Acordo comercial: evitando turbulências econômica e cambial
Acordo comercial: evitando turbulências econômica e cambial

Acordo comercial: evitando turbulências econômica e cambial

Os ajustes que têm de se fazer são razoavelmente óbvios, mas eles serão também dolorosos, financeira e politicamente

Visto dos Estados Unidos da América ( EUA ), o Japão tem um superávit recorde - e aumentando em seu balanço de pagamentos e em seu comércio internacional. Visto do Japão, este superávit parece mais uma baixa contábil recorde de imensos prejuízos de estoque.

Visto dos EUA, o iene japonês é a mais forte das moedas do mundo livre, talvez ainda subvalorizada a duzentas unidades monetárias por dólar e impedida de subir mais unicamente em função da flutuação suja - intervenções em grande escala do Bando do Japão. Vista do Japão, a força do iene parece transitória e ilusória.

Vista dos EUA, a política econômica japonesa parece muito bem-sucedida - um verdadeiro rolo compressor comercial que desconhece limites. Vista de Tóquio, o Japão está começando agora a ter de enfrentar as consequências de monumentais erros econômicos e comerciais que ameaçam afundar ou, no mínimo, desacelerar o rolo compressor.

Os empresários japoneses e representantes do governo japonês que participaram de uma rodada de seminários e reuniões que Peter F. Drucker realizou no Japão no verão de mil novecentos e setenta e sete - a décima destas visitas em dezoito anos - estavam todos melancólicos. Na superfície, não se percebia muito sua preocupação. Os restaurantes e bares estavam cheios; não havia um quarto disponível nos resorts e não havia mais passagens disponíveis para aviões e trens no Dia Nacional da Cultura, em três de novembro; as compras consumo estavam em níveis inéditos; os comerciantes esperam um recorde de vendas na temporada de Natal.

Quanto ao desemprego, o número oficial era de menos de dois por cento.

No entanto, os empresários japoneses e representantes do governo japonês podem ter amplos motivos para seu mal-estar, embora não pelas razões que costumam emitir em público.

Em primeiro lugar, o Japão está com imenso excesso de estoques de materiais industriais de alto preço. "Geralmente mantemos cinco ou seis meses de estoque de areia para a fabricação de vidro", disse a Drucker o presidente de uma grande fabricante de vidro. "Agora, temos o suficiente para t~es anos inteiros de produção.".O marido de uma amiga de Drucker, um executivo de médio escalão de uma empresa têxtil, todo dia ia para o trabalho e ficava dez horas na sua mesa fazendo pouco mais que ler contos policiais; ele é gerente de produção, e a empresa não produziu nada em cinco meses porque todos os seus armazéns estavam lotados de mercadorias não vendidas.

Em outubro de mil novecentos e setenta e sete, o Japão e a Austrália iniciaram sua guerra do açúcar. As refinarias de açúcar japonesas haviam firmado contrato em mil novecentos e setenta e quatro para comprar toda a safra australiana de açúcar de mil novecentos e setenta e seis e mil novecentos e setenta e sete aos preços mais altos em vigor - cinco a oito vezes os preços vigentes em outubro de mil novecentos e setenta e sete. Quando os australianos começaram a entregar, os japoneses se esquivaram de seus compromissos. Houve um momento em que cento e cinquenta navios estavam presos no porto de Tóquio, esperando para descarregar açúcar.

O mesmo se aplica ao cobre, minério de ferro, polpa, enxofre e carvão coque. Os japoneses, e sobretudo os membros do governo, foram tomados de histeria em mil novecentos e setenta e quatro, quando faltas de matéria-prima começaram a pipocar em toda parte. Eles compraram, compraram, compraram. Agora, estão tentando freneticamente se livrar do compromisso de aceitar as entregas e cortaram as importações quase pela metade. Mesmo assim, os estoques industriais estão inchados de matérias-primas caras. ( Aparentemente, a mesma coisa está acontecendo com alguns produtos acabados: um outro amigo de Drucker chegou a contar que seu ministério ainda tinha estoque de papel higiênico para dois anos, resultado da ameaça de escassez de dez anos antes. )

O segundo erro dos japoneses foi cometido em mil novecentos e setenta e cinco e mil novecentos e setenta e seis. A indústria japonesa não apenas continuou produzindo quando a demanda mundial caiu, como efetivamente aumentou a produção em muitos casos. A necessidade de manter o nível de emprego foi responsável por isto apenas em parte e, provavelmente, a menor parte.

A principal razão foi o erro de cálculo. Os japoneses, e, de novo, especialmente os membros do governo, esperavam uma aceleração da inflação mundial e uma rápida recuperação da demanda nos mercados do Japão, em especial na Europa. "Tomamos a decisão de liberada de acelerar a produção", disse o vice-presidente executivo de uma fabricante de baterias e pilhas. "Esperávamos que os preços mundiais subissem trinta por cento. Ao contrário, eles caíram e, em meados de mil novecentos e setenta e seis, tínhamos o equivalente dois anos inteiros de vendas em nossos armazéns.".

