ABRIL DE 2005, PARA LER E REFLETIR

Vamos entrando em abril, quando celebramos o Dia Internacional do Livro (dia 23, por ser a data em que morreram dois marcos da literatura mundial...

Vamos entrando em abril, quando celebramos o Dia Internacional do Livro (dia 23, por ser a data em que morreram dois marcos da literatura mundial: Shakespeare e Miguel de Cervantes), o Dia Internacional do Livro Infantil (dia 02, porque nele nasceu Hans Christian Andersen) e, também, o Dia Nacional do Livro Infantil (dia 18, quando nasceu Monteiro Lobato). Haja fôlego. Como não bastasse, este abril está inserido no Ano Ibero-americano da Leitura, ou Vivaleitura, como o governo brasileiro o batizou. Para quem não sabe, há dois anos, os 21 chefes de estado ibero-americanos decidiram, em reunião de cúpula, que 2005 seria dedicado à promoção de políticas públicas de incentivo à leitura nos países da região. E não podemos dizer que o Brasil ficou de braços cruzados: antes mesmo do ano começar, o Presidente Lula assinou lei desobrigando as empresas do ramo livreiro do pagamento do PIS e Cofins, que pesavam 9,25% sobre seu faturamento. Uma vitória e tanto. Ou nem tanto?
Como o próprio presidente afirmou na ocasião, reiterando a necessidade de uma campanha nacional de incentivo à leitura: O governo pode fazer as suas bibliotecas, o governo pode fazer os pontos de leitura, o governo pode baixar impostos, mas o governo não tem como obrigar as pessoas a ler. Absolutamente correto. Brasileiros lêem pouco e mal, e, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro, nem mesmo a população adulta alfabetizada se salva: apenas a terça parte aprecia, de fato, ler.

Mas, antes de sugerirmos o que o governo pode fazer a respeito, vejamos o que revela a pesquisa Retrato da leitura no Brasil, divulgada pela CBL: entre 17 milhões de brasileiros que declaram não gostar de ler, 11,5 milhões têm até oito anos de instrução (ensino fundamental); 61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm pouco ou nenhum contato com livros; entre dez não-leitores, sete têm baixo poder aquisitivo; 6,5 milhões de pessoas das camadas pobres dizem não ter condições de adquirir livros; as classes B C concentram 70% dos apreciadores de livros; 73% dos livros, no Brasil, estão nas mãos de 16% da população; 58% dos compradores de livros encontram-se em seis estados do Sul e Sudeste; em 89% dos municípios não há livrarias: em todo o país há 1.500, quando dez mil seriam o ideal; em 1.300 não há bibliotecas; nos Estados Unidos, 30% dos livros editados são adquiridos por acervos públicos, enquanto no Brasil somente 1% destina-se às bibliotecas; a aquisição de livros por bibliotecas norte-americanas é maior que todo o consumo brasileiro. Outros dados: nosso consumo de livros per capita resume-se a 3,87 por habitante/ano (seis é o mínimo aceitável) se considerarmos a população alfabetizada maior de 14 anos (86 milhões); considerando a população inteira, o índice baixa para 1,87 por habitante/ano. Mais? Livros didáticos representam 59% dos exemplares vendidos (na Europa, são 18%). Em outras palavras, 59% dos exemplares são lidos por obrigação.


Poderíamos arriscar, ainda, que o preço dos livros, alto demais devido às baixas tiragens, constitui outro empecilho ao hábito da leitura. Mas o problema é mais grave. Não são apenas os livros que estão ausentes do cotidiano brasileiro. Jornais são lidos apenas uma vez por semana por 38% da população instruída. E, no futuro, a situação não será melhor, pois a maior parte dos jovens também não se sente atraída por textos impressos: 80% não lêem jornais, 62% não lêem livros e 57% não lêem revistas (Unesco). Aliás, não mais que duas revistas são vendidas ao ano por habitante (nos Estados Unidos são 30 e, na França, 47).
Logo, há outras razões que não a baixa renda para a aversão nacional à leitura. Uma delas é, simplesmente, a dificuldade. Quando, há quatro anos, o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA) testou as habilidades de leitura entre adolescentes de 15 anos de 32 países, o Brasil amargou a última posição. Convenhamos: se, aos 15 anos, um indivíduo é incapaz de decifrar um texto mais complexo que um manual de instruções, que chances tem de, algum dia, sentir prazer ao abrir um livro? Como uma ação pode se tornar hábito, se está além da capacidade de alguém?


Assim, voltando ao comentário do Presidente, o governo não pode obrigar ninguém a ler, mas pode implementar ações a fim de melhorar o ensino da Língua Portuguesa nas escolas públicas, onde estudam mais de 80% de nossas crianças e jovens. Eis a providência inicial para formarmos leitores: fazer com que os mais de 50 milhões brasileiros que estão nas salas de aula compreendam e aprendam a explorar seu idioma. O segundo é fazê-los ler: de tudo e bem. Não só clássicos, mas autores atuais, jornais, revistas, gibis e textos da Internet. É na infância e adolescência que adquirimos os hábitos mais arraigados e percebemos que ler nos enriquece com um tesouro de informações, abre horizontes e fornece respostas aos nossos questionamentos. Para quem não nasceu em uma família de leitores, caso da maioria da população, a escola é o único espaço onde terá a oportunidade de se tornar um. Para que as novas gerações não percam essa oportunidade preciosa, vamos equipar estabelecimentos de ensino e preparar os professores a fim de que estreitem a distância entre seus alunos e os livros. Isso, o governo pode. Para que o ano Ibero-americano da leitura não seja página virada e em branco.


Presidente da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro


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