Café com ADM
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Administrar é para Administradores? (Ou O Eterno Sofisma)

Participo de grupos de Administração desde 1998, por aí...
Naquela época, trabalhava em negócios de minha família e empurrava com a barriga um curso de Direito. Não nasci pra seguir carreira jurídica. Acontece que, quando eu tinha 16 anos, não fazia a menor idéia sobre qual curso escolher. Sei que isso é bastante comum e é a grande causa para a formação de péssimos profissionais. Vamos ser sinceros? É muito fácil terminar um curso superior. Depois é que são elas.

Sempre gostei de estudar, mas como não gostava de Direito, ocupava meu tempo estudando Administração. Era uma correria pra cima e pra baixo buscando adquirir conhecimentos sobre gestão empresarial e marketing. Leituras, cursos de fim de semana, debates nos grupos de discussão e uma eterna sede por aprender mais.
Resultado: inverti o rumo de minha carreira, tranquei a faculdade de Direito e prestei vestibular para Administração no fim do ano.

Paixão à primeira vista! Sério mesmo, sou verdadeiramente apaixonado por Administração. Por outro lado, pude comprovar pela minha trajetória que o conhecimento não é restrito a um determinado grupo de pessoas. O conhecimento é acessível a quem o procura.

Apesar de ter encontrado no curso de Administração as ferramentas necessárias para o exercício dessa atividade, confesso que elas estão disponíveis por aí a qualquer pessoa que queira aperfeiçoar as suas habilidades de gestão.

"Administrar é para administradores?" é um debate que vai e vem eternamente em fóruns, encontros e grupos de discussão. Árduos defensores dessa premissa apresentam argumentos típicos como "somente um médico pode exercer a medicina; um engenheiro, a engenharia; um advogado, a advocacia; um contador, a contabilidade..." e aí por diante. Baseados nisso, chegam à conclusão que administrar é para administradores e que deve haver o cumprimento da Lei 4.769, de 9 de setembro de 1965, que regula o exercício da profissão do Administrador. Essa lei, em seu artigo 3°, estabelece os campos de atividades profissionais exclusivas do Administrador. Vou copiar e colar:

(...)
"c) exercício de funções e cargos de Administrador do Serviço Público Federal, Estadual, Municipal, Autárquico, Sociedades de Economia Mista, empresas estatais, paraestatais e privadas, em que fique expresso e declarado o título do cargo abrangido;
d) o exercício de funções de chefia ou direção, intermediária ou superior assessoramento e consultoria em órgãos, ou seus compartimentos, da Administração pública ou de entidades privadas, cujas atribuições envolvam principalmente, a aplicação de conhecimentos inerentes às técnicas de administração;
e) o magistério em materiais técnicos do campo da administração e organização."

Viram só? Mais na frente, a Lei estabelece que, para o exercício da profissão de Administrador, é obrigatória a apresentação da Carteira de Identidade do Administrador, expedida pelo CRA. Inclusive há previsão de punição para a falta do registro. A lei ainda diz que haverá fiscalização dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal em todo o território nacional.

Uma coisa que aprendi bem no meu curso de Direito é que uma lei se revoga pelo desuso. A lei de 65 nunca foi cumprida e de lá pra cá, muita água já passou debaixo dessa ponte. Não devemos esquecer que o ordenamento jurídico é lento em sua essência. Já a Administração, pelo contrário, está em constante evolução.

Sinceramente, reserva de mercado para administradores é pensar dentro do quadrado. A bem da verdade, sabemos que o mercado é uma força viva, em constante evolução. É o mercado quem determina que tipo de profissional está precisando. Não há como formular uma lei ou norma que garanta ao administrador - e somente a ele - o direito de administrar. Vejam bem: se o administrador não apresentar as competências que o mercado lhe exige, será expurgado, descartado, dando lugar a quem apresente tais habilidades, podendo ser um engenheiro, economista, programador, psicólogo, ou quem quer que seja.

Abracei, sim, a causa dos administradores. Estou empenhado em contribuir para o crescimento dessa profissão e disposto a cobrar de nossos Conselhos uma atuação mais efetiva. Mas o furo é mais embaixo e deixo aqui o meu alerta. Existem falhas no processo de formação do administrador que devem ser supridas. Muitas faculdades pararam no tempo e não estão transmitindo conhecimentos atualizados sobre administração e tampouco desenvolvendo as habilidades que o mercado precisa. Estão formando profissionais obsoletos que não podem ser absorvidos pelo mercado. Há falhas no formato de ensino e há falhas na postura dos estudantes que escolhem essa carreira e adotam uma posição passiva em relação às deficiências relatadas.

Mas vamos ser proativos. A proposta que defendo é de uma reformulação total no ensino da Administração. Aliás, vamos usar um termo da moda: é preciso reinventar o nosso curso. As nossas aulas expositivas, focadas na figura do professor, devem ser substituídas por aulas participativas, focadas no desenvolvimento do aluno. Podemos começar mudando as posições das cadeiras: experimentem formar um "U" e conversem mais durante as aulas. A comunicação é essencial para a formação de líderes. É preciso tirar o gesso da nossa grade curricular, eliminar algumas disciplinas inúteis e incluir outras novas. É preciso que a universidade acompanhe as mudanças da Administração.

Formando um novo tipo de Administrador, a premissa será verdadeira e a lei dispensável. Administrar estará para o Administrador assim como a regência está para o maestro.

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