Quando os bancos começaram a pressionar para receber o pagamento dos financiamentos de estoques, o esforço exportador do Japão entrou em marcha acelerada. Mas os estoques de produtos acabados de muitas indústrias - siderúrgica, têxtil e de eletrônicos de consumo - ainda estão bem altos.

O erro final foi a resposta japonesa á sua situação difícil. Em parte pelo consenso entre governo, empresas e sindicatos de trabalhadores, os quais estão muito mais interligados no Japão do que em outras nações industrializadas, em parte por causa do aspecto político da situação, os japoneses decidiram manter os preços domésticos altos e concentrar esforços em aumentar as exportações. os produtos para exportação estão sendo precificados de modo a vender rápido; e os retornos mais altos das vendas domésticas estão sendo usados para compensar os prejuízos das exportações.

Houve exceções. Akio Morita, por exemplo, presidente da Sony Corporation, é conhecido por sua posição altamente crítica em relação a esta política. A Sony, talvez a única entre as maiores empresas japonesas, baixou seus preços no Japão e simultaneamente os aumentou no mercado de exportação.

Os líderes empresariais japoneses perceberam que sua estratégia trazia o risco de provocar extrema reação protecionista no exterior. Mas, politicamente, a estratégia era irresistível, especialmente para os sindicatos de trabalhadores. Parecia ser a única maneira de possibilitar às empresas continuar aumentando salários e benefícios. Em mil novecentos e setenta e cinco, por exemplo, os salários e benefícios subiram quase quarenta por cento, possibilitando aos consumidores pagar alguns dos preços mais altos do mundo. ( A carne de segunda é vendida a quinze dólares ou vinte dólares a libra - aproximadamente trinta dólares ou quarenta dólares o quilograma - em Tóquio, o peixe é quase tão caro quanto a carne, e o matsutake, o popular cogumelo japonês, chega a custar quarenta dólares a libra - aproximadamente oitenta dólares o quilograma. )

Agora, porém, o Japão enfrenta uma reação protecionista de grandes proporções, conforme se torna rapidamente claro nos EUA. Suas próprias políticas protecionistas estão elevando o iene para um patamar em que o Japão está se tornado um dos produtores de mais alto custo entre os países industrializados. Boa parte do excesso de estoques ainda permanece e, no entanto, o Japão se depara com a perspectiva de ser forçado a reduzir acentuadamente as exportações para não perder acesso permanente aos principais mercados do mundo.

Abrandar a proteção agrícola - talvez mudando de um sistema de restrição às importações para um sistema de subsídio direto à agricultura, como nos EUA ou na Grã-Bretanha ( GRB ) - já seria meio caminho andado para dar uma encolhida no superávit da balança comercial. esta medida também diminuiria a ameaça à capacidade do Japão de competir, representada pelos custos exorbitantes dos alimentos e pelas consequentes demandas salariais. Até agora, porém, só houve concessões simbólicas - para Nova Zelândia, por exemplo, que ameaçou proibir o seu acesso ao mercado japonês de carne e laticínio não fosse melhorado.

Mas são necessárias medidas mais heroicas. Uma delas seria fazer uma verdadeira venda especial de queima de estoque, vendendo uma quantidade enorme de seus estoques a preços baixos e condições de crédito favoráveis a países de economia não de mercado, em especial a China comunista.

Foi assim que o fabricante de baterias e pilhas mencionado anteriormente limpou os seus estoques. O problema é que não há muito daquilo que o Japão fabrica que a China precise em quantidade; a demanda dos chineses por televisores, por exemplo, tende a ser limitada, para dizer o mínimo. No entanto, aço, produtos químicos e produtos de plástico podem ter mercado na China, e talvez também na antiga União Soviética ( atual Federação Russa ). Um grande acordo comercial com estes países no futuro próximo não seria surpresa.

Mas, acima de tudo, espere um período de turbulência na política econômica e cambial japonesa. Os ajustes que os japoneses têm de fazer são razoavelmente óbvios, mas eles serão também dolorosos, financeira e politicamente. Outras informações podem ser obtidas no livro Os novos desafios dos executivos, de autoria de Peter F. Drucker.

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    Cláudio Gama

    Cláudio Gama

    Analista Técnico em Gestão Governamental na função de Administrador no Governo do Estado de Santa Catarina/Secretaria de Estado da Casa Civil - SCC. Especialista em Gestão Pública pela Faculdade Municipal de Palhoça-SC. Curso de Especialização em Gestão em Saúde pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC (concluído sem obtenção do título). Administrador formado pela Universidade Federal do Paraná- UFPR. CRA-SC nº 24.673. Tecnólogo em Gestão Pública formado pela UFPR. CRA-PR nº 200.185 e CRA-SC nº 600.285. Técnico em Gestão Pública com ênfase em Administração Municipal formado pela UFPR.
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