A VEZ DO ENSINO TÉCNICO

O ensino superior se tornou destaque na mídia impressa quando o assunto é educação. Segundo a Pesquisa “A educação na Imprensa Brasileira” (parceria da Agência de Notícias dos Direitos da Infância, MEC e Unesco), ele foi o tema de 33,4% dos 5.362 textos jornalísticos publicados em 2004 – o ensino fundamental apareceu em 8,4%, seguido pelo ensino médio, com 5% da cobertura.

O ensino superior se tornou destaque na mídia impressa quando o assunto é educação. Segundo a Pesquisa A educação na Imprensa Brasileira (parceria da Agência de Notícias dos Direitos da Infância, MEC e Unesco), ele foi o tema de 33,4% dos 5.362 textos jornalísticos publicados em 2004 o ensino fundamental apareceu em 8,4%, seguido pelo ensino médio, com 5% da cobertura. O então Ministro Tarso Genro, oportunamente, sugeriu à imprensa fazer um corretivo; afinal, em um país onde somente 43% das crianças que ingressam na educação básica chegam a concluí-la, e milhões de estudantes abandonam o ensino fundamental e médio todos os anos em busca de ocupação, sem estarem minimamente qualificados, jogar o foco sobre o terceiro grau significa relegar a segundo plano os dramas enfrentados pela maioria dos jovens deste país. E não levar em conta os novos paradigmas do mundo do trabalho.
Embora a preocupação com o ensino superior seja procedente, sobretudo devido aos debates em torno do anteprojeto da reforma universitária, o fato é que há problemas peso-pesado a serem solucionados no âmbito de uma modalidade também vital para a superação de desigualdades regionais e sociais: o ensino profissional de nível técnico. Encarado com anacrônico preconceito por parte da sociedade, como se se tratasse de qualificação profissional de segunda, ele, porém, é uma prioridade em países onde as empresas não admitem trabalhadores improvisados.
No Brasil, só agora estamos revendo objetivos e métodos do ensino técnico, que passa a ser regido por princípios pedagógicos adequados à era da informação, como o desenvolvimento de competências em especial a competência do trabalhador para absorver novos conhecimentos ao longo da vida. Sob esta perspectiva, o Conselho Nacional de Educação, em 1999, definiu as diretrizes curriculares para a modalidade, e as escolas técnicas têm reformulado seu modus operandi, atraindo alunos de várias faixas etárias e sociais. De tal forma que, segundo a Secretaria de Educação Tecnológica do MEC (Setec), é preciso triplicar o número de vagas a fim de atender à demanda: o censo escolar de 2004 registrou no ensino técnico 676 mil matrículas em 3047 estabelecimentos aumento de 9,25% em um ano. A maioria (84,21%) pertence à rede privada, vindo em seguida os estaduais (602), federais (143) e municipais (130). Segundo especialistas, a expansão relâmpago é impossível, em virtude do alto custo para abrir cursos e manter alunos o custo/ano do aluno do ensino técnico é de R$ 1.576/ano (dados de SP).
Ainda assim, o MEC anunciou 54.136 novas vagas em cursos de nível médio e superiores de tecnologia e a criação de 32 escolas federais, abrangendo 1.300 municípios em 18 estados. A expansão custará R$ 70 milhões. Além disso, as instituições devem aumentar em 20% as vagas para educação de jovens e adultos (EJA) até 2007, como estratégia para levar à escola, em 15 anos, 65 milhões de trabalhadores sem formação. A Setec está aceitando sugestões para o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade EJA (Proeja). A idéia é que os cursos aliem o conteúdo do ensino médio ao técnico.

A cisão entre as modalidades foi forçada no governo FHC pelo decreto 2.208, causando uma chuva de protestos que só parou com a assinatura do decreto 5.154 pelo presidente Lula, permitindo a reintegração. O atual governo criou, ainda, o Fórum de Educação Profissional e Tecnológica. E marcou ponto com o Projeto Escola de Fábrica, calcado em parcerias, que promete atender cem mil jovens de baixa renda, entre 16 e 24 anos (faixa que, segundo estudo recém-lançado pelo Dieese, contribui com 46% dos desempregados), até o fim de 2006. Eles terão aulas em empresas que desejam treinar mão de obra. Assim, possibilita-se a empregabilidade de jovens que, de outro modo, poderiam deixar os estudos (exige-se que freqüentem a rede regular de ensino), e as empresas terão como montar um quadro de funcionários capazes de imprimir eficiência aos processos de produção.
Finalmente, lembro o Plano Nacional de Educação, aprovado em 2001, que alerta para as carências e improvisações generalizadas (...) verificadas em estabelecimentos de educação profissional. Creio, portanto, que apenas iniciamos o processo para conferir ao ensino profissional o status merecido. O próximo passo é aferir a qualidade das escolas técnicas. Afinal, já se foi tempo em que elas existiam para adestrar operários. Elas existem para que o mercado de trabalho conte com profissionais bem preparados em todas as áreas de atuação. Para que, enfim, o próprio país se profissionalize. Voltando ao início: é ou não um bom tema para a imprensa explorar?




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    Magno Maranhão

    Magno Maranhão

    Educador e Consultor da área da Educação, Magno de Aguiar Maranhão é Licenciado em Letras, Mestre em Lingüística e Especialista em Administração Universitária.
    Ocupa, hoje, os cargos de Superintendente da Fundação Técnico Educacional Souza Marques e Presidente da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro, além de ter atuado como conselheiro no Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro e, ocupado diversos cargos em Universidades, Centros Universitários, Faculdades e Colégios no País. É autor do livro Educação Brasileira - resgate, universalização e revolução

    Site: www.magnomaranhao.pro.br

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