôos domésticos e por aí afora. Nunca entendi porque não são tomadas providências semelhantes em relação a bebidas alcoólicas – afinal, ...

Nas últimas décadas, o Brasil incrementou o combate ao tabaco, abolindo propagandas na TV, imprimindo fotos deprimentes em maços de cigarros, proibindo-os em shoppings, vôos domésticos e por aí afora. Nunca entendi porque não são tomadas providências semelhantes em relação a bebidas alcoólicas afinal, não se tem notícias de acidentes de trânsito e homicídios perpetrados sob efeito da nicotina, mas é desnecessário lembrar os efeitos do álcool sobre o comportamento dos indivíduos. Contudo, esta complacência está com os dias contados e os últimos alertas da Organização Mundial de Saúde e entidades da área de prevenção e tratamento vêm forçando os poderes públicos a uma posição. Não é sem tempo: os brasileiros estão bebendo, e muito, cada vez mais cedo quando não experimentam outras substâncias que, igualmente, prometem aliviar a tensão, elevar a autoconfiança e, finalmente, fugir da vida real.
Não sabemos que medidas serão tomadas, mas, dia 07 de julho, foi instalada a Câmara Especial de Políticas Públicas sobre o Álcool, que trabalhará a partir dos estudos do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) criado em maio de 2003 a fim de dar subsídios ao governo federal para combater o que, no parecer da OMS, já é o maior risco à saúde da população. Diversos órgãos da administração federal, governos estaduais e municipais participaram do Grupo, que, inicialmente, aconselha restrição da venda e consumo em contextos de maior vulnerabilidade a situações de violência e danos sociais, indução de posturas municipais e medidas que restrinjam pontos de venda e consumo, controle e regulamentação da publicidade.

Contudo, é ilusão achar que, com isso, encerramos a questão. É preciso que a mídia e as escolas se mobilizem para que crianças e jovens desenvolvam uma postura crítica diante da cultura alcoólica que há no país. Até porque é em casa que, geralmente, eles percebem que o consumo de álcool é aceito e estimulado quantos pais não tomam algo para relaxar após o trabalho, ou por que estão sem trabalho algum? Se você está na adolescência, fase repleta de conflitos, por que não se valer do mesmo escape?


No Brasil, segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas e Psicotrópicos (Cebrid), da Unifesp, 48,3% dos adolescentes bebem (pesquisa em 107 cidades com mais de 200 mil habitantes). Já segundo a Unesco, que ouviu 50 mil alunos do ensino fundamental e médio, são 34,8% os que bebem. A idade da iniciação está entre 10 e 12 anos, quando há uma década era aos 14. Em junho, o MEC divulgou O 5º Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública, feito pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) e Cebrid. Foram ouvidos 48.155 mil alunos a partir de dez anos e verificou-se que o álcool é a droga mais usada; solventes, anfetamínicos e maconha, porém, são populares. A maconha, droga ilícita mais consumida no planeta, é usada por 7,6% dos brasileiros de 12 a 18 anos (em 1987, eram 2,8%).
O Relatório Mundial sobre Drogas 2005, divulgado este ano no Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (RJ), acrescentou que o país é um mercado promissor também para drogas sintéticas, e o que mais consome ecstasy no Cone Sul, formado por Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina (cerca de 0,2% da população entre 15 e 64 anos usa a droga).


Para quem está perguntando o que isto tem a ver com o uisquinho, cervejinha etc, destaco o levantamento feito, durante cinco anos, pelo Conselho Estadual Antidrogas (Cead) do Rio de Janeiro, que analisou o perfil de dependentes de drogas. Conclusão: 65% começaram com o álcool, e 10% o provaram antes dos 10 anos. O governo está investindo na prevenção, capacitando professores para prestar aconselhamento a alunos das duas mil escolas do estado.

A OMS afirma que o álcool é um desafio global e está na mira de nações do mundo todo. O Brasil só está atrasado: há dez anos o Cebrid já alertava que o consumo de álcool per capita no país crescera 74,53% desde 1970, três vezes mais que no Reino Unido (cuja população é famosa por gostar de um bom copo), enquanto em outros países decresceu expressivamente (na Argentina, menos 44%; na França, menos 34%). Na contramão, os brasileiros preferem ignorar que o habito de beber está relacionado a cerca de 60 doenças, 65% dos acidentes de trânsito fatais e 75% dos assassinatos, ou que o alcoolismo provoca a perda de 5% do PIB, considerando gastos médicos e aposentadorias.
Resta saber se nosso governo responderá ao desafio com ações eficazes ou continuará debatendo como fazer. Colaboro com uma sugestão: já que estampamos imagens desoladoras em maços de cigarros para desestimular fumantes, poderíamos veicular peças na TV mostrando a luta de um alcoólatra contra o primeiro gole do dia. Talvez assim crianças mal informadas desistam de buscar substâncias mágicas, lícitas ou não, que fazem com que esqueçam temporariamente seus problemas, mas também com que se tornem definitivamente incapazes de resolvê-los.


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