Accountability, transparência e o ovo da serpente

“Qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado.” (Dr. Hans Vergerus, personagem do filme O ovo da serpente, de 1977)

Para quem gosta de um bom filme, sobretudo os que têm como plano de fundo eventos históricos, vale a pena assistir O ovo da serpente, do sueco Ingmar Bergman. Rodado em 1977, ele retrata a Alemanha nos primeiros anos após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), momento em que surgiam os primeiros movimentos rumo ao totalitarismo nazista, regime político que dizimou milhões de pessoas e devastou grande parte da Europa Ocidental.

Todavia, o que interessa em relação ao filme, mais especificamente quanto ao seu título, é o risco proveniente da existência de opacidades num dado contexto social, seja este representado por uma família, uma empresa ou, até mesmo, uma nação. Ressalte-se que não se está discutindo neste artigo como surgiu o nazismo, mas sim como a falta de luz sobre uma dada realidade acarreta perturbações que atingem e comprometem um sistema social equilibrado.

E o que tem a ver o título de um filme rodado há 39 anos com a Administração?

Pois bem. Considerando que a função controle compõe o processo administrativo tal qual conhecemos nos cursos de Administração, saber identificar o que está por trás da “casca do ovo” faz toda a diferença. Isso porque é menos trabalhoso, custoso e traumatizante para as organizações mapear e tratar riscos do que solucionar problemas. E lidar com riscos adequadamente só é possível quando existem harmonia e equilíbrio entre a governança corporativa, a gestão de riscos e o sistema de controles que dão sustentação às ações organizacionais.

Para ilustrar, basta pensarmos nos principais escândalos do mundo corporativo neste século: da Enron ao Petrolão, sempre houve um quê de opacidade que abriu caminho para perturbações sistêmicas, de maneira que as organizações atingidas sofreram perda de eficiência e eficácia a curto prazo e de efetividade a longo prazo. E organização que não produz resultados capazes de gerarem transformações sociais, tampouco atende as necessidades de seus stakeholders, tende à extinção.

Quanto à Administração Pública, o risco se potencializa quando faltam accountability e transparência nas ações do gestor público, o que abre caminho para a serpente se desenvolver, eclodir do ovo e causar estragos.

Para ilustrar, basta pensarmos que o Governo Federal anda preocupado com a possibilidade de seu principal adversário político, Eduardo Cunha, ter indicado e colocado, diretamente ou por meio de aliados, dezenas de apaniguados nos três primeiros escalões do governo. Tal possibilidade se deve, principalmente, à falta de um sistema de meritocracia no Serviço Público que afaste o risco de fisiologismos e corporativismos sobre o aparelho estatal. Além disso, a “guerra simulada” entre caciques políticos do PMDB tem contribuído para o Governo Federal fazer uso do patrimonialismo para pender a seu favor uma guerra que não existe.

À luz do exposto, ficam a dica de filme e a reflexão acerca do potencial pernicioso da falta de accountability e transparência para a sustentabilidade de um negócio.

Um forte abraço a todos, sobretudo aos amigos e amigas de Vitória (ES) pelos insights, e fiquem com Deus!

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