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ALERTA AO SISTEMA EDUCACIONAL: O BRASIL ENVELHECEU

O percentual de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil, que era de 7,3% em 1991, já é de 9,6% (cerca de 16 milhões) e atingirá 15% (32 milhões) em 2025, quando teremos a sexta maior população de idosos entre as nações. ..

O percentual de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil, que era de 7,3% em 1991, já é de 9,6% (cerca de 16 milhões) e atingirá 15% (32 milhões) em 2025, quando teremos a sexta maior população de idosos entre as nações. A multiplicação de brasileiros nesta faixa representa, segundo a Organização Mundial de Saúde, o maior crescimento populacional do mundo. Para se ter idéia, a proporção de idosos no país para cada cem crianças passou de 13,9 em 1991 para 19,77 em 2000; a quantidade de indivíduos com mais de 80 anos (1.832.105) cresceu 62% no período e, com mais de cem (24.576), cresceu 77%. Agora, a pergunta: o Brasil já parou para refletir sobre o significado destes números ou, ao se mirar no espelho, vê a falsa imagem de um país de jovens? Será que a ficha já caiu e percebemos que o envelhecimento forçará uma série de transformações em diversos setores profissionais e segmentos da sociedade? Provavelmente não.
A legislação avançou, mas, como sabemos, às leis devem se seguir ações que promovam as mudanças e eliminem os preconceitos. Em outubro de 2003, o governo aprovou o Estatuto do Idoso. Em 119 artigos, ele discorre como o Ministério Público deve agir em caso de violação dos direitos dos cidadãos que se encontram na Terceira Idade, estabelece que eles devem ter acesso facilitado à educação, saúde, habitação, lazer e transportes, e determina que sejam inseridos nos currículos de todos os níveis de ensino conteúdos que enfatizem a valorização do idoso. Não temos idéia se a determinação é cumprida na educação básica. Quanto à educação superior, com certeza tem deixado a desejar, a ponto da Comissão de Educação do Congresso Nacional decidir, recentemente, cobrar do MEC e da Capes mais estímulo a pesquisas sobre envelhecimento.
Ótimo que se faça pressão, mas o MEC não ignora a falha e, em maio, promoveu o 1º Seminário sobre Educação Superior e Envelhecimento Populacional, a fim de incentivar a comunidade acadêmica a criar uma rede de cooperação entre diversas áreas do conhecimento, de forma que as universidades possam contribuir na formulação de políticas públicas voltadas para o envelhecimento saudável. Insatisfeito, o diretor de programas da Capes, frisou que o tema, hoje, é objeto apenas de estudos isolados. Somente a partir do debate o órgão poderá investir em linhas de pesquisa que resultem, segundo ele, em serviços e produtos de qualidade.
De fato, a impressão é que as instituições de ensino superior limitam-se a prestar assistência a idosos, através de atividades de extensão ou em universidades abertas à terceira idade. Abro parênteses para elogiar esses cursos livres (mais de 200 no país), inspirados na Université du Troisième Age, fundada em 1973 em Toulouse, França. Ecléticos, são voltados para a atualização cultural, ensino de idiomas, de informática, atividades de lazer e até aprendizagem profissional, a gosto da clientela, formada em 90% dos casos por mulheres da classe C (renda entre um e cinco salários). Mas tais cursos devem se tornar também espaços de reflexão e pesquisas de alunos de todas as áreas das instituições aos quais estão vinculados.
Entretanto, estudos aprofundados sobre envelhecimento se restringem à Saúde, Economia, Sociologia ou Direito. Para a coordenadora de programas especiais da Capes, outras áreas devem se envolver. "Precisamos avançar sob o ponto de vista do planejamento urbano para atender os idosos, por exemplo, disse no seminário, aludindo ao pessoal da engenharia e arquitetura.
Talvez o descompasso entre universidade e o envelhecimento populacional resida no fato de os jovens não se darem conta que a velhice não começa repentinamente aos 60. Como alerta o Plano de Ação Internacional Sobre Envelhecimento, da ONU, é um processo que dura toda a vida e deve ser reconhecido como tal. Assim, o bem-estar ao envelhecer depende de como se vive a mocidade, e do suporte dado pela sociedade para que se possa aproveitar cada fase da vida, enfrentando problemas decorrentes da nossa natureza, mas explorando plenamente nosso potencial. E a preparação deve ter início na educação básica, conscientizando os alunos que, solidarizando-se com os idosos, defendem seus próprios interesses, já que estão sujeitos ao mesmo relógio.
No Brasil, a relação velhice/sacrifício é dominante. O sistema de saúde é precário, as aposentadorias são baixas (dos 23 milhões de aposentados, 18 milhões recebem um salário mínimo) e as empresas discriminam solenemente candidatos com muitos anos de estrada, não importando seus talentos. Ou formamos cidadãos sensíveis a esses problemas e competentes para modificar esse quadro, ou seremos vítimas de nossa negligência. A educação é a chave para que a Terceira Idade deixe de ser encarada como fase a ser suportada estoicamente, e passe a ser desfrutada e compartilhada com indivíduos de todas as idades, num exercício de convivência e cidadania, visando à uma sociedade menos restritiva e alienada.


